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CRÔNICAS

“A PRIMEIRA VEZ”

Eram dezoito horas e trinta minutos duma noite de outono, quando eu estava pela primeira vez ouvindo alguém falar sobre o que vinha a ser crônica. Já conhecia o tal ministrante de nome e imaginava-o um senhor sério, culto, no mínimo, mestrado.

Sua aparência deveria lembrar a de um médico, talvez a de um padre, pois eu sabia que tal homem era respeitado e ocupava um digno cargo jornalístico.

Daquela sala ampla, coalhada de pessoas estranhas, eu não conhecia ninguém...

De princípio, o popular homem que chamarei de João, apresentou-se, é claro. Seguidamente, falou de seu pai e de sua mãe (ambos falecidos), de seus irmãos, de sua esposa, de seus filhos – cinco, do seu estado de saúde (recuperava-se de uma operação), falou de sua formação acadêmica – nenhuma, da rua em que havia nascido, das proximidades da mesma rua, até citou sobre uma antiga indústria importante daquela região, enfim, quase que falou sobre o bairro inteiro!

Pensei num instante qualquer que antes não o tivesse conhecido... Primeiro que da minha imaginação ele nada tinha haver. Que irreverente realidade! Segundo que eu não estava nem um pouco interessado sobre as histórias de sua infância. Depois porque ele disse que para descontrair, deveríamos nos apresentar – imaginem só, detesto apresentações individuais!

Comentou que não seríamos obrigados a fazer aquilo, apenas quem quisesse. No entanto, sentado em seu lugar, apontou com seu dedo indicador para cada uma daquelas pessoas, sem se importar com o nervosismo interno que, talvez, alguns poderiam estar sentindo.

Participando daquele encontro, acrescentou que teríamos ainda uma ótima oportunidade, porque, sobretudo, conheceríamos novas pessoas. Bem, não que eu não quisesse fazer novas amizades, mas não estava lá para este fim.

João, sempre com suas piadinhas (às vezes, com graça alguma) e com um largo sorriso no rosto, repetiu inúmeras vezes que:

— “Isso dá crônica!”

Eu que nem sabia direito o que era crônica, permanecia atônito...

E aquela conversa furada, um tanto quanto exagerada, foi se desenrolando... Contou tantas estórias que todas se emaranharam num só nó na minha cabeça e se perderam para sempre...

Porém, deixavam uma pergunta no ar – ele iria ou não falar sobre crônicas? Parecia que era a primeira vez que o João estava diante daquela situação...

Numa visão geral, tive a sensação que ele guardaria em seu poder e não iria deixar escapar nenhuma informação das quais, com certeza, todos almejavam...

Aposto e ganho que nesta altura do tempo, muitos de nós já estávamos aflitos para lhe arrancar qual dica fosse de como construir uma crônica. Foi quando João comentou:

— “Escrevam qualquer coisa num bilhete e prenda-o na porta da geladeira! É assim que se começa aprender a escrever crônicas...”

Não, eu não poderia acreditar naquilo. Que comentário mais estranho, para não dizer hilário. Será que ele sofria de algum tipo de complexo paterno e nos tratava como se fôssemos crianças?

De certo que sim pois, além disso, comentou que deveríamos também ter como instrumento de trabalho um cesto de lixo bem ao lado...

Imaginem só, em plena era da informática, seria um absurdo ficar imprimindo inúmeras vezes o mesmo texto, de forma que enchesse o tal do cesto, sem falar sobre a atitude anti-ecológica que isto provocaria...

Várias foram as perguntas que lhe fizeram e para a grande maioria delas, João sempre respondia:

— “Guarde e lembre-me posteriormente sobre essa pergunta...” Tive vontade de lhe gritar:
— Afinal, você vai ou não desembuchar?

Assim, horas se passaram e num incentivo derradeiro, João, bradou para todos:
— “Escrevam! Escrevam qualquer coisa! Mas, escrevam!”

Já no metrô, voltando para casa, lembrei-me de lhe perguntar se eu deveria primeiro começar com o título do texto ou com ele em si. Fiquei olhando para as pessoas daquele vagão completamente perdido. Sobre o que escreveria?

Talvez sobre uma senhora sisuda que estava sentada na minha frente ou então sobre um rapaz que se equilibrava em pé naquele vagão, com muitas sacolas na mão, ou ainda, talvez escrevesse sobre aquele meu primeiro dia de aula...

Achei conveniente narrar sobre esta última hipótese. Então, logo peguei caneta e papel, e permaneci durante algum tempo parado pensando em como começaria...

Veio uma viva lembrança na minha mente, na qual eu pude ouvir João dizendo que tudo “dava” crônica. Prontamente pensei que foi a primeira vez que ouvi alguém dizer isso.

Sendo assim, estava decidido o título então, pois nesta frase: a primeira vez, apesar de eu achá-la muito simples, acreditei em sua força, porque ela sugeria uma nova ideia. Daí, começar a contar o que eu senti naquela sala foi apenas um passo.

Agora, após 3 horas com o texto na tela do meu computador, tendo corrigido-o algumas vezes, sequer com alguma lata de lixo por perto e imaginando que jamais este ficaria pendurado na porta da minha geladeira, descobri que aquele homem, o tal do João, estava coberto de razão: “Tudo dá crônica!”

Oficina de Criação Literária: Exercício da Crônica (abril a junho de 2000)
Cronista e escritor Lourenço Diaféria (3862-9323). Biblioteca Circulante Consolação, São Paulo/SP.
Jenner (arquiteto), Lúcia (escritora), Margareth, Wagner (policial), Wilson Loducca (jornalista)
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“MANCHETE”

Pronto. Chegou a minha vez. Agora era tudo ou nada. Eu tenho que ler. Tomara que eu consiga. Meu coração parece que vai sair pela boca ou ainda pela frente como se explodisse. Se eu pudesse sair correndo, é a hora. Senão, nunca mais. Não, isso eu não posso fazer.

Então, levanto-me ao mesmo tempo em que coro. Sinto tudo e não posso fazer mais nada. Começo a ler o texto em voz alta: acabam de descobrir que o sentimento pode matar...

Paro. Dou fim na leitura e tento buscar mais ar. Neste momento tenho a certeza de que vou desmaiar. Parado por algum tempo, segundos sem fim, até me esqueço de respirar.

Levanto a cabeça, olho para aquela sala cheia de gente e vejo que todos estão de caras assustadas. Daí, caio. Sentado. No mesmo lugar em que estava antes. Devagar, meu coração se acalma. Grito por dentro – consegui!

PS: Lourenço Diaféria leu esta crônica no dia 07/06/2000, na Oficina “O que é crônica”, na Biblioteca Circulante.


“VERDADES E MENTIRAS”

Minutos antes de começar a escrever esta crônica, estava pensando à respeito de como o tempo passa tão rápido e como existem contradições neste mundo... Dá para acreditar que já faz 30 anos que o homem pisou na Lua pela primeira vez? Ou que a Segunda Guerra Mundial aconteceu a mais de 50 anos? E o cinema então, que foi criado a mais de um século?

A incrível rapidez com que a humanidade caminha fez com que muitas coisas evoluíssem no mesmo passo. Por outro lado, mesmo com tantos avanços, ainda somos obrigados a fazer campanhas de todos os tipos, para atender as necessidades básicas do ser humano de abrigo, alimentação, etc. a fim de lhes garantir a sobrevivência... Que contradição!

Temos que pensar no futuro! Numa vida bem melhor!
Na minha opinião, não devemos esperar ou contar com soluções por parte dos nossos governantes e sim acreditarmos mais no poder dos sonhos, o que de alguma forma, para muitos, seria apenas uma utopia...

A busca de uma vida melhor, através do sacrifício de vidas humanas nas guerras é uma mentira vergonhosa! Esta procura incessante pela felicidade de se ter uma vida mais bela é a busca de cada um de nós. O que poucos entendem é que a vida contém, em seu próprio âmago, um infinito de verdades!

Perdi a conta de quantas vezes minha avó paterna (que Deus a tenha) repetiu esta mesma história: a de que desde a mais tenra idade acompanhava nas telas dos antigos cinemas (hoje, muitos já inexistentes) as películas exibidas como verdadeiras fábricas de sonhos, inspirações, verdades e mentiras...

Também falava que nunca perdia a oportunidade de ver chegar outros cinemas que, mesmo mambembes, ofereciam entretenimentos nos salões regionais...

Um dia, com um brilho especial nos olhos, ela me contou que a primeira sessão de cinema no Brasil aconteceu no dia 8 de julho de 1896, na cidade do Rio de Janeiro! Ah! Na verdade, ela própria era uma eterna sonhadora.

Bem, após tantos anos da criação do cinema, verificamos, hoje, a total transformação sofrida pela área cinematográfica de nosso país, que apesar de todas as dificuldades que enfrenta, consegue ser uma bela e criativa indústria competindo entre campeões de bilheterias reconhecidos internacionalmente... Esta é a verdade, senhores!

Na última festa de entrega do Prêmio Oscar transmitida pela TV, como não poderia deixar de ser, milhões de brasileiros torciam pela vitória do “nosso” filme. Porém as horas passaram, as categorias de melhor trilha sonora, melhor ator, melhor filme estrangeiro etc... foram apresentadas e o que se constatou foi que em várias das indicações anunciadas, o vencedor era sempre o mesmo: “A vida é bela”!

Tenho certeza de que se a minha sonhadora avó fosse viva, teria vibrado por um belo e verdadeiro empate entre os dois longa-metragem... Isto sim, teria sido justo!

Todos sabemos que aquela brincadeira existente na “Vida é bela” era uma mentira! Pois Guido, com o intuito de poupar o filho do sofrimento frente a dura realidade da Segunda Guerra Mundial, inventa que tudo não passava de um jogo no qual o vencedor ganhava um tanque de guerra...

Na mesma proporção, quisera eu que fosse uma bela mentira todo o triste cotidiano sem sonhos nem esperanças, que existe na Central do Brasil de hoje! Um ponto de vista utópico, certamente...

Entretanto, Fernanda Montenegro, nossa diva, atuou como Vida e foi Bela! E Roberto Benigni não menos como o centro de uma outra Vida!

Ambos os filmes, deixarão nas nossas lembranças, momentos inesquecíveis... E apesar de acharmos injusto o fato de não termos vencido, também entendemos que o outro filme mereceu o prêmio.

Na verdade, todos nós sabemos que o Brasil, como “ninguém”, sabe o quanto a vida é bela!

Mas, o mais interessante em toda esta história é que os dois filmes foram contados com doçura equilibrando o grande peso entre as verdades e as mentiras...

Houve também a presença de um alto nível espiritual nas mensagens humanitárias oferecidas, despertando-nos para a difícil arte da fé e da esperança em nossa eterna luta diária por um mundo e uma vida mais bela e bem melhor...

E esta é a maior de todas as verdades!

PS: História de Guido, um homem que é mandado ao campo de concentração junto com o seu filho de seis anos, 3 meses antes do fim da Segunda Guerra. Sua mulher, por amor a eles, segue voluntariamente para o mesmo campo.
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“A VINGANÇA”, Páscoa, abril/2000. Praia Grande/SP

Todo o chão a minha volta, num raio de dez metros, estava coberto com cacos de cerâmica. Acima, um céu negro, sucumbia qualquer protegido ao medo, tamanha era a sua magnitude. O ar frio que batia na pele provocava arrepios dos mais profundos...

Bem ao longe se podia escutar lobos uivando, como se estivessem celebrando o ritual que aconteceria logo mais. Eu, nu, amarrado junto àqueles cacos, pagava todos os pecados do mundo sentado numa arena sem igual...

O vento começou a apertar, desarrumou meus fios de cabelo, ganhou forças, cresceu e passou a assobiar. Nesse instante, os incontáveis cacos, todos com pontas afiadas (com uma, duas, às vezes, até três) iniciaram o chacoalhar...

Era noite de Sexta-feira Santa, uma noite maior! Toda magia oculta arrancava de dentro do meu peito um desespero, o que não era um bom sinal. Eu orava sem parar, tremia, chorava como um cão a soluçar... Foi tudo em vão, ninguém aparecia, muito menos eu conseguia me libertar...

Grãos de areia invadiram os meus olhos e fiquei convencido que estava fadado a nunca mais enxergar. Meu corpo pendia para o lado oposto daquele vento, quando fui afetado em toda pele por coisas que me espetaram, rasparam, cortaram, enfiaram e que me bateram durante muito tempo. Eu gritava de dor quando deixei de rezar...

Eram os cacos, nocivos cacos queimados, que já arderam no fogo, o mesmo fogo que a mão do homem criou. Vingavam em mim toda a ira da Mãe Terra, que um dia do barro se transformou.

Meu sangue escorria da testa ao chão, formando um rio de angústia, amargura e aflição. Sequer com pena ou piedade da coisa criada, aquele vento, malvado vento, obedecia as forças da natureza anunciando uma morte derradeira.

E neste exato momento, lançou o meu corpo, quase que sem vida, para aqueles cacos, revoltados cacos, que devoravam a minha carne e quiseram me matar.

No entanto, alguns dos mesmos cacos, bateram tanto nas cordas que me amarravam, acabando por as cortar. Era a minha última chance de renovação. E na qualidade de criador, responsável por todas as criaturas, transformei as cordas caídas, dei forma a gigantes cobras, benditas cobras, que como leões afrontaram todos os cacos, malditos cacos que quebramos, amassamos e grudamos, e que lhes voltamos à vida no final!


“OUTRA HISTÓRIA”, 04/05/2000, Poesia que participa da antologia: “”

Certa vez ouvi um senhor contar sobre um troço que até hoje se duvida. Todos sabiam que ele era proprietário dum restaurante. Para mim, ele parecia ter saído de acontecimento poético ou ainda seria dono dum violão que trazia sempre por perto.

Com sotaque do campo, de erre puxado, mas com bom português, narrou sobre enterros que aconteciam em sua cidade natal. Tinha muita gente boa por lá, acrescentou. Contou que transportavam qualquer defunto até o cemitério local num tal de banguê.

Que espécie de trem era esse? Parece que se tratava dum lençol amarrado num bambu que dois homens carregavam. Depois, disse que havia um tipo de caixão comunitário, mais conhecido como “caixão das almas”. E daí, tocou adiante...

Conforme se ouvia, menos eu entendia, sequer acreditava. Ele conseguiu ser popular e agradou muita gente. Poderia ser um caipira ou quem sabe um caboclo. Eu não sei.

Só sei que durante um bom tempo fiquei imaginando aquele senhor em seu cavalo malhado, com sua viola no ombro, em busca de sombra e água fresca. Mesmo pertencendo à cidade pude sentir riqueza em sua simplicidade. Porém, sobre aqueles troços todos que contou, isso, é uma outra história.


“Em que ponto chegamos!”, 15/05/2000

Prezado senhor Mário,

Vou lhe explicar o que está se passando. Como o senhor sabe, adoro e-mails. É a minha vida! Passo o dia inteiro enviando e recebendo mensagens. Parece que me alimento disso. Mantenho uma lista particular para onde envio todo material interessante que encontro na Internet. Já são milhões de pessoas cadastradas nessa lista, que se chama Lista de Ouro. Aliás, a grande maioria chega a brigar para fazer parte dela. É uma verdadeira loucura virtual.

Como sempre lhe considerei muito, o senhor está cadastrado na dita. Alguns indivíduos, naturalmente, pedem para sair da lista, por uma série de razões. Confesso que isso sempre me entristece um pouco. Às vezes, chego até a chorar. Sinto-me rejeitado. Mas acredito ser minha obrigação respeitar a vontade dos assinantes. Portanto, imediatamente removo o nome e o e-mail da pessoa. Coloco-a numa pasta, a qual nomeei de Lista de Diamante. Fica dentro do arquivo – Lista dos Desviados.

O senhor deve saber que uma coisa é enviar um texto para milhares de pessoas. Outra coisa é receber textos, imagens, animações, vídeos e material variado dum número elevadíssimo de pessoas. Justamente é essa segunda coisa que está acontecendo comigo e está me deixando quase louco. Recebo em média três milhões, sete mil e quinhentas mensagens por dia e não tenho a menor condição de digerir tudo isso. Muitas vezes nem durmo. Fico direto.

Por esse motivo é que lhe peço encarecidamente que retire meu e-mail de sua lista de distribuição coletiva. Ainda comunico que, apesar de não o conhecer pessoalmente e já por anos ter recebido ótimas mensagens de sua parte, o senhor não faz mais parte da minha Lista de Ouro, mas sim da minha Lista de Platina, que está dentro do arquivo – Lista dos Deletados.

Espero que compreenda os meus motivos. Caso quiser se afastar dessa lista, mas não de mim, basta dar um toque que atenderei a sua vontade de imediato. Pois tenho uma outra lista que se chama Lista de Ametista, fica dentro do arquivo – Lista dos Carentes. Também muito, muito lotada. Certo de suas providências imediatas, coloco-me à sua disposição e despeço-me. Cordialmente, Navegâncio da Vida.


“O ponto xis tem salvação”, manhã de 16/05/2000

De tanto o tal fulano insistir comigo, não aguentei e me rendi. Fomos no meu carro, em dia combinado, para conhecer o novo shopping do bairro. Ele já conhecera. Achava-o maravilhoso! Super bonito. Imenso.

Durante o tempo em que caminhávamos por lá, perguntou-me se estava gostando. Mas, sem esperar resposta alguma ia logo dizendo que adorava andar naqueles corredores enormes. Isso não é demais? Acrescentava.

Sem saber exatamente o motivo, pois sequer eu sentia fome, aceitei jantar naquela praça de alimentação. Acho que foi para agradar... Enfrentamos uma fila básica (escolhida por ele), na qual obrigatoriamente, qualquer um de nós, temos que em todo tempo suportar. Fez questão de pagar. Menos mal.

Passado um bom período, pois ele se demorou para comer, continuamos a percorrer por chão que mais coalhado de gente, seria impossível. Na altura disso, eu já estava enrugado. Foi quando pensei: Que coisa mais sem graça... e esta raiva que não passa? É exatamente nessas horas que nem chorar a gente pode...

De repente, como numa terra de rei, fez valer sua lei – entrou numa fila para assistir a um filme de que havia falado. Não! Isto já era ademais. Embora estivesse com limite escondido, disse-lhe que teria de dormir cedo, portanto não iria com ele ao cinema.

— Ah, não! Eu juro que estou me empenhando para agradá-lo e você me vem com esta desculpa esfarrapada?

Quase desabei ao ouvir isso. Já ia me rendendo novamente quando um outro amigo dele apareceu do nada, salvando-me daquela situação. Não fosse o tal anjo, eu teria apagado. Tenho certeza disso. Finalmente passada a despedida, dei de ombros e segui meu caminho.


Manhã de 17/05/2000

Seu olhar era fixo. Estagnado. Parecia ver bicho doutro mundo. Havia barulho ao fundo e também bem próximo. Tinha gente por todos os lados. Passavam, conversavam, até gritavam. Era muito barulho por nada. Porém, ela permanecia imóvel. Será que só os meus olhos viam aquela criatura? Pisquei. Pisquei novamente. E pude conferir que a tal mulher estava lá, parada. Seus pensamentos com pés de lã, tramavam, com certeza. Trajava um vestido sujo, longo e prá lá de velho. Podia-se ver bem da janela que me emoldurava. Lembrava uma judia do umbigo para cima e mãe de santo no resto. De repente, arrancou um livro grosso de sua bolsa, desses que é para todos ou para ninguém, apontou-o para os céus, assim como o chapéu de bispo que usava (provinha do deus mitra), e começou a pregar. Ninguém ligava, sequer a ouvia. Alguns riam quando passavam. Outros se afastavam. Uma criança começou a chorar bem no meio do tumulto. Diante de toda aquela situação, era eu agora quem estava atônito. Meu olhar assustado, já ardia. Do local que eu estava, pude ouvir ao fundo o relógio da sala soar as 20 horas. Dei uma última olhadela e continuava tudo igual. Fechei a janela e a vidraça para não ouvir mais. Deixei a televisão falando sozinha. Fui até a cozinha tirar a barriga da miséria, pois a fome bateu.


“PAPO DE LOUCA”, 20/05/2000

Papo de velório é sempre igual. Parece que alguns têm alegria de contar os sofrimentos. Assim como a gente reencontra certas pessoas que só nessas horas se vê. Era final de tarde de um domingo.

Apesar de estarmos sentados longe de todo o resto, eu estava próximo de duas senhoras centenárias de 98 e 99 anos cada, que são tias distantes da minha mãe. Por causa disso, dava prá ouvir tudo o que elas falavam. A dona Quitéria, que era a mais falante delas, disse para a dona Berenice então:

— Coitadinha, ela era tão jovem e cheia de vida ainda. Acho que pegou a tal da doença na época em que ainda estava viva. Não fosse a dita, o motivo da sua morte estaria até hoje escondido. Eu ouvi dizer de um novo remédio que cura e traz esperança para todos aqueles que morrem disso a cada ano... Você chegou a tocar nela? A falecida está mais gelada do que parada. Disseram que ficou morta no chão da cozinha durante alguns instantes. Também que sentiu uma dor tão grande na barriga que quase perdeu a cabeça. Pudera, a coitada já de anos vinha sofrendo...

Você se lembra de 25 anos atrás quando ela foi internada num hospital psiquiátrico? Foi horrível. Imagine só, nem doente da cabeça ela era. Só depois de muito tempo é que descobriram o lugar. Ela deve ter sofrido como uma cachorra louca mesmo, pois eu soube que nem comia direito, muito menos tinha horário de visitas e até que todos os doentes corriam por lá como loucos infernando a vida que ela já não tinha.

Bem, antes assim. Melhor morrer de doença do que ser estrangulada a golpes de facão por algum louco do hospital. Pior seria se ela fosse morta pelo seu assassino. Mas, para quem veio do nada, ela era muito fiel às suas origens, você não acha? Toda confusão sobre a sua doença me faz lembrar dum surdo-mudo que foi meu vizinho durante 8 anos. Ele foi morto por um mal-entendido...

Nossa! Exclamou a dona Berenice.

Você viu como estão bonitas aquelas sete coroas de flores? Lembram a de espinhos de Cristo. Olhe só aquela maior! É uma obra de arte, passa toda a fria tristeza presente. Foram os filhos que compraram. Conheço o pessoal da floricultura, inclusive o homem quem a fez. Ele é caprichoso, pois sempre faz isso com um calor que não é dele. Por falar em seus filhos – o Maurício e a Patrícia, que nunca se deram muito bem, olhe lá! Neste momento, parecem ser duas mãos do mesmo braço. Coitados...

Sabe, desde a época em que enterrei o meu pai, neste cemitério, havia problema com a água corrente. Depois de algum tempo, ela foi instalada para satisfação de todos... Ai Berenice! Vamos! O cortejo já está saindo...


“Adorável dona Laura”, 11/10/2002

Durante toda a palestra, ela permaneceu sentada ao lado de seus dois filhos, na terceira fileira do velho e bem cuidado anfiteatro. O maior orgulho dela era sua prole. Percebia-se isso em sua posição: quase recostada neles.

Todavia, naquele dia em especial, seu amado e velho cônjuge fez transbordar seu sentimento de dignidade pessoal. Bem no meio de seu discurso, ele relatou ao público presente, toda eterna gratidão que sentia por sua amada. Do palco da sala coalhada de convidados, foi uma verdadeira declaração à sua mulher.

Ela sorriu com o canto de sua boca um tanto acanhado. Entretanto, os seus olhos deixaram transparecer todo seu demasiado amor-próprio. O tom grave da voz de seu marido, naturalmente, já lembrava uma melodia. Talvez, para ela, naqueles minutos, a sua voz recordasse o canto de mil baleias...

Soberba e cheia de si parecia permanecer em um erotismo sagrado: seu homem, suas crias, seus amores, sua vida... Talvez, poucas pessoas perceberam como todo lance de vista circundava a imagem altiva e vaidosa de dona Laura. Seu rosto tosco também profundo, tal como veio da natureza, parecia até miragem.

Delicadamente, ela afastou os cabelos grisalhos de seus olhos com as pontas de seus dedos tênues. Naquele instante, pude ver o dorso de sua mão já envelhecida. Virou o rosto para a minha direção e gesticulou para que eu me aproximasse. Sentiu-se certa preocupação no ar...

Com seus lábios, sussurrou para que eu, de alguma forma, lembrasse ao amado sobre o seu dever em explicar a origem da palavra Tatuapé, a qual estava descrita em um painel exposto bem ao seu lado que ele mesmo havia confeccionado.

De olho nos olhos dela, permaneci apreensivo de como iria fazê-lo. Então, ela sugeriu que através de uma manifestação eu perguntasse a ele, pois até aquele momento ele havia se esquecido de sua principal explicação. Balancei a minha cabeça em sinal de aprovação e retornei ao meu lugar.

Alguns instantes se passaram enquanto eu esperava o momento oportuno quando, de repente, ele se dirige aquele painel e o esclarece. Com certeza tal ato foi pura transmissão de pensamento do casal... Novamente de olho nos olhos dela, por segundos, pude sentir o seu grato alívio.

Até o final da palestra, aquela adorável mulher, a dona Laura, manteve seu olhar complacente...


“Certos amigos se têm, não se escolhem...”

Tenho uma amiga prá lá de pernóstica que sempre me diz: “sem querer ser, mas sendo...”
É um caos escutá-la. Muitas vezes é mais chata do que o próprio inseto. Ela é magra, alta e se chama Ofélia. Fala mais do que deveria, às vezes, sem razão de dizer. Parece querer grudar nas palavras, para depois “gozar”.

Trabalhamos juntas há muitos anos. Evidentemente, não houve como evitar maiores vínculos emocionais, mesmo porque formamos um seleto número no quadro de funcionários e, as datas comemorativas, que sempre o dono da empresa nos “obriga” a festejar, fizeram com que nos aproximássemos.

Outro caso é que, indiretamente e mesmo sem saber, a Ofélia foi a responsável por mais uma amizade que adquiri, a qual logo explicarei...

Um dia desses, pela manhã, esbarramo-nos dentro da empresa e depois do beijo de sempre ela me disse:

– Não querendo perobear, sinto-me incólume à globalização. Sou uma pessoa saudosista, seletiva, hermética e profundamente sensível, desprezando qualquer modo vulgar de ser, portanto, amo a hermenêutica.

Eu, uma simples secretária, perguntei à minha quase normal inteligência: Jesus, o que será que essa louca quis me dizer? Para ela, inúmeras vezes, eu preferia ser surda...
Então, mais do que depressa, disse-lhe que estava atrasada para atender ao pedido do chefe e que mais tarde a gente conversaria. Saí correndo disso, para não dizer, voando. Odeio gente que se faz de modesta, que no fundo é intelectualizada e faz de tudo para acabar com o português alheio...

Ainda bem que a minha mente é sinônimo de gravador, pois não demorou muito para que eu pesquisasse sobre o que ela havia me dito, com o meu outro amigo – o Aurélio – (aquele que a Ofélia foi responsável em nos apresentar).

Ah! Se não fosse ele, o que seria de mim?
Será que já teria morrido por alguma picada intelectualizada de tal amiga?

Embora, para ele – o tal do Aurélio – às vezes, eu preferia ser cega, porque surda já era. Também porque ele muitas vezes causa certa hipnose, mais parece querer a pele, senão a alma de quem o lê.

Mas, debruçada com ele ou melhor nele, descobri que, a princípio, a Ofélia não quis me incomodar, sentia-se livre, sã e salva de tudo. Entendi que ela era uma pessoa; também que falava sobre os seus sentimentos e de alguém que amava. Era fechada, porém mantinha sentimentos sobre o passado, época em que todos eram mais educados. Amava a interpretação do sentido das palavras, sobretudo dos textos sagrados. Mais ou menos nessa ordem, o meu amigo Aurélio me elucidou. Depois disso, e mesmo assim, continuei sem entender nada.

Então, pensei comigo mesma: Jesus! Será o Benedito?
Que diabos ela quis me dizer? Faça-me o favor!
Vai ver que ela atravessava um momento difícil, no qual precisasse desabafar...
Que papo era aquele mais sem razão? Mentalmente gritei!
No entanto, naquela hora, senti que nem o meu amigo ajudou muito... De qualquer forma, achei um abuso da parte dela. Era uma piada em outra língua. Só podia ser!
Senti uma vontade louca de dizer para a Ofélia que ela era cega...

Mais tarde, passando por sua seção para entregas rotineiras, deixei em cima de sua mesa um bilhete no qual dizia:
“Qualquer pessoa possui uma membrana hidatoide. Quem não consegue enxergar, ao menos, que sua própria natureza linguística sucumbe o próximo, então estará ela, a tal da membrana, enferma? Da mesma forma quem sempre periquita não consegue ao menos ver os próprios passos com que avança na sua interminável busca (por que não dizer sede) por sabedoria, e nos quais, para muitas outras pessoas, isso pode significar incalculáveis perturbações mentais, quem dirá emocionais... Talvez seja por causa de toda essa gente que tem o seu pólice alongado... Todavia, apesar das intrigalhadas da vida, caso alguém não saiba, faz-se muito instrutiva a comunicação. Sem mais, Rosana.”

Estava querendo lhe dizer que todos têm olhos. Da mesma forma, quem não enxerga a sua própria língua, talvez possa estar cego. Ou quem busca o conhecimento a todo custo, às vezes, também está cego. Que as pessoas cegas, geralmente, não veem. E exatamente por isso, não enxergam o que fazem, sequer a reação que causam nos outros em relação a isso. Que tal cegueira pessoal pode contagiar, sendo assim, transmitir imediatamente esse vício para os simples – aqueles que querem ver qualquer coisa. Ou ainda, se não for fato contagioso, então pode ser o grande dedão do pé das pessoas que causa tudo isso. (Um segredo – a minha amiga tem o tal do dedão prá lá de grande!) E que por fim, mesmo que eu saiba que tudo isso é no mínimo instrutivo, agora, quem estava cega era eu, porque depois de muito tempo pesquisando e descobrindo palavras, fiquei exausta das vistas, já desde cedo muito fracas, sem contar com o meu estado emocional – cega de ódio por aquela amiga que só sabia falar difícil, não menos por ele – o Aurélio, sempre tão exaustivo.

Claro que a minha atitude foi uma revanche. Bem, pelo menos, assim eu senti. Pensei até em lhe apresentar o meu amigo Aurélio, sobretudo em vista do dedão citado, porque, com certeza, ela não saberia o significado da palavra pólice. Com isso, literalmente, acredito que a peguei pelo pé, ou melhor, pelo dedão do pé.

Bem, todos nós conhecemos algum dedão comprido, mas quanto ao tal do pólice alongado, talvez só o meu amigo era quem o conhecia, ninguém mais. E ai dela se me dissesse: “não obrigada”. Ou então que não seria necessária a apresentação porque ela conhecia o tal do significado. Não! Eu não suportaria isso. Seria capaz de me atirar ao chão para lhe arrancar, numa dentada só, aquele seu dedão alongado.

Se a Ofélia e o Aurélio se casassem e ela deixasse para ele o seu dom da comunicação (escolha propícia), nem assim acho que eu seria feliz, pois ele também sempre me aborrece porque é impossibilitado de falar.

Mas, imagino-os no paço de uma casa, tendo filhos com a profundidade das letras, mesmo secos feito grãos de milho. Enfim, embora eu goste desses meus amigos que eu mal escolhi, desejo-lhes uma união feliz, pois eles parecem ser feitos um para o outro. De certo que o são...
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Cristina,

Desculpe-me por esta minha invasão e não me leve a mal, mas nesta época de tantos problemas emocionais, eu também senti vontade de expressar os meus sentimentos... Quis te escrever um pequeno texto, uma reflexão. Da mesma forma que manifestar todo o carinho que sinto por você e o meu desejo na sua vitória...

Suas necessidades atuais, sua fragilidade emotiva ou moral é apenas uma fase devido ao acontecido... Sua criança que nestas horas sempre aflora, é espontânea, guia... Sendo assim, aproveite o seu lado puro, não se martirize, não prefira morrer...

Ao fundo do poço você foi tragada?
Tem sentimento penoso de vergonha?
Você está se sentindo desacreditada?

Esta maldita ação, este acontecimento fatídico provocou a perda de sua honra?
Você está se sentindo como quem está humilhada, desonrada?

Cristina, não há quem pense isso a seu respeito senão você mesma!

Seu sentimento de própria dignidade, seu brio, sua honra, tudo isso, está intrínseco em sua educação, em seus valores. Hoje, talvez, você esteja expressando arroubos de sua infância: timidez, acanhamento, sentimentos de medo e insegurança, quem sabe até provocados pelo medo do ridículo, da humilhação ou do rebaixamento diante dos outros.

De qualquer forma, quero lembrá-la de que seu orgulho, seus sentimentos fazem parte de valores pessoais... Eu não sinto, tampouco penso nada disso a seu respeito. Tenho certeza de que a grande maioria também não! Ao contrário, conhecer você é uma honra para mim...
Eu acredito em você! Valorizo você! Admiro você!

Cristina, não deixe que tal acontecimento a derrube!
Vá a luta! Procure a “Santa Paciência”. Falta pouco, talvez uma semente... Arregace suas mangas e corra atrás de suas necessidades... Como dizia Carlos Drumonnd de Andrade:

“Os delicados preferem morrer, mas a vida é uma ordem!”

Desejo a você toda sorte do mundo para resolver este contratempo e, desde já, intuo que você resolverá! Um grande beijo de seu amigo,

São Paulo, 09/10/2002.

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Última atualização: 25/09/2009.
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