UTILIZAÇÃO ANIMAL

O uso de animais na investigação científica é muito importante, embora nem todos os segmentos da sociedade brasileira compreendam isto.

A resolução nº196 (de 10/10/96), do Conselho Nacional de Saúde do governo brasileiro, reconhece a importância e a necessidade da experimentação animal e estabelece que toda investigação envolvendo seres humanos deve estar fundamentada na experimentação prévia realizada com animais.

Entretanto, a despeito desse esclarecimento, o uso de animais na investigação científica tem sido questionado por alguns segmentos da nossa sociedade...

A utilização de animais na investigação científica está associada a descobertas de forte impacto social e com o aumento da longevidade e do bem-estar das pessoas; desde 1901, grande parte dos detentores do prêmio Nobel realizaram suas pesquisas com animais...

As pessoas comuns têm uma visão bastante ingênua a respeito do uso de animais na pesquisa científica e o seu interesse pelos animais é bastante seletivo, mais dirigido aos mamíferos de grande porte, espécies altriciais ou animais que tenham alguma proximidade com o homem (principalmente cães, gatos e primatas de modo geral).

Existe uma grande variedade de organismos (peixes, répteis, moluscos, insetos, etc) que são simplesmente ignorados e não despertam o interesse do leigo ou daquelas pessoas que se mostram contrárias ao uso de animais na investigação científica...

Além disso, é importante ressaltar que a população brasileira faz uso freqüente de nomes de animais para designar uma pessoa ("sua girafa!", "seu burro", "sua baleia", "serpente" etc), usa um número considerável de verbos ("gatunar", "espreguiçar", "galinhar", entre outros) ou formula frases ("bêbado como um gambá", "seu cabeça de bagre!", "falso como uma serpente"), sempre usando um animal-modelo para depreciar uma pessoa ou uma atitude humana...

Esta visão, ao lado do apego injustificado aos animais de grande porte, revela que as pessoas exibem um sentimento extremamente contraditório em relação a este domínio e não compreendem a real importância do uso de animais na investigação científica.

Neste sentido, o interesse das pessoas comuns pelos animais – que vem aumentando com o passar do tempo – e a necessidade cada vez maior de uso de animais na investigação científica, em razão do surgimento de novas doenças ou do fortalecimento de vírus e bactérias às drogas existentes, podem dar surgimento a inúmeros conflitos entre os praticantes da ciência básica e experimental e os defensores dos direitos dos animais.

Os animais são utilizados em diversos setores da atividade humana. Em alguns casos o uso é plenamente justificado, tal como na indústria de alimento e experimentação científica. Em outros casos, nota-se que o uso é altamente questionável, mas a prática é difícil de ser eliminada em razão da forte influência cultural, tal como nos casos das touradas, rodeios, circos ou da Farra do Boi, presente apenas no estado de Santa Catarina.

O uso de animais, nos diversos setores da atividade humana, é amplo e variado e o seu uso pode ser classificado da seguinte forma:

  1. INDÚSTRIA DE ALIMENTOS - Produção de alimentos (leite, ovos, mel, carne). Processamento de alimento (queijo, lingüiça e derivados de origem animal).
  2. INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO E DE UTENSÍLIOS DOMÉSTICOS - Peças do vestuário (cintos, sapatos, bolsas). Mobília (revestimento de sofás e bancos). Proteção contra intempéries (casacos para frio, gorros, construção de abrigos).
  3. INSTRUMENTO DE TRABALHO E AUXÍLIO SENSORIAL - Animais de carga (cavalos, camelos, elefantes). Transporte de pessoas, aragem do solo e produção artesanal de energia (cavalos e bois). Auxílio à pessoas incapacitadas (cães e macacos).
  4. SEGURANÇA FÍSICA E PATRIMONIAL - Investigação policial (cães farejadores). Segurança doméstica e industrial (cães de guarda).
  5. LAZER E INDÚSTRIA DE ENTRETENIMENTO - Feiras e exposições (cavalos, bois). Competições esportivas (corrida de cavalos, rinhas de galos, concursos). Lazer coletivo (Farra do boi, rodeios e vaquejada, circos, cinema, televisão). Lazer pessoal (pescarias, caçadas e criação de animais de estimação).
  6. MANIPULAÇÃO DE ECOSSISTEMAS - Controle populacional e repovoamento florestal. Manutenção da diversidade biológica.
  7. INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA – Os animais são de vital importância nos seguintes procedimentos:
    a) transplantes de órgãos, produção de vacinas e medicamentos em geral;
    b) teste de procedimentos cirúrgicos ou realização de cirurgias experimentais e práticas de ensino;
    c) testes de hipóteses na pesquisa experimental, principalmente na pesquisa biológica.

Dentro da investigação científica, os animais são imprescindíveis na pesquisa sobre o câncer, alcoolismo, produção de vacinas, transplantes de órgãos, doenças cardiovasculares, produção e testes de vários medicamentos (insulina, analgésicos, antibióticos, ansiolíticos, controladores de pressão sangüínea, etc.
volta ao topo


A IMPORTÂNCIA DOS ANIMAIS PARA A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

O uso de animais na pesquisa científica vem decaindo com o passar do tempo, principalmente no que diz respeito aos animais de grande porte (primatas, principalmente) e, por outro lado, a literatura sobre direitos dos animais ou sobre idéias anti-vivisectionistas tem aumentado muito desde o ano de 1970, tanto na Europa quanto nos EUA.

Dentro da psicologia comparativa, nota-se um decréscimo na utilização de certas espécies de mamíferos (gatos, cães e coelhos); a explicação para esta diminuição tem sido atribuída aos altos custos de manutenção destes animais, a mudanças de ênfase da psicologia comparativa, que passou a se interessar por aspectos cognitivos, ou em razão do aumento de atuação dos movimentos de defesa dos animais.

Com efeito, os defensores dos direitos dos animais julgam que a pesquisa científica envolvendo uso de animais é absolutamente desprovida de sentido, que os pesquisadores são cruéis e pouco fazem, devido à sua insensibilidade, para minimizar o sofrimento dos animais; esta idéia é falsa e se baseia em pressupostos facilmente refutáveis, talvez fruto de um viés perceptivo ou fruto de uma atitude mal-intencionada a respeito de atividades que contrariam suas idéias.

Todavia, é importante ressaltar que esta rejeição não é generalizada e o nível de rejeição é mais forte para as pesquisa realizadas em laboratório ou aquelas que envolvem experimentação; estudos naturalísticos ou de campo são ignoradas por estes grupos ou tem níveis de rejeição bem baixos.

Na realidade, o número de animais utilizados na investigação científica é muito reduzido. Com efeito, um levantamento realizado pela National Academy of Science indica que existem aproximadamente 110 milhões de animais de estimação (cães e gatos) dentro dos lares de cidadãos americanos e mais de 5 bilhões de animais são mortos para servirem de alimento.

GALO SILVESTRE GALO SILVESTRE

Alguns cálculos um pouco mais precisos indicam que um cidadão britânico consome, ao longo de sua vida, algo em torno de 8 vacas, 36 porcos, 36 ovelhas e 550 aves; os procedimentos adotados nos abatedouros de animais são completamente desconhecidos pela população e mesmo a leitura de uma obra especializada sobre o assunto impressiona o leitor.

Por outro lado, somente de 17 a 22 milhões de animais, ou menos de 1% dos animais abatidos para servirem de alimento, são utilizados na pesquisa científica e desse montante 85% são ratos e camundongos.

Outro levantamento mostra que na Grã-Bretanha o uso de animais na investigação científica, em 1990, foi bem mais reduzido (3.207.094, em números redondos); também foi notado que a maior parte deste montante (78,8%) é constituída de camundongos e ratos e o número de primatas é bastante diminuto (0,2%).

Além disso, é importante ressaltar que, via de regra, os animais utilizados na investigação científica nasceram e foram criados em laboratórios, são animais de pequeno porte e exibem certas características físicas e comportamentais que não são observadas nos animais selvagens.

O exame da legislação existente (referente aos EUA, Canadá e Europa) mostra que os próprios pesquisadores impõem restrições ao uso indiscriminado e não-justificado de animais na investigação científica.

Parece ser uma questão trivial, mas não é. As pessoas comuns têm dificuldade em ampliar em toda a sua dimensão o significado da palavra "animal"; ao que tudo indica "animal" seria um organismo vertebrado e de sangue-quente.

Segundo nossos resultados, os animais que habitam o imaginário das pessoas seriam os animais domésticos, mamíferos ou aqueles que tem algum valor econômico ou sentimental para as pessoas (galo/galinha, cão/cadela, papagaio, touro/vaca, gato, bode/cabra e cavalo/égua); outros animais são simplesmente ignorados ou desprezados pelas pessoas.

Isto revela que a população brasileira é muito seletiva em seu apego aos animais e as pessoas não possuem uma idéia realista e ampla a respeito do uso de animais nas diferentes formas de atividade humana.

Com efeito, os animais pertencentes às classes Insecta, Reptilia e Arachnida são os mais utilizados para designar uma característica negativa, o que revela índice maior de rejeição por parte da população brasileira de animais como baratas, aranhas, cobras e outros animais "menos nobres".

Neste sentido, é compreensível que as pessoas comuns não fazem restrição ao uso de inseticidas, raticidas, moluscicidas, formicidas, mas tem grande objeção ao uso de animais de grande porte na investigação científica...

volta ao topo

RELIGIÃO E FILOSOFIA

A FORTE LIGAÇÃO ENTRE O HOMEM E OS ANIMAIS

Por volta do século VI antes de Cristo, foi criado o Movimento Jainista na Índia que pregava uma moral asceta extremamente severa.

Seus seguidores faziam oposição ao sistema de casta do bramanismo, condenavam o sacrifício de animais e evitavam qualquer tipo de violência (emitida pelo corpo, pelas palavras ou pelo pensamento); a filosofia jainista teve enorme impacto social e influenciou a cultura indiana, principalmente a filosofia de não-violência pregada por Mahatma Gandhi.

Os jainistas tinham como líder o príncipe Vardhamana Mahavira (nascido por volta do ano 540 a.C.), que havia renunciado à sua condição social elevada e iniciado uma vida de peregrinação, tal como fizera Siddharta Gautama, seu contemporâneo e fundador do Budismo.

Todavia, contrariamente ao que postulava Buda, o príncipe Mahavira ensinava que a alma estaria presente em todos os organismos - homens, mulheres, moscas, vermes etc, de forma que todas as formas de vida merecem extremo respeito.

Visando levar adiante este postulado, os jainistas andavam nus e se movimentavam à luz do dia, de forma a evitar causar danos aos animais da noite, andavam com véus cobrindo o rosto para evitar aspirar minúsculos organismos presentes no ar e, antes de se sentarem, executavam movimentos suaves com um espanador para remover possíveis insetos que estivessem nos assentos; o consumo de carne era uma prática rigorosamente proibida.

Pelo que se conhece, os preceitos do movimento jainista eram a forma mais extremada de respeito à vida dos animais; com o passar do tempo, este movimento perdeu força e seus preceitos mais rígidos foram abandonados pelos seus fiéis seguidores.

Dentro da tradição islâmica, o homem é considerado como a criatura mais nobre e todo o resto deve ser subserviente a ele; nada foi criado ao acaso e tudo tem uma função dentro dos desígnios divinos.

Tal como no cristianismo, alguns animais (camelos, vacas, cavalos, mulas e cabras) têm especial valor para o homem, em razão do longo período de convivência ou de seu valor econômico; mas de acordo com a tradição islâmica, alguns produtos de origem animal são usados como medicamentos e outros são evitados.

A idéia de que o homem é uma criatura distinta e fora do contexto da natureza é muito antiga e pode ser vista no pensamento de Cícero, orador e pensador que viveu no século I a.C.

A Bíblia Sagrada está repleta de passagens e parábolas envolvendo animais e é mencionado claramente o papel dos animais diante dos seres humanos. Dentro de uma escala hierárquica, os animais são claramente colocados num plano inferior em relação aos homens, tal como pode ser visto na descrição abaixo:

4 Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? 5 Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. 6 Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo e de seus pés: 7 Todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, As aves dos céus, e os peixes do mar, e tudo o que passa pelas veredas dos mares. 9 Ó Senhor, nosso Senhor, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra! (Livro dos Salmos, capítulo 8)

As descrições bíblicas não proporcionam uma compreensão inequívoca da palavra "animal". Com efeito, um animal tanto pode ser qualquer forma de vida, à exceção das plantas, os quadrúpedes em geral ou os animais domésticos, à exceção das aves.

A tradução correta dos nomes dos animais é muito difícil, uma vez que os animais são classificados como puros ou impuros ou classificados de forma genérica (besta, pássaros, vermes, etc.), de forma que é difícil saber qual é o animal a que o narrador está se referindo. Entretanto, o posicionamento inferior dos animais não significa que estes não sejam merecedores de compaixão e respeito dos humanos.

Nos relatos bíblicos, parece que está implícito uma divisão entre os animais: os que são úteis ao homem e aqueles que são especialmente perigosos e merecem ser evitados. Exemplos de animais dessa última categoria podem ser vistos nas pragas enviadas ao Egito, em que houve uma multiplicação de rãs, moscas, pernilongos e gafanhotos (estes seriam especialmente perigosos, pois poderiam destruir as plantações - Êxodos, capítulos 7 a 10).

Por outro lado, existem belíssimas passagens em que o comportamento dos animais é utilizado para exemplificar uma forma bastante elevada de sabedoria:

18 Estas três coisas me maravilham; e quatro há que não conheço: 19 O caminho da águia no céu; o caminho da cobra na penha; o caminho do navio no meio do mar; e o caminho do homem com a donzela. 24 Estas quatro coisas são das mais pequenas da terra, porém sábias, bem providas de sabedoria: 25 As formigas não são um povo forte; todavia no verão preparam a sua comida; 26 Os gerbos são um povo débil; e contudo, põem a sua casa na rocha; 27 Os gafanhotos não têm rei; e contudo todos saem, e em bandos se repartem; 28 A aranha se pendura com as mãos, e está nos palácios dos reis (Provérbios, capítulo 31).

O comportamento dos animais é usado, como forma de parábola, para exemplificar uma forma superior de sabedoria; em algumas circunstâncias, é sugerido que os humanos devam observar melhor os animais – talvez imitá-los! – para se aproximarem mais de seu Criador.

Estes relatos mostram que as pessoas de antigamente já possuíam um conhecimento sofisticado a respeito do comportamento dos animais, fruto de um longo período de convivência.

As pessoas geralmente classificam os animais de acordo com as características físicas ou de acordo com o comportamento exibido pelos animais; o número de categorias é bem limitado e muitas vezes pequenos organismos são agrupados de forma errônea, mas de acordo com seu tamanho e semelhança física (Berlim, 1992).


Adaptado para GIRAFAMANIA, textos de Rogério F. Guerra (rfquerra@cfh.ufsc.br)
(a quem agradeço muito pela qualidade de informações)

Lab. Psicologia Experimental, Núcleo de Estudos Comportamentais de Primatas
Depto. de Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário, CEP: 88040-900 — Florianópolis — Santa Catarina (SC) — Brasil
(http://mbox.cfh.ufsc.br/~lpe/primat5.htm)

Outros textos: Linguística, Psicologia Comparativa e Utilização animal (esta página)

Entrada principal !
Última atualização: 17/03/2007.
volta ao topo

ORIGEM ANIMAL MAPA DE GIRAFAMANIA
LISTA DE MATERIAIS