A ZOOTERAPIA ATRAVÉS DO COLECIONISMO TEMÁTICO

O AMIGO DO FILATELISTA
EDIÇÃO DA FILATÉLICA PENNY BLACK
Ano 9 / São Paulo, Fevereiro de 2003 / Número 35 / Págs. 1, 2.
Publicação no “Jornalzinho” da Filatélica Penny Black.

Texto de Sérgio Eduardo Sakall

“Nada se pode ensinar a um homem, pode-se apenas ajudá-lo a descobrir as coisas dentro de si mesmo.” (Galileu Galilei)

Talvez, o maior de todos os segredos da humanidade, a mais enigmática criatura da Terra seja o próprio homem. Muitos foram os sábios que buscaram uma auto-análise, uma investigação sistemática de si mesmo, mediante certos processos de método psicanalítico.

Sobretudo, hoje, para o homem moderno e tão “estressado”, parece mais que uma necessidade alcançar tal conhecimento...

Tudo aquilo que é difícil de se compreender, os ditos enigmas, ou qualquer descrição obscura e ambígua de alguma coisa que seja difícil decifrá-la, sempre, sempre foi motivo da curiosidade humana.

Embora explicar enigma não chega a ser a atividade preferida por boa parte de nossa autocrítica. De qualquer forma, alguns buscam respostas na ciência, outros na religião, entretanto, encontrar razões empíricas desatadas de exatidão é a minha proposta!

Explicar o porque eu coleciono girafas, remete-me a uma pergunta que não quer calar:
– O que faz um homem que um animal não faça para sobreviver?
– Ele pensa!

É sabido que qualquer coleção representa trabalho. Ela é orientada através dos mais variados e inimagináveis motivos. Há quem diga que até anjos e arcanjos contribuem.

Não importa qual seja a inspiração, no entanto, seguindo este pensamento, o das alturas, fica fácil imaginar algumas razões: a girafa é o animal mais alto do Planeta, logo, “pôr” ou “ir” às alturas através dessa coleção temática, para mim, significa pensar em verbos como elevar, exaltar, endeusar, mitificar, atribuir qualidades ideais, ou seja, idealizar.

Afinal, sendo a criatura mais alta do mundo, o quê, exatamente, representaria toda essa altura?

Por um lado, a altivez representa brio, nobreza, elevação, dignidade, por outro, arrogância, orgulho, amor-próprio, superioridade.

Analisando-me, encontro quantas vezes fui nobre, elevado, brioso, digno, ilustre, assim como arrogante, orgulhoso ou presunçoso... Fisionomicamente, então, nem se fala...

De minha descendência européia herdei uma altura acima da média dos brasileiros. Assim como uma girafa, eu não tenho grandes tendências a engordar, talvez seja pela constante inquietação física ou até pela estrutura óssea.

Enfim, analisar-me através deste diferente e exótico animal, faz-me pensar...

Desde nossos primórdios, na Mesopotâmia, os sumérios e outros povos não podendo explicar os fenômenos da natureza, viam neles a obra de muitos deuses. Divinizaram a terra, os astros, as montanhas, os rios, o vento. Eram, portanto, politeístas.

Igualmente aconteceu com os antigos egípcios, povo de profundas crenças religiosas que adorava numerosos e estranhos deuses. A religião egípcia desempenhou um papel ideológico fundamental, teve tamanha importâcia que predominou na formação de sua civilização e de sua organização social, assim como influenciou a filosofia, a literatura e as artes.

O culto religioso exaltou inicialmente as forças cósmicas e naturais, como o Sol e o Nilo, essenciais à vida do Egito Antigo. A partir daí, a evolução da religião passou por três fases principais.

Os primeiros deuses assumiram a forma animal (zoomorfismo) e cada pessoa tinha o seu animal-deus que a protegia. Adoravam gatos, bois, serpentes, crocodilos, touros, chacais, gazelas, escaravelhos etc.

Entre os animais adorados, o mais famoso foi o boi Ápis que, quando morria, provocava luto em todo o Egito e os sacerdotes logo procuravam nos campos um substituto fisicamente igual.

Mais tarde, os deuses evoluíram para a forma humana (antropomorfismo), como Ísis e Osíris. Já na terceira fase, os deuses eram representados com corpo humano e cabeça de animal, ou com face humana sobre corpo de animal (antropozoomorfismo).

As artes primitivas da Idade Média também oferecem múltiplos exemplos de zoomorfismo: capitéis, vasos, máscaras etc. Já na época em que a burguesia criava idéias que se contrapunham e dominavam, surgiram os grandes evolucionistas e, na seqüência, o antropomorfismo no livro: The expressions of emotions in men and animals, de Charles R. Darwin, 1872.

Estas “estranhas” palavras são formadas pelos sufixos gregos: “zoo”, “antro” e “morfismo”, as quais são relacionadas aos animais, aos homens e as formas ou maneiras, respectivamente. Logo, zoomorfismo é a tendência de ver características animais nos humanos.

O simples ato de representarmos a forma de um animal, também é considerado zoomorfismo. Nele, o comportamento humano é regido pelas normas que regem os animais, uma “animalização” do homem (zoomorfização).

Enquanto culto religioso, imprime forma animal à divindade, assim como acredita na transformação do homem em animal. Na crendice popular, por exemplo, o lobisomem é uma manifestação de zoomorfismo.

Já no antropomorfismo, podemos dizer que acontece ao contrário, uma “humanização” dos animais, é a tendência de ver características humanas nos animais (antropomorfização). Sendo assim e utilizando a psicologia comparativa, às vezes, vejo-me na girafa, outras, penso que sou uma...

Em outra linha de pensamento, a zooética (tratado sobre os costumes dos animais) ou etologia, ciência que estuda o comportamento dos indivíduos dentro do seu ambiente (ramo da biologia situada dentro da ecologia), tive a oportunidade de conferir de perto, não apenas uma vez, que a girafa é de índole pacífica e inofensiva.

Quando se vê em perigo, recorre à fuga. Seu modo de andar e de correr é o que, nos cavalos, chama-se de andadura, o que lhe confere elegância, delicadeza, harmonia e charme ao caminhar.

Daí eu também encontrei que, como no meu convívio social, as girafas, criaturas enigmáticas, também têm um comportamento arbitrário, caprichoso e imprevisível para a própria sobrevivência.

Já no lúdico, através de uma simples brincadeira ou de uma pesquisa capaz de trazer informação relevante, encontrei o magnetismo animal que é chamado de zoomagnetismo.

Talvez, a criançada goste muito das girafas porque elas têm um propósito inconsciente em comum: crescer, crescer, crescer...

Com tudo isso à mente, somado, particularmente, ao colecionismo temático, parece-me certo dizer que coleciono girafas para me conhecer profundamente...

Quem consegue encarar uma girafa olho no olho, sem que ela se abaixe ou a pessoa suba até a sua altura?

Em uma analogia, sua altura também pode significar à altura da situação, como a situação, ou ainda melhor, como as circunstâncias exigem. Olhar profundamente dentro do olho significa, talvez, descobrir a alma...

Quem não reconhece o próprio inconformismo ou desconforto com um confinamento dentro dos limites humanos?

Ao falarmos de zoomorfismo e antropomorfismo, colocamos homens e animais em pé de igualdade, confundindo-os, humanizando o bicho, animalizando o homem.

Não faltam motivos para que surpresa e estranheza venham a ser as primeiras reações de quem buscar contato. Mas faz parte da impressão que causa em nós, gente, uma linguagem que se procura além do humano.

É uma voz de homem que alcança as alturas e resume em uma palavra a direção de sua procura: despojamento.

Devemos reconhecer que nosso diálogo mais fundo é conosco mesmo, negando, contudo, as mediações do ritual e dogma. Como na máxima: “Decifra-me ou devoro-te”, digo à girafa (a mim mesmo): decifro-te e reconheço-me.

Eu escolhi este maravilhoso animal para ajudar a me descobrir melhor.
E você, qual elegeria para ajudá-lo a descobrir as coisas de dentro de si mesmo?


Senhora Ana Lúcia Loureiro Sampaio e Giorgio Radini no 3º Encontro Internacional de Filatelia.

05/03/08: A História e a Geografia nos Selos. Querido Sérgio: que bom que você gostou; esqueci algumas de por em meu artigo sobre a Eslovênia: o nome da capital, o dinheiro em circulação e os dois períodos de emissão e como o nome vem escrito nos selos. Só não posso falar sobre as girafas... Adorei a foto, os dois saíram lindos. Sabe o que acho mais bonito na girafa? Os olhos! Acho incrível um animal tão grande e de postura tão elegante ter uns olhos tão meigos. Beijos: Ana Lúcia.

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Última atualização: 26/01/2009.
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