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MEU CAMINHO ATÉ SANTIAGO

Realizei o Caminho com alguns brasileiros que conheci naquelas terras, em maio de 1998. Começei em Saint Jean de Pied de Port, França, no dia 2 e terminei no dia 31. Foi um mês com todo o tipo de clima, dias nevados, ensolarados, chuvosos...

Percorri todo o trajeto a pé, é claro. Você, peregrino, pode fazer o caminho como quiser... Abaixo, deixo o que transcrevi do meu diário de viagem:

01/05/1998 – Saint Jean de Pied de Port

Cheguei na graciosa cidade de Saint Jean de Pied de Port (França), de trem. Achei fácil a Rue de La Citadele e a casa da Madame Debril. Porém não gostei muito dela, não que ela devesse fazer uma festa para quem veio do Brasil, porém achei que não me deu a atenção devida. Carimbou a credencial (meu primeiro carimbo oficial) e eu lhe perguntei onde iria dormir. Deu-me um mapa do local indicando onde era o albergue e eu agradeci. Ela: Voilá, bon journé, au revoir! (Achei que eu iria dormir no quarto de hóspedes dela...)

O rapaz que me atendeu no albergue foi très aimable. Paguei 45 francos (1.100 pesetas). Estou num lugar que mais parece um labirinto e sei que estão hospedadas 15 pessoas, um pouco em cada quarto. No que estou, só tem um rapaz. Para tomar banho: descer uma escadaria, andar um longo corredor reto e virar à esquerda! O lugar é bom e tranqüilo.

Troquei o cobertor com a cama vazia ao lado e estou comendo pão de leite. Vou tomar banho aproveitando a solidão. Fui ao banheiro e encontrei uma vieira na lata do lixo, ela não é bonita mas eu gostei. Vai ser esta! Estava preocupado em arrumar uma e ela apareceu.

Resolvi sair e gastar meus últimos 15 francos. Bom, 5 deles foram com postais. Dei mais uma volta na cidade. Novamente subi a Rue de la Citadele que é super bonita uma extensa rua estreita que está no centro de uma antiga vila “amuralhada”. Tem vários bares abertos, repletos de pessoas. Não resisti:
– Bonjour, puis-je payer avec pesetas?
– Oui!
– Une Kronenbourg, s’il vous plaît! Quel est le prix?
(pesetas 300 ou 12 francos)

Agora são 19 horas e estou num bar do antigo país Basco, tomando uma cerveja, fumando, escrevendo, olhando o povo passar e pensando na minha longa caminhada de amanhã...

Como é bom curtir a vida, principalmente viajando, mesmo que esteja sozinho! O cara do albergue me informou que no caminho da parte espanhola os pernoites são gratuitos, porém aqui em terras francesas, paga-se! Como será a fronteira, no caminho, entre os dois países? Quando atravessei por trem não havia nada além de placas indicando...

No Brasil, agora são 14 horas do dia primeiro de maio, feriado em uma sexta-feira. O que será que as pessoas estão fazendo? Jamais elas imaginam onde estou... Isto é tão engraçado... Já estou na segunda cerveja, será que a terceira irá me fazer mal amanhã? Eu queria o meu computador agora, pois tenho preguiça de escrever no papel... Amanhã será o primeiro grande dia, subirei o monte dos Pirineus, andarei uns 35 quilômetros e chegarei numa cidade da Espanha chamada Roncesvales. Lá tem uma missa de benção para os peregrinos às 20 horas, onde se começam os rituais...

Estar aqui em Saint Jean, pensar no Brasil, no caminho de Saint Jack, em São Paulo, na Espanha, em Lourdes, Madri ou no Sudão, dá um nó na cabeça... Como este mundo é grande! Minha boca está toda rachada e cada vez que é molhada, arde... Estou na terceira cerveja, daqui a pouco vou embora para dormir cedo, entretanto ainda não são nem 20 horas...

Estou cansado da França, aqui tudo é caro, amanhã voltarei a rotina desejada... Afinal já estava em terras francesas há alguns dias. Quero conhecer a Espanha e para isto vou levantar às 5 horas de la mañana, a bientôt! Au revoir France!

1º dia – 02/05/1998

Bom, 5:30 horas, já estava na rua. Logo saindo da cidade estava tão escuro que precisei achar as indicações com a lanterna, aliás muito mal sinalizadas. Uma neblina "inglesa" foi minha companheira até começar a chover... Que sorte de principiante, não?

Agora são 7 horas e estou abrigado numa cobertura para feno, ao lado de uma estrebaria. Comi bolachas e já me vou pois é chuva fraca... Olha que romântico meu petit déjeuner...

Pensei que a chuva iria parar, porém chuva, chuva e mais chuva. Quando deu 10 horas, encontrei com um grupo de franceses perdidos. Perguntaram de onde e para onde eu estava indo. Informei, eles agradeceram, e eu não entendi para onde eles iriam...

Subida, subida e mais subida, subi tanto que cheguei aos céus. Então, neve! Foi a primeira vez que a vi, pisei, mexi e comi! O frio era tanto que eu não sentia mais nada. A mochila nem me incomodou no caminho, porém agora que estou descansando, meu ombro dói...

Cheguei em Roncesvales às 13 horas, ensopado. Peguei o carimbo e lá informaram-me que a Colegiata que hospeda os peregrinos só abre às 16 horas. Estou malhado e preciso de um banho quente! Tem hotel e um albergue da juventude. Ainda bem que tirei a caderneta, senão teria que pagar o hotel.

Roncesvalles – Comunidade autônoma de Navarra
Em meio aos cenários bucólicos dos Montes Pirineus (foto), a Real Collegiata de Roncesvalles é uma das paradas mais emblemáticas do caminho. Construída como um dos primeiros hospitais de peregrinos, em 1127, é um complexo que inclui um refúgio e uma igreja onde vivem sete religiosos comandados pelo padre Javier Navarro de 62 anos, natural de Pamplona e que desde 1969, todos os dias, recebe e abençoa os viajantes numa tradicional missa noturna dos peregrinos, às 20 horas.

A Iglesia de la Colegiata tem seu interior e nave central em estilo gótico parisiense – seus vitrais são belíssimos! Roncesvalles-Valcarlos é denominado sítio histórico de interesse nacional. Há também a Capela de Santiago (XIV) e Silo de Carlos Magno ou Capela de Sancti Spiritus.

Perto da igreja, em Ibañeta, uma paragem conhecida no passado pela presença de um padre que recebia os caminhantes tocando um sino, os peregrinos cumprem velhos rituais, como fazer uma cruz de gravetos para fincar no chão, deixando-a ao lado de uma capela.

O albergue da juventude é enorme e lindo. Paguei o pernoite, o jantar, o café da manhã, lavei e sequei todas as roupas por 2.900 pesetas. Agora já sei que os outros lugares de peregrinos, que são de graça, só abrem a partir das 16 horas, isto quer dizer que não devo sair tão cedo para o próximo destino. Finalmente lavei as roupas, pois hoje completava uma semana que as usava. No caminho fiquei com medo de animais, não sei porque... Achava que iria aparecer algum, durante um bom tempo eu só enxergava a neblina e o chão. Um pouco antes de encontrar o grupo de franceses, que aliás, foram as únicas pessoas que vi, avistei uma coisa grande e branca no chão, achei que era espuma. Como pode ter espuma aqui em cima se a última casa ficou a muitos quilômetros atrás? Fui conferir... Surpreendi-me: neve! Por isto é que estou com tanto frio... Lembra da divisa dos países? Pois é, é uma placa de cimento indicando apenas Navarra. A visibilidade começou a melhorar e não tinha nada, além de campos, pedras, neve e neblina. Quando se começa a descer a montanha, vão ficando cada vez mais abundantes as árvores, até se chegar a um bosque, onde o caminho se transforma em barro e lama. A bota que era impermeável, não suportou tanta chuva e lodo. Ela e minha calça ficaram um nojo que tive até vergonha de entrar na sala onde se carimbava a credencial.

Bem, as dificuldades foram as seguintes: escuridão e medo de perder o caminho, chuva, invisibilidade das coisas por causa da neblina. Entretanto, estava melhor sinalizado do que na França, que aliás, ora eram plaquetas de ferro amarelo pregadas em alguma árvore, ora eram setas com o símbolo da vieira desenhadas no chão, ora em círculos amarelos pintados em pedras, e na maioria das vezes, setas amarelas pintadas em árvores indicando o caminho.

Chuva e mais chuva, a água foi o problema eu não sou de tomar água e no entanto o cantil estava quase vazio, isto porque tinha neve que foi um dos maiores problemas. Passei na primeira etapa frio, umidade e insegurança. Porém agora esta ótimo, estou quente, com roupas limpas e secas, e bem alimentado. São 16 horas agora, a missa aos sábados é às 18 horas e o jantar aqui é às 21 horas. Isto é uma ceia e não um jantar! Agora é que estou sentindo a dor nos ombros, vou dar umas voltas.

Assisti a missa, porém foi chato. Gosto das igrejas mas não das missas. O padre deu a benção. O altar da igreja é lindo, há uma Nossa Senhora de Prata. Encontrei vários brasileiros, pois geralmente é daqui que se inicia o caminho. Um espanhol veio ver o quarto onde estou, cumprimentou-me, viu a vieira e disse:
– Es un peregrino que tiene mucho dinero! Pois está cá!
Respondi: No, quando cheguei a cá, o albergue dos peregrinos estava cerrado e expliquei tudo... Então me disse: Bueno, vós podes dormir donde queres!

A moça do albergue foi super legal, é do signo de câncer, lembra a Pepi no seu jeito de falar. Todos os brasileiros estão no outro albergue, parece que eu fiz de propósito. Agora vou jantar...

2º dia – 03/05/1998

Bem, o segundo dia foi mais longo e cansativo, tudo me dói, exceto "aquele membro"! Tomei o café da manhã às 9 horas e às 10 horas estava caminhando. Passei por franceses, brasileiros, alemães e espanhóis. Achei mais difícil este trecho, muito barro, subidas e descidas, ainda bem que não choveu, até saiu sol!

Estou num bar em Larrasoaña. Tomei três cervezas e aqui não tem Marlboro, comprei um tal de Winston que é mais forte. O refúgio de peregrinos é "aquelas coisas". Estou num quarto com mais 4, duas francesas e dois gauchos. As camas? Não existem. Só tem 5 colchões no chão!

No caminhar, conversei com duas espanholas adoráveis que estavam indo para as montanhas. Aqui há vários caminhos para várias montanhas. E o caminho de Santiago por várias vezes cruza a autoestrada. Senti vontade de ir pela estrada e me senti como se estivesse no quartel... Por que o caminho tem que ser pelo barro e pelo lugar mais difícil? Deveríamos caminhar pela estrada, penso que seria mais confortável... A minha mochila parecia ter 50 quilogramas! E a dor nos ombros e na coluna, faziam com que eu aloprasse e acelerasse o passo...

Cheguei bem antes que os brasileiros, saí às 10 horas e cheguei às 16:30 horas. As paisagens são bonitas, passa-se por vilas, pastos, campos, riachos, porteiras e fábricas. Ainda bem que cheguei cedo, pois os brasileiros tiveram que dormir em outro lugar, pois o refúgio estava lotado, isto porque têm uns 40 lugares. Já estou na quarta cerveja... Daqui a pouco, às 20 horas, será a cena! O que será que vai ter para o jantar?

Larrasoaña – Igreja S. Nicolas de Bari, construída no século XIII.

Levei quase uma hora limpando a bota. Estava junto com um casal de gauchos. A gaucha me contou que ninguém acreditava que ela iria fazer o caminho... Perguntaram-lhe, ainda no Brasil, se ela faria o caminho de vestido e se levaria o celular... Pois é, agora, ela estava limpando a bota como yo! C'est la vie!

Bom, as dificuldades foram: dor física, excesso de bagagem, cansaço e difíceis lugares para se passar. Tinha um lugar que a lama e a água eram inevitáveis... Passei neste segundo dia problemas materias. Pensava em que poderia me desfazer para que a mochila ficasse mais leve, porém não havia nada. Esta vila é adorável, as pessoas que estão aqui no bar são divertidas. Elas estão jogando "pinchazo" ou "menos cinco", como me informou o barman. E jogam a dinheiro... As cartas são diferentes, lembram um baralho de Tarôt.

Estou adorando tudo, apesar das dores. Ontem passei gelol e foi ótimo o resultado... Já passei hoje também. Agora são 19:30 horas, não vejo a hora de dormir. Acredito que o meu irmão iria adorar este caminho, e com certeza faria mais rápido que yo! Imagine dormir em colchonetes um do lado do outro, com pessoas estranhas e esperar o jantar... Tudo isso de graça! É engraçado, porém estranho... Até que estou me saindo bem... O mais interessante é estar no norte da Espanha, onde jamais pensei em conhecer...

De repente tocou uma sirene e todos se olharam... Daí informaram que era para jantar. Descobri que era pago, só davam pão, vinho e água! Vinho? Tomei quase uma garrafa... Jantei com o Artur e a Maria Helena, dois gaúchos e com mais 3 franceses, falávamos em francês, inglês, espanhol e português. Ri de chorar! Comi uma sopa de "nada", um pollo assado e muito pão e vinho... Deitei às 22 horas e "morri"!

Viscarret; Burguete; Zúbiri; Ponte de la Rabia.

Arre – Basílica La Trindad de Arre. Rio Ulzama. (antes de Pamplona)

3º dia – 04/05/1998

Agora são 8:30 horas, todos já se foram e os cariocas ficaram brincando que eu sou o The Flash, pois saio depois de todos e chego antes que todo mundo. Nunca comi tanto pão em toda minha vida! Hoje, todos se cumprimentaram e no café da manhã foi super divertido. Reclamavam das dores e contavam os tombos na lama. O padre daqui aconselhou ir pela carretera, pois o caminho estava intransitável... (Agora que alguém me fala isto, pois creio que o pior foi ontem...) A lama era tanta que o quartel foi um paraíso... Agora vou para Pamplona pela estrada, pois meu pedido material foi atendido... Ninguém acredita que eu fumo e como eu ando tão rápido...

Foi uma chatice vir pela estrada, deu até tédio, pois é sem emoção... Fiquei pensando em nada ou melhor, na superficialidade das coisas sem importância, na futilidade da vida, nos por quês! Por que uns tanto e outros nada? Por que tantas preocupações com a rotina? Todos poderíamos viver melhor sem pensar ou sem se preocupar... Não tive dificuldades, tirando a dor no ombro... Aprendi que são as pessoas que dificultam a vida...

Pamplona – Catedral gótica do século XV com uma fachada do século XVII. Muralhas de diversas épocas, predominando o século XVI. Palácio Arcebispal. Igreja Santiago. Igreja S. Saturnino/Cernin, século XIII. O "casco antiguo de la ciudad" foi declarada em 1968 conjunto histórico-artístico. Pamplona – Navarra. Catedral Plaza del Castillo. Monumento a los Fueros. "Sanfermines", tradicional festa com bonecos gigantes que lembram o interior do nosso Brasil.

Pamplona é a antiga capital de Navarra, é linda! Adorei aqui, é meio medieval. Não se entende muito a língua, o Catalão é mais difícil de se compreender. O refúgio fica numa igreja. São beliches e só há um banheiro... Pela estrada cruzei com um casal de alemães, que são uma graça, também com um casal de franceses, com os cariocas e os gaúchos que vieram pela lama e reclamaram até...

Tomei banho e saí para conhecer a cidade que é linda e antiga. Comprei frutas no mercado e perguntei onde havia lugar para se comer barato. Uma mulher me indicou e cá estou... O prato do dia era ensalada mista e pollo asado, pelo preço de 1.400 pesetas. O garçom perguntou-me o que eu queria para beber. Pedi vinho tinto. Veio uma garrafa de vinho gelado (a Rosana iria adorar). O restaurante é grande e só tem gente daqui. Nos refúgios é cobrado em média 400 pesetas. É uma furada dizerem que é de graça!

Cigarros aqui, só em máquinas que dão o troco! Por que será que eu tinha que conhecer Pamplona? Aqui eu moraria, principalmente se tivesse alguém! Amanhã em diante vou pelo caminho, mesmo tendo lama, é melhor. Estou me sentindo só... Queria ter alguém para dividir e conversar... Por que será que estou neste restaurante sozinho, em Pamplona, no norte da Espanha, bêbado, fumando e tudo tão distante? Parece que só existe eu aqui! Beber sozinho, acho que dá depressão! O vinho é da vinícola de Navarra, uma delícia. Agora são 16 horas. Bom, depois de uma garrafa de vinho vou descansar, dormir, para amanhã ir para à Ponte de La Reina.

Quem disse que eu iria dormir? Fiquei quase 3 horas conversando com uma estudante francesa, foi meio difícil, porém adorável... Descobri que o vinho e o pão são ofertas das casas... Por isso me deram uma garrafa inteira e aberta... Agora são 20 horas, estou novamente tomando vinho e jantando em outro restaurante. Esta cidade é linda, o povo é amável, estou adorando... Deixei recado na secretária da Pepi. Este restaurante lembra um bar do faroeste na época das caçadas... E a cidade lembra Wisbaden, na Alemanha, com suas lojas maravilhosas. Comi um ensopado de peixe e filé de merluza.

O frio aqui está de rachar... só bebendo para agüentar... Gente, todos os dias eu estou enchendo a "cara"... O que sobra das garrafas, eles completam para o próximo. Das minhas nunca sobrava nada, penso que é o frio... Chegaram aqui no restaurante dois franceses e comentaram que há muitos brasileiros por aqui. Perguntaram se o dîner c'est bon. Oui, c'est bon! Aqui há peles de animais pendurados na parede, os lustres lembram uma decoração medieval, há conchas e panelas de cobre como adornos, um chifre de veado como troféu, mesas, cadeiras e paredes de madeira rústica, como decoração uma cesta de frutas de cera e um arranjo de flores gigantes lilás de péssimo gosto... Uma graça o ambiente e excelente o vinho... Até!

4º dia – 05/05/1998

Dormi das 20 horas às 6 horas, ou melhor, "morri" ! Fui o último a sair do refúgio. Para variar sempre saio depois e chego antes. Não choveu, fez até sol. Não tive dificuldades, tirando a mochila... Passamos por um lugar onde dizia: "Aqui os ventos se cruzam com o caminho das estrelas"...

Serra do Perdão – Foto riscada. Planície de Urtega, entre Pamplona e Puente La Reina. Ao lado dessas estátuas se vê moinhos de vento que estão a 734 metros de altitude.

Ultrapassei todos no caminho, como sempre... Amolaram-me porque eu fumo; se eu não tenho frio, pois sou o único da turma que faz o caminho de bermuda e sou o único que anda sozinho. Enfim sou um estranho...

O caminho foi legal, bem mais fácil, passei por vários pueblos, em um deles, liguei para cumprimentar o Marcos de aniversário...

Puente La Reina – A torre da igreja se destaca no horizonte árido da cidade. Esta igreja de Santa Maria de Hortz ou igreja do Crucifixo têm dois altares, caso verdadeiramente raro. Propriamente se trata de um altar e uma capela lateral, porém devido as suas proporções eqüivale a outro altar. Numa nave está uma imagem da Virgem sentada sobre um trono com o Menino, e na outra um crucifixo em forma de Y. Esta forma de cruz converge de dois vigorosos movimentos europeus, um alemão e outro italiano, que usavam um tronco de árvore sem suas ramas, pois uma cruz com estrutura natural representa a árvore da vida.

Aqui se encontra também um dos mais importantes símbolos do caminho, a famosa Puente de la Reina, a ponte dos peregrinos têm seis arcos e atravessa sobre o rio Argas. Construída para os peregrinos por ordem de uma rainha do século XII, mulher de Sancho Mayor, rei de Navarra morto em 1035. Na visão que se tem da ponte formam-se círculos que representam a unificação do céu com a terra, unindo o meio círculo real, material, que são os arcos da ponte com o meio círculo virtual, espiritual, que são os reflexos dos arcos sobre o rio. Monumento ao Peregrino, onde os caminhos Aragonês e Navarro se encontram. Igreja Santiago el Mayor, século XII.

A Ponte de La Reina é uma graça. Estou mais do que entusiasmado. Agora, todos me chamam de The Flash. Almocei na cidade o menu do dia, 1.200 pesetas, e fui ao supermercado para comprar a janta e o café da manhã do dia seguinte. Hoje foi um dia tranqüilo, a igreja de Eunate é super bonita e a cidade é do século XI.

Eunate – Igreja romana de Santa Maria de Eunate, foi erguida toda em pedras na segunda metade do século XII, época de certo florescimento tanto em áreas urbanas como nas rurais e coincidindo com o tempo do auge das peregrinações à Santiago de Compostela. A originalidade de Eunate está em sua planta centralizada, pois apresenta um corpo central em forma octogonal irregular, que se prolonga no lado oriental. Circunda todo o perímetro do edifício arcos que se separam do templo por um espaço de quatro metros mais ou menos, e que são sustentados por colunas ricamente decoradas por motivos vegetais, máscaras, animais e figuras humanas. Foi comemorada a sua restauração no dia 15 de abril de 1943 com uma solene festa... Existem figuras estranhas nas coluna; uma delas, na porta norte de Eunate, a figura parece muito com Bafome, uma criatura que os templários adoravam; isto é um indício de que realmente Eunate foi construída pelos templários, apesar de não existirem documentos que comprovem a sua construção por essa ordem Religiosa...

À noite foi super engraçada, bebemos vinho e reclamaram dos roncos do povo. Disseram-me que eu não roncava, porém falava em português durante a noite toda... É inacreditável estar aqui, nestas condições... Passar por albergues é engraçado... Dormi às 21 horas, porém das 2 às 3 horas fui ao banheiro, também lá fora fumar, onde encontrei com um dos gaúchos, o Paulo, ficamos conversando e estava frio.

5º dia – 06/05/1998

Levantei às 6 horas e às 7 já estava no caminho, hoje eu saí antes da turma. O caminho foi bom, muitas subidas e descidas. Passamos por um pueblo no topo de um morro. Conversei com uma senhora espanhola perto da igreja. Andado, fiquei lembrando das vezes que a minha avó paterna me levou viajar... Tomáva-mos um trem e depois andávamos alguns quilômetros até chegarmos no sítio de uma irmã dela. Fomos muitas vezes para lá... Eu adorava! E desde criança eu adorava caminhar. Fiquei lembrando da imagem dela e do meu pai (que Deus os tenha).

Cheguei em Estella e o refúgio só abre às 14 horas, agora são 12 horas, eu vim super rápido. Fui num mercado e comprei pão, maça, suco e cerveja. Agora estou sentado num banco em frente a uma igreja, de baixo de sol – finalmente ele apareceu. Ontem passei frio, hoje estou só de camiseta. A rotina, que já estou acostumado, no refúgio é completamente diferente. Todos já se conhecem, brincam, reclamam e todos sofrem com as dores, porém vale a pena, pois é uma experiência inigualável...

Mañeru; Cirauqui; Lorca; Villatuerta.

Estella – É certo que junto ao rio Ega, existia uma pequena população anterior, Lizarra, como tantas outras na depressão estellesa. Desde o momento em que os muçulmanos invadem a península para entrarem na Europa continental, a rota preferida foi a rota do rio. Nos primeiros séculos depois da reconquista, uma fortaleza avança a fronteira mais ao sul e cresce a importância de Lizarra, até o ponto em que o rei Sancho Ramírez, monarca de Navarra e Aragón, decide criar em 1090 um Fórum. A tradição explica que o rei elegeu este lugar movido por um milagroso descobrimento de uma imagem da Virgem por uns pastores que se encontravam na montanha de Puy em 1085. Passa-se a atender no local, a crescente influência de peregrinos que de toda Europa dirigiam-se a tumba do apóstolo e, então, foi quando propriamente nasceu Estella. No dia 25 de maio celebra-se em Estella a festividade de sua patrona, a Virgem de Puy, com atos folclóricos e tradicionais.
Igreja de S. Miguel, século XII. Convento S. Domingo e Igreja S. M. Jus del Castillo. Igreja S. Pedro da Rua.

O meu corpo dói inteiro, parece que a dor nunca mais vai passar. Mas está sendo fantástico, mesmo que às vezes sinto a impressão de estar vivendo num regime militar... O sol está uma delícia. Na turma há espanhóis, alemães, franceses e brasileiros. Por que será que estou nesta turma?

O albergue é ótimo, bem ventilado e espaçoso, 500 pesetas. Na cidade de Estella tem várias igrejas do século XI e XII. Fui à um bar tomar vinho e comprar cigarros. Meus pés estão uma calamidade e os meus ombros “caíram”. Por que será que temos unhas? As dos dedinhos caíram e as unhas dos dedões estão ficando pretas...

Hoje, eu estou de saco cheio do povo, queria estar solo e também queria uma massagem em meus pés! Às vezes, torno-me insuportável, não consigo e não quero relacionar-me com ninguém. Muitos momentos sinto-me um desbravador, corajoso que consegue tudo e em outros uma criança medrosa em busca de alguém para protegê-la... Quando olho no mapa do caminho eu não me sinto bem, pois vejo que falta tanto ainda... Já estou andando a 5 dias, todo dolorido, mas ouvi dizer que não se deve pensar em quantos dias faltam... O bom é pensar no máximo até amanhã. Fiquei lendo um livro de anotações dos peregrinos, lembrei-me do livro de estrangeiros da igreja de Grasse, na França...

Aqui tem peregrinos do mundo inteiro e vários do Brasil. Uns exageram, na minha opinião, em relação a beleza do caminho. Acho que o caminho deveria ser longe da estrada e com menos intensidade de barulho urbano. Cruzamos a estrada várias vezes e passamos um trecho dentro de uma propriedade particular. Bem, amanhã, Los Arcos. Tem um médico aqui, que todos os dias, por duas horas, vem cuidar dos peregrinos. Cuidou de uma francesa e de um alemão que tinham bolhas nos pés.

6º dia – 07/05/1998

Às 8 horas estava no caminho. Chegamos numa fonte de vinho, um lugar bárbaro. Imaginem só uma torneira de vinho em uma parede... Tomei 3 taças da Fonte de Vinho!

Irache Situado a 2 quilômetros de Estella, no caminho de Logroño, forma um vasto molde de edificações medievais, renascentistas e barrocas. Compreende três claustros rodeados por suas respectivas dependências, mosteiro e uma grande igreja do final do século XII. A torre domina o exterior do monastério, inspirada nas torres do basílica del Escorial.

Fiz o caminho, um bom trecho, com a Denize, uma brasiliense. Depois encontramos o Jorge, um gaúcho que estava com problemas no joelho, andamos juntos até Los Arcos. Quando cheguei, fui ao supermercado, comprei e fiz arroz para a turma toda. Comemos arroz com ovos fritos e salada de tomates, Jorge e Paulo, os gaúchos, Denize, Sarah e eu. Hoje o caminho foi bueno. Descobri que aqueles dois, o casal que ajudam a todos, são austríacos. Existe um senhor espanhol no grupo que tem 80 anos, ele é bárbaro, diz que com sua idade não há mais preocupações e projetos de vida. Não se importava se chegaria à Santiago ou não, porém ia vivendo o dia a dia, o presente era o que lhe importava...

Los Arcos – Situado a 18 quilômetros de Estella e logo depois da fonte de vinho em Irache, é recomendável recorrer pausadamente em sua rua Mayor e visitar a igreja de Santa Maria, que se edificou no século XVI, e nela se encontram testemunhos artísticos de quase todas as épocas. Possui um belo claustro gótico, que recorda o da catedral de Pamplona. A estátua da Virgem do século XIV é gótica. O coro de 1561 é barroco e a torre é renascentista.
Igreja de N. S. de los Arcos, século XII.

Agora estou almoçando em Los Arcos, está fantástico. Hoje, estou adorando a turma, tanto que fiz o almoço. Dormi às 16 horas. Agora são 18, acordei com espanhóis dizendo "desayuno grátis"... Disse eu: – Donde és? Agora, além de nós 5, mais quatro brasileiros. Fomos ao supermercado para comprarmos o jantar. Estou aqui em Los Arcos, olhando a torre da igreja e escrevendo, aliás linda... Estão dizendo que somos bruxos, eu e a Denize...

Somos 10 brasileiros! Está ótimo! A cozinha está uma farra. Às vezes, eu não acredito que estou aqui, é tão diferente... A rotina de arrumar a mochila, comprar comida e lavar roupas todos os dias é uma coisa que jamais pensei viver... A vivência que é fantástica, nem tanto o caminho. Tirando as dores, estou achando tudo ótimo...

O interior da igreja é uma das mais lindas que conheci, seu interior, seu altar é tudo dourado. És mui preciosa! Hoje foi o melhor dia... Antes do jantar fiquei conversando com 2 alemães, uma francesa e um brasileiro. Ele entendia alemão, eu um pouco do francês e assim se passou mais de uma hora...

O jantar foi uma farra, comemos macarrão com atum, salada de alface e laranjas (foto).

7º dia – 08/05/1998

Esta noite sonhei que estava numa casa enorme de uma família rica, onde haviam muitas pessoas e muitos carros... Alí eu encontrei um amor... Uma senhora de cor, que era a empregada da casa me disse que eu haveria de levar muito amor àquela família... Estranho sonho, não? Já às 6 horas estava com os pés no caminho. Passei por várias plantações de trigo e cevada, azeitonas pretas e alguns pueblos.

Torres del Río – A 26 quilômetros de Estella se encontra uma jóia romana, se trata da igreja do Santo Sepulcro, de planta octogonal. Seu interior está coroado por uma cúpula de numerosos arcos que se cruzam formando uma estrela de oito pontas.

Viana – A 37 quilômetros de Estella, se ergue sobre uma fortificada altura, Viana. No século XV Carlos III, o Nobre, criou aqui o Principado de Viana, título que ostentava o herdeiro da coroa de Navarra e que corresponde aos herdeiros dos monarcas espanhóis. A igreja de Santa Maria, construída entre os séculos XIV e XVI, tem cinco naves, onze capelas e a coroa da nave tem uma altura de 80 metros. Sua fachada principal, do século XVI, é de grande altura e adornada em toda a superfície com relevos sobre a Paixão.

Logroño – Comunidade autônoma de La Rioja. Igreja de Santa Maria la Redonda ou Igreja Nossa Senhora la Redonda, século XV. Igreja S. Bartolomeu, século XII. Fonte de Peregrinos. Igreja Santiago, século XVI.

Vim só e bem. Logroño é uma cidade grande, a sua catedral é fantástica, lembra as igrejas de Paris. O albergue daqui só abre às 17 horas agora são 13 horas. Podemos deixar as mochilas lá, porém só usaremos depois das 17 horas, pode? Aliás, os horários daqui são todos diferentes, enche o saco isso! Falam da felicidade do caminho... eu sempre acho que o povo se ilude... Queria que tivesse menos pessoas aqui... Durante os refúgios, a gente encontra novas pessoas que pulam algumas cidades, desencontra outras que andam mais e vão para outros lugares... Tem pessoas que começam de outros lugares o caminho e outras não tem como objetivo Santiago e sim outras cidades. Enfim, o grupo permanece...

Tem pessoas chatas, legais, ricos e pobres, uns dormem nos refúgios outros nos hotéis, uns vão a pé e outros de bicicleta, outros vão com carro de apoio, isto é, vão a pé com as mochilas no carro com alguém levando... Dá de tudo!

Falta tanto ainda, gostaria que passasse mais rápido... Almocei sopa de feijão branco, um peixe grande frito, um pudim de leite, vino e pan, tudo isto por 1.000 pesetas. Existe um frei, chamado Jorge que tem 65 anos, que conheci em Roncesvales, ele é de Florianópolis e estava fazendo o caminho descalço, porém passado pelos Montes Pirineus, naquela neve, ficou doente e permaneceu em Roncesvales. Chegou de ônibus em Logroño e encontrei-o perdido na cidade, levei-o até o restaurante, almoçamos e ficamos conversando sobre a sua vida. Ainda irei visitá-lo em Florianópolis... Ele é do signo de aquário e é uma graça.

Ontem, do jantar sobrou macarronada. Cortei uma garrafa de Coca-cola e ela serviu de embalagem. Almocei isto no caminho, numa plantação de pinheiros e jantei ele quente no refúgio. Não que fosse necessário passar por isto, porém quis. Iam jogar fora, fiquei com dó e trouxe. Como podem ver, hoje, almocei duas vezes... Até!

8º dia – 09/05/1998

Levantei às 5 horas, comi na saída de Logroño 2 filões de pães. Foi horrível o caminho, cansativo demais. Meus pés estão uma calamidade e os meus ombros daqui dois dias caem... Tive que tirar as botas no caminho para massagear os pés. Passei um creme para aliviar a dor muscular e foi a salvação. Dois belgas pararam e perguntaram em inglês se estava tudo bem. Cheguei no refúgio às 12 horas, andei 6 horas seguidas, ficava pensando o que era que estava fazendo aqui... Por que ir a pé? É uma dificuldade absurda... Hoje me doem todos os músculos. Todos reclamam de dores. Fui ao supermercado e almocei pão, vinho e três latas de atum. Tomei um bom banho quente e lavei as meias e cuecas. A água quente acabou, imagine só, os outros...

Este refúgio em Nájera estava aberto quando cheguei. Cada um tem um horário e é aquela vida, tomar banho, desarrumar a mochila, lavar roupas, enfim é um regime militar... O povo chegou mais ou menos às 16 horas. Conheci a cidade, voltei e fiz macarronada para os brasileiros. Coloquei uns temperos que haviam aqui no refúgio e foi um banquete. Agora são 20 horas, acabei de ligar para a Rosana e estou morrendo de saudades... Comprei um cartão telefônico de 2.000 pesetas, não falei nada e já se foram 1.000 pesetas, deixei o resto para amanhã ligar para a minha mãe. Até! Não sou de tomar remédios, porém tomei 2 analgésicos.

Villarroya

Navarrete – Declarada em 1970 conjunto histórico-artísitico. Povoação medieval fundada no começo do século XII.

Nájera – E.G.B. – Parque Eolico El Perdón, donde se cruza el Camino del viento com el Camino de las Estrellas. Rio Najerilla.

9º dia – 10/05/1998

Levantei cedo, às 5 horas. Hoje é dia 10 de maio, dia das mães no Brasil, sim porque aqui na Espanha o dia das mães foi no dia 3 de maio. Comi meio pacote de pão de forma, uma garrafa de suco de abacaxi (piña) com uva, uma pêra e uma maça no café da manhã. O destino era Santo Domingo de La Calzada. Cheguei cedo, estava super animado e com pique, parece que o remédio fez efeito. Ontem tanta dor e hoje nenhuma, é um milagre! Ah, ah, ah! Dei 12 voltas, como manda o ritual, na tumba de São Domingo que fica dentro de uma catedral maravilhosa. Esperei o galo cantar por uns 3 minutos, porém não foi satisfeita a minha vontade. Imagine um galo branco dentro de uma igreja, coisas da Espanha... Saí, tomei um café com leite e liguei para a minha madre. Inconformado, voltei à igreja para esperar o galo cantar e de repente ele sacudiu-se inteiro e cantou! Dizem que é sorte para o peregrino. Muito bem! Resolvi ir para o próximo destino, Belorado, mas 22 quilômetros...

Santo Domingo de La Calzada – Praça Del Santo. Monumento aos Peregrinos.
A Igreja Catedral del Salvador é romana do século XII com estilo gótico e barroco. Seu altar é uma obra do escultor espanhol Damian Forment, que trabalhou nela até morrer, em 1540. Sua Torre é do século XVIII.

"Santo Domingo de La Calzada, onde a galinha cantou depois de assada". A rima tosca ainda é muito usada para aqueles que contam a lenda que deu fama à cidade. Um jovem, em peregrinação com a família no século XIV, foi acusado de furtar uma taça de prata por uma moça, tomada de raiva diante da paixão não correspondida pelo rapaz, que acabou sendo enforcado. Seus pais seguiram até Santiago e na volta, encontraram o filho vivo, um milagre de Santo Domingo. O casal contou o fato ao corregedor local, no momento em que ele comia uma galinha assada. Incrédulo, ele desafiou: "Se isto for verdade, que esta ave cante agora". E a ave cantou. Para lembrar o episódio, um galo e uma galinha são mantidos vivos na igreja da cidade e quem ouvir o galo cantar, significa uma indicação de sorte para o peregrino.

Redecilla del Camino

Belorado (Belfuratus) – Comunidade autônoma de Castilla e León. A trilha que liga Santo Domingo de La Calzada e Belorado, fica na divisa das províncias de La Rioja e Burgos. – Castelo de El Cid. Cuevas de S. Caprasio.

Cheguei às 16 horas, ainda estava bem, porém não havia vaga no refúgio e o próximo era a mais 12 quilômetros. Fui num hotel, mas muito caro, perguntei sobre pensão, fui, mas também não havia vaga. Resultado, andei mais e fui para Vila Franca, que nada mais é que a metade do percurso que eu faria daqui a dois dias.

Vi um rebanho de ovelhas sendo guiadas por um pastor e cães, lindo! Cheguei quase morto às 19 horas em Vila Franca, o refúgio é uma lástima, banho frio, vaso sanitário no chão, um lugar horrível! Fazer o quê...

Villafranca

Depois que saí de São Domingo, encontrei um senhor do signo de virgem, que mora em Valência. Ficamos conversando e andando até a próxima cidade Brauño, onde ele ficou e eu parti... Ali almocei um filão com duas bananas. Agora aqui nesta cidade que não tem nada, fui no único bar aberto e jantei sardinhas em conserva com fatias de pão e uma taça de vinho. Não havia mais nada e a padaria que encontrei aberta só tinha pães. Comi mais 6 pãezinhos doces e assim se foi o dia 10. Moral da história, andei 13 horas, até que estou bem em relação a ontem e adiantei 1 dia e meio no caminho. Espero que não aconteça mais isto ou se acontecer, que seja um refúgio decente e tenha um bom lugar para comer. Foi assim que me distanciei da turma, eles ficaram em São Domingo. Aqui o povo é igual, porém só há dois brasileiros. Boa noite, são 21 horas, já fiz massagem nos meus pés e estou melhor. Até!

10º dia – 11/05/1998

Às 7 horas estava com os pés no caminho, o tempo mudou e às 8 horas começou a chover até às 10 horas que cheguei em San Juan de Ortega. Não vi nada mais no caminho além de pinheiros e as gotas de chuva que caíam da aba do meu boné... Estou num bar e vou esperar o albergue abrir, pois não quero mais andar hoje... O caminho na parte da França é mal sinalizado com subidas e mais subidas. Quando se cruza a região de Navarra é bem melhor sinalizado, porém é terrível de difícil, com muitos lugares estreitos com muito barro e pedras. Já na região de la Rioja, volta a ser mal sinalizado, mas o caminho é bem melhor.

Tosantos – A Ermida rupestre de Nossa Señora de la Peña ou Virgem de La Peña, no povoado de Tosantos, fica incrustada numa montanha.

Villambistia; Espinosa del Camino; Villafranca de Montes de Oca.

San Juan de Ortega – Em 1138, um clérigo espanhol Juan Quintanaortuño, discípulo de Domingo de la Calzada, construiu na aldeia de Ortega um hospital-igreja para proteger os peregrinos e, passou a realizar milagres como multiplicar pães. Nove anos depois de morrer, em 1163, o lugar passou a se chamar San Juan de Ortega. Na igreja, ainda um importante refúgio, ocorre um dos belos fenômenos do caminho: nos dias do equinócio (em que o dia e a noite tem a mesma duração), das 17 horas às 17:10, um raio de sol penetra na igreja e ilumina, com precisão, um capitel em que estão representados a anunciação e o nascimento de Cristo.

Estou agora na região de Burgos, parece que as coisas vão melhorar, apesar de passarmos por pueblos onde não existe nada. Ainda não consigo entender o que estou fazendo aqui, além de sofrer... C'est la vie!

Fiquei horas conversando com uma senhora espanhola do signo de libra. Contou-me que por volta de 1.000 anos depois de Cristo os espanhóis expulsaram os árabes desta região, que o El Escorial em Madri é onde são enterrados os reis e as rainhas da Espanha, local que o rei Juan Carlos será enterrado quando morrer, enfim ficou me hablando da história da Espanha... Também disse que, neste mês de maio, não era para estar tão frio como está. Disse à ela:
– Vou lhe contar um segredo, não sei o que estou fazendo aqui! Ela riu, estendeu-me a mão e disse que também não sabia, apesar de ter prometido ao seu marido que iria acompanhá-lo nesta jornada.

Agora são 12 horas e pedi num bar uma garrafa de vino, só bebendo mesmo... Uma coisa interessante: espanhóis, alemães, belgas tem na maioria mais de 50 anos, franceses são velhos e jovens, agora jovens mesmo só os brasileiros. Também, a maioria escreve ou melhor tem um diário sobre o caminho... O albergue já abriu, ele é bom e grande. Não para de chover. É um tédio, porém interessante ficar olhando os mapas nos albergues sobre o caminho. Falta tanto ainda... Esta é uma viagem "de grego"...

Imagine quantas pessoas morreram neste caminho na Idade Média, sim porque não haviam botas, nem roupas especiais e muito menos alimentos. As pessoas buscavam uma viagem ao final da Terra, cruzavam a Europa toda para chegarem em Finisterre... Eu estou fazendo o mesmo, tão melhor preparado e numa época bem distante daquela e não sei porque e nem onde quero chegar... Chega a ser hilário... Gostaria de estar em casa bem cuidado e acolhido... Mas que casa? Tenho a sensação de que destruí tudo o que tinha na vida...

Estou tão alienado a tudo, que no começo ficava cuidando da mochila, mas agora largo a mochila em qualquer lugar e depois de horas ela ainda está lá, claro que os documentos ficam comigo. Quero só ver o que é que tanto busco quando terminar tudo... Definitivamente isto tudo, está longe de ser turismo... É uma vivência diferente na qual cada um tem suas experiências. Creio que jamais faria isto novamente. Parece um teste de sobrevivência moderno, no qual cada um enxerga como pode viver!

Aqui em Ortega não tem nada, é um monastério do século XII e algumas casas. Há um cachorro preto do lado de fora do bar, tremendo de frio e todo molhado. Estou no décimo dia de caminhada e me encontro assim, ainda faltam 20 dias... Penso em desistir porém, quero ver o que vai dar! Aqui no bar há uma lareira acesa, o povo está na maioria ao lado dela. Agora, seria bom um vôo até Santiago. Eu ainda não sei bem ao certo o que me faz continuar. Parece até que seria impossível desistir, não sei por que? Gostaria muito, muito que alguém me ajudasse. Ajudasse-me em companhia, quero alguém, porém ninguém que está aqui. Nunca eu quero que o Marcos esteja junto, mas hoje eu queria... Por que? Meu Jesus onde estás? Ajude-me! Vou ligar a cobrar para o Marcos...

Foi bom, deu para me animar... Agora vou almoçar e dormir. A mulher do bar saiu para fazer compras em Burgos, o que será que vai ter para comer? Pedi outra garrafa de vino e uma tortilla de batatas. Aqui não há menu completo, só lanches, pode? Bom, foi o primeira tortilla que me sustentou, também pudera, comi uma inteira. É uma espécie de fritada de ovos com massa e batatas. Estou satisfeito. Agora vou dormir, são 15 horas... Até!

Acordei às 18 horas e fiquei sabendo que o sistema de água quente está quebrado. Ainda bem que caminhei pouco hoje, pois banho só amanhã em Burgos... Aliás, ontem andei uns 56 quilômetros e hoje só 12 quilômetros. Creio que é porque é segunda-feira, dia da preguiça, ah, ah, ah. Encontrei um casal, aqueles simpáticos da turma, ficaram falando francês, ainda bem que entendo um peu! A chuva já passou e agora está sol, porém com um vento gelado. A paisagem daqui é inigualável, estou num pátio largo e amplo, em frente do bar que fica na extremidade da vila, no fundo há uma igreja antiga com três sinos, do lado esquerdo estão algumas casas e do lado direito fica o albergue, algumas árvores, uma plantação que não reconheço daqui e que também nem quero levantar-me para saber o que é, um trator, 3 carros, e entre as árvores varais com as roupas dos peregrinos penduradas. Em frente as casas, bancos lotados de estrangeiros passando pelo mesmo que eu. Fico imaginando no mapa aonde estou e não sei ainda o que estou fazendo aqui! Não que eu esteja com fome, porém gostaria de ver o McDonald's... Este lugar é muito isolado. Até!

No jantar que o padre forneceu para os peregrinos, sopa de alho, tinham 42 pessoas de oito nacionalidades. Sentei-me entre espanhóis e de frente à uma francesa e uma inglesa. As pessoas colocaram na mesa o que tinham para comer. Eu tomei duas vezes a sopa, pois uma espanhola me disse que eu era jovem, muito magro e precisava comer mais. Outro espanhol me deu pão e queijo que aliás foi a minha salvação e outro me deu vinho. O jantar foi engraçado, porém não gosto muito de me misturar, mas afinal estava fazendo parte... No final o padre pediu uma contribuição. Padre é sempre padre em qualquer lugar, com um detalhe, o daqui fuma.

11º dia – 12/05/1998

Descansei bem, tomei um bom café da manhã e saí às 8 horas. O caminho foi tranqüilo, porém teve um trecho que estava mal sinalizado e eu me perdi, bobagem, caí na estrada e cheguei em Burgos. A cidade é grande e bonita e sua catedral gótica nem se fala. O albergue é um rancho. Andei na cidade como um louco. Coloquei as coisas no correio, foram super legais, porém não sabia que sairia tão caro, 3.800 pesetas. Espero que chegue, pois as fotos do caminho estão lá. Eu queria pés novos, os meus já não agüentam mais. O horário dos bancos daqui é inacreditável, trabalham das 8:30 horas às 14:30 horas. Amanhã preciso trocar os cheques de viagem, pois só tenho 500 pesetas.

Atapuerca; Cardeñuela; Orbaneja; Villafría; Gamonal.

Burgos

Considerável cidade encravada em plena rota francesa do Caminho de Santiago e cortada pelo rio Arlanzon, exige uma detalhada visita para degustar o lado artístico que com o passar dos séculos tem acumulado em suas ruas. Sua estrutura monumental por excelência é a fantástica catedral gótica que foi iniciada em 1220 e recebeu por quatro séculos diversos detalhes construtivos, e que é hoje declarada patrimônio da humanidade. Burgos viveu seu período de fama universal a partir de 1494, com a criação do Consulado do Mar, uma instituição que combinava as funções de associações e o comércio mercantil de lã com Flandes e a Inglaterra. Esta intensa atividade econômica e social teve seu fim depois de ter permanecido durante três séculos. Agora, desde meados deste século, têm-se consolidado como um polo industrial de primeira ordem ocupando uma posição de centro industrial entre Madri e como uma rota de conexão com Portugal e o norte da Europa.

Mosteiro Las Huelgas Reales, construido no século XII, possui claustro, sala capitular, colunas sonoras e pátio exterior.
Casa del Cordón do século XV, onde os Reis Católicos receberam Cristóvão Colombo no retorno de sua viagem.

12º dia – 13/05/1998

Bom dia, 6:30 horas já no caminho. Vi corvos, marrecos voando e cegonhas, adoro ver os ninhos das cegonhas nas igrejas. Cheguei em uma pequena cidade onde tinha o banco de Burgos. Agora são 8:15 horas e um homem do banco me informou que não faz este tipo de transação, só quem faz é o banco Caja de Ahorros del Circulo Catolico. Estou aqui esperando abrir, só às 9 horas, pois outro deste só em Castrojeriz, que provavelmente chegarei lá depois que o banco já fechou. C’est la vie! Às 9 horas o banco abriu e fui informado que não se fazia este tipo de transação. Voltei ao banco de Burgos e perguntei como poderia fazer, não tenho mais dinheiro e nem cartão de crédito. Dai o mesmo homem que me atendeu às 8:15 horas da manhã, estava me trocando os cheques de viagem às 9:15 horas. Ainda tive que agradecer o favor. Bom, pé na estrada...

Villalbilla; Tardajos; Rabé de las Calzadas; Hornillos del Camino; Arroyo Sambol.

Cruzei com um senhor espanhol de bicicleta que gritou para mim - Feliz perigrinacion! E eu: Gracias! Fez um sol de escaldar e no caminho não se tinha nada, quis fumar um cigarro, porém o meu isqueiro acabou, pode? Andei mais de uma hora e parecia que estava andando num deserto, se não fosse o verde... De repente uma placa: albergue, água e comida a 500 metros... Chegando eu adorei, era uma espécie de oásis... Imaginem só, um homem cuida do albergue a 2 anos e lá não tem banheiro e nem luz elétrica... Adorei o lugar, era a própria natureza... Senti vontade de ficar ali para passar a noite porém, minha necessidade urbana de conforto não me permitiu... Descansei, comprei uma camiseta por 1.000 pesetas, bebi água, conversei um pouco, deixei para a casa mais 1.000 pesetas e segui viagem.

Hontanas – Entre Hontanas e Castrojeriz existe um Mosteiro de San Anton.

Agora estou em outra pequena cidade onde tomei uma garrafa de vinho e comi um bocadillo, pão com queijo. O homem me deu um isqueiro, disse que tinha dois e poderia repartir. Contou-me que no dia anterior passou um casal com uma criança de menos de um ano e disse também que no caminho haviam pessoas de meses até 80 anos. Aquele homem já fez o caminho 5 vezes. Na pequena cidade tirei fotos com dois alemães que eu entendia um pouco, pois um deles falava francês. Fiz o resto do caminho até Castrojeriz, bêbado, pois havia tomado uma garrafa de vinho e o homem me deu mais vinho para beber no caminho, numa garrafa de plástico. Cheguei no albergue trançando as pernas.

Castrojeriz (Castrum Sigerici) – Uma vila em meio a aridez de trechos difíceis da região, tem seu Castelo e sua Colegiata de Santa Maria del Manzano, século XII. Foi declarada conjunto histórico-artístico em 1974. Alguns autores tem desejado ver no mesmo Cezar romano, as origens de seu nome, Castrum Caesaris, outros atribuem a um nobre visigodo, Castrum Sigerici, de onde traz sua passagem por Castro-Xeris medieval, chegando a sua denominação atual.

Uma espanhola disse para o responsável do albergue que eu não tinha nada para chuva e que fazia o caminho assim mesmo, ganhei uma calça de nylon. O albergue é bom, lavei as roupas e agora são 18 horas e estou num restaurante jantando, 1.000 pesetas. Adorei o dia hoje, andei bastante e nem senti.

Fiz o caminho até agora em baixo de sol, chuva, neve, barro, subidas e descidas grandes, fiz perdido, bêbado, com raiva, cantando, pensando, enfim sozinho a maior parte e acompanhado às vezes, esta é a vida e este é o caminho... se todos os dias fossem iguais a este, estava bom! Eu não acredito na quantidade de vinho que estou consumindo... A Rosana não iria acreditar... Não vejo a hora de dormir, estou cansado e dormir aqui é uma maravilha... Daqui alguns dias já estarei em Leon e isto significa o final da etapa... Como eu sou ansioso...

Vocês imaginam as minhas condições? Bebi mais vinho agora na janta. Não sei como estou conseguindo beber tanto e andar... Hoje estou feliz, comi, bebi, andei, conversei, conheci, gostei, vivi! Agora são quase 19 horas e vou dormir com as "galinhas", até! Eu ainda não sei o que estou fazendo aqui, porém é adorável...

13º dia – 14/05/1998

"Morri" às 19:30 horas e levantei-me ao som de canto gregoriano às 6:30 horas. O senhor que é responsável pelo refúgio usa barba grande e rabo de cavalo, fez o café da manhã para todos, comi bolachas com manteiga, café com leite e uma maça. Este não cobrou nada de ninguém. Só havia uma caixinha para quem quisesse dar alguma contribuição... Parabéns!

Como choveu muito durante a noite, o barro "voltou" para o caminho... Na saída de Castrojeriz, quem fez o caminho "aproveitou-se" de uma trilha numa montanha de alpinismo, que subida era aquela? Jesus!

Calçada Romana

Província de Palencia e a Tierra de Campos

Itero de la Vega; Boadilla del Camino.

Frómista (foto) – Com descendência pré-romana é a pátria de San Telmo, patrono dos navegantes. A jóia da vila é a sua igreja romana de San Martín do século XI, o que restou de um monastério beneditino, fundado em 1066 por doña Mayor, a esposa de Sancho El Mayor de Navarra, e mãe de Fernando I de Castilla e de León.

Cheguei no albergue de Fromista às 13:30 horas e é aquela vida, limpar as botas, colocar a roupa para secar, lavar meias e cuecas que nunca ficam limpas direito, e sempre tem que se esperar ligarem a água quente para se tomar banho. Aqui tem uma igreja do século XI super bonita. O albergue daqui só tem uma ducha e ela é gelada, tomei banho de "paninho". Almocei pão, queijo e para variar vinho. Dormi a tarde, fiz a ciesta, fui ao supermercado e comprei uma lata de atum, uma lata de sardinha, uma lata de champinhon, uma lata de mexilhões, pão de forma e suco de abacaxi, esta foi minha janta. A maioria das pessoas foram para hotéis e pensões porque aqui não tem água quente. Às 18 horas chegou um ciclista de Florianópolis trazendo uma mensagem dos brasileiros que ficaram para trás. Adorei, respondi e deixei fixado na parede do refúgio.

14º dia – 15/05/1998

Dormi mal esta noite, não consegui dormir, ficava pensando que devo ter carma em realizar esta jornada. Fico extremamente cansado, não tenho fome porém, não paro de comer, vivo comendo pão pelo caminho... Geralmente não tenho sede, porém em qualquer lugar que tenha água eu bebo... Vivo me assustando com perros e fico pensando na possibilidade de aparecerem outros animais... Sonho muito, todas as noites, geralmente são sonhos bons, nos quais eu sempre estou ajudando alguém do passado... Vivo querendo que acabe logo, porém gosto quando estou andando sozinho...

Villalcazar de Sirga – Igreja S. M. La Blanca do século XIII.

Carrión de los Condes – Igreja Santiago do século XI. Mosteiro S. Zoilo do século XII, possui claustro, colunas e (chaves no teto).

Calzada de los Molinos; Cervatos de la Cueza; Quintanilla de la Cueza; Ledigos; Terradillos de los Templarios; Moratinos; San Nicolás del Real Camino.

Hoje eu adiantei bastante o caminho, passei por Carrion de Los Condes, tomei um té com leche, passei por Cervatos e agora são 14 horas, estou tomando cerveja e escrevendo... Vou para Calzadilla no refúgio, até!

Saindo do bar, passei em frente ao Ayuntamiento, um homem me chamou para eu entrar, comer, beber e descansar... Por que não? Estava tendo uma festa de agricultores na prefeitura. Enchi a cara de vinho, queijo e tortilla de batata, que aliás foi a melhor que comi... Fiquei lá conversando até às 15 horas, perguntaram-me tudo, de onde iniciei o caminho, de que país era, ficaram discutindo quantos dias faltavam para que eu chegasse à Santiago, quantos quilômetros eu estava fazendo por dia, enfim, foi adorável. Detalhe, ninguém ali havia feito o caminho a pé e o povo comeu até, e foram embora para a ciesta... Perguntei: sempre dormem depois que comem? Geralmente, a não ser que a pessoa tenha algo para fazer. Assim foi o meu almoço, estava de penetra numa festa da prefeitura, ah, ah, ah! Ainda mais numa festa ou melhor num almoço na prefeitura de Cervatos...

Calzadilla de la Cueza

Enfim, cheguei em Calzadila às 16:30 horas. O refúgio é mais do que pobre, colchões no chão e água gelada para o banho, fazer o que? Odeio tomar banho gelado, porém ontem já foi de "paninho", hoje tive que ser valente e enfrentá-lo. Adorei o dia hoje, é super engraçado ir vivendo e andando, e de repente cair numa festa ou num lugar que você nem imagina. Eu pareço um nômade ou um cigano, as coisas vão rolando a minha volta e eu vou curtindo. Quem diria? Amanhã Sahagún... Vou ver se acho algo para jantar nesta cidade que não tem no mapa. Achei, porém tomei um leite apenas, estou enjoado, acho que comi muita tortilla. Imagine, acabou a água, este lugar é tão pobre que dá dó ou melhor é hilário... Quer dizer que amanhã não se escova os dentes? Nesta turma tens uns 10 franceses, eu e um casal, aqueles austríacos que começaram comigo... Digam-me, não é carma passar por tudo isto? O que é que eu estou fazendo aqui?

15º dia – 16/05/1998

Hoje, parece que procuro uma direção, é claro que com todos os apetrechos da era moderna. Não há como se perder aqui, porém sinto-me extremamente perdido e sem direção... Busco algo ou alguém que com certeza faz parte deste carma... O que será?

Dormi mal novamente, os meus pés e os meus ombros já acostumaram, o que me incomoda agora são as pernas e os joelhos... Resolvi ir pela carretera, até que foi bom, vários caminhoneiros buzinaram e acenaram para mim. Um cachorro enorme ficou latindo bem atrás de mim, fiz que não era comigo, continuei andando devagar sem olhar para ele. Meu coração estava na boca!

Cheguei em Sahagun, neste sábado de manhã, havia uma feira, fui na prefeitura carimbar a credencial, pois o albergue daqui só abre às 16 horas. Conheci uma senhora brasileira que veio sozinha de Minas Gerais. Andamos juntos. Agora são 12:30 horas e vou almoçar para continuar a caminhada até a próxima cidade. Sahagun é interessante...

Sahagún – Província de León
O arco de San Benito em estilo barroco, localiza-se na entrada sul da Abadía de San Benito. Foi restaurado em 1662 por Fr. Gregorio Quintana e o maestro Berrojo. Igreja de San Tirso, do século XII, é a mais alta construção romana em tijolos, ao lado ficam os restos do monastério beneditino de Sahagún. Igreja de San Lorenzo, do século XIII em estilo romana, também feita em tijolos.

Como é difícil de entender porque há tantos velhos no caminho... espero que em minha velhice "deguste" de cruzeiros e hotéis cinco estrelas. Almocei ensalada mista e pescado com batatas, pão e um litro de vinho (Castillo de Gredos), uma delícia - 900 pesetas. Esses vinhos daqui eu bebo brincando, adoro estar em outro país e descobrir as coisas. De sobremesa veio um iogurte de morangos (fresas), até!

A mineira disse-me que temos que viver a lei do tempo, sermos mansos e humildes... Ela está meia deprimida, pensou até em suicídio de tantos problemas que enfrentou com o seu divórcio e com o seu trabalho. Conversamos sentados em baixo de uma árvore no meio do caminho ao som de sapos... Vim caminhando com ela até El Burgo Ranero, carreguei a sua mochila uns 3 quilômetros antes de chegarmos. Fomos ao supermercado e jantamos juntos, sopa de legumes, salada de tomates, pão com sardinha e vinho. Antes de chegarmos em outra pequena cidade, encontramos um casal francês que estavam com um trailer e ficamos conversando. Serviram-nos café e frutas secas. Hoje o dia foi ótimo! Aconteceram muitas coisas. Chegamos aqui às 19 horas, agora são 21 horas e vou dormir, estou morto e bem satisfeito. As paredes externas do albergue são feitas de barro com feno, pode? Mas é ótimo, um dos melhores que fiquei. Até!

Calzada del Coto; Calzadilla de los Hermanillos; Bercianos del Real Camino

El Burgo Rañero

16º dia – 17/05/1998

Levantei tarde e saí às 8:30 horas, os meus joelhos estão doendo muito, passei um creme relaxante que um senhor me deu. Agora são 10:30 horas e estou descansando numa área propícia no meio do nada, isto aqui parece um deserto. Estou andando devagar e estou muito triste, gostaria muito que alguém me amasse intensamente e que fosse recíproco...

Apesar deste lugar não ter nada é bastante inspirador pois aqui, além do vento brando escuta-se pássaros e grilos. O que é que eu preciso fazer mais? Eu já pedi tanto! Ainda não sei o que estou fazendo aqui! Não recomendaria à ninguém fazer este caminho, pois é muito cansativo e eu já estou ficando de saco cheio. O bom é saber que já passei da metade e agora falta pouco. Já faz algum tempo que saí da província de Valência e estou na província de León. Aqui há bancos e árvores demarcando o caminho.

Hoje, o caminho era uma reta interminável. Estou em Mansilla de Las Mulas, fica a uns 20 quilômetros antes de León. O albergue também é ótimo, almocei, tomei banho e aqui há uma máquina de lavar roupas, finalmente lavei-as. Conheci a cidade, que tem uma muralha em sua volta, dormi a tarde. Agora são 18 horas e estou fazendo juz ao meu vício, estou escrevendo e bebendo num bar. Aqui não há nada também, porém é maior. Esta cerveja é horrível de amarga. Será que é isto a vida? Um dia feliz e o outro triste...

Não consegui falar com o Marcos... Hoje está um domingo chato porém um dia bonito e com muito sol. Quase todos no albergue estão cuidando dos pés, das roupas, aliás não tem mais espaço no varal de tantas roupas penduradas, e muitos estão dormindo. A maioria das pessoas estão de férias, não é uma coisa esquisita passar por tudo isto estando de férias? Eu queria tanto ser escritor e sobreviver disto, não vou jogar mais para os amigos, só para os estranhos... Consegui falar com o Marcos, estou morrendo de saudades... Queria estar com ele agora, ele vai almoçar com a Iara...

Mansilla de las Mulas – Antiga vila amuralhada do século XII, ao lado do rio Esla, apresenta atrativos mais do que suficientes para fazer uma parada e descobri-la. A Virgem de Gracia é a patrona e protetora secular dos mansilleses.

Mansilla de Las Mulas foi na época romana uma cidade importante onde se vendiam cavalos e mulas de categoria, uns dizem que Mansilla quer dizer "mãos nas celas" e outros dizem que vêm do latim e quer dizer cidade amuralhada. É um saco os horários daqui, para jantar por exemplo, só a partir das 20 horas, tudo fecha às 14 horas e só volta a abrir às 17 horas. Agora, estou num restaurante jantando, outra garrafa de vinho. Este povo deve ser o maior fabricante de vinho do mundo ou estar entre os primeiros. Que saudades dos restaurantes de Florianópolis, nos quais vêm um absurdo de comida. Aqui come-se bem porém no Brasil come-se muito melhor. Jantei salada de alface com cebolas, atum, azeitona e tomates, depois salmon com batatas fritas e vinho com pão, e de sobremesa morangos com chantily (fresas com nata).

17º dia – 18/05/1998

Estamos, Geralda e eu, almoçando num restaurante próximo a catedral, deixamos as mochilas no albergue, conhecemos a casa que foi projetada pelo Gaudí, chegamos e caminhamos juntos até León. No caminho, compramos e comemos cerejas, uma delícia, comi quase um quilograma. A cidade é grande e bonita. No albergue que fica dentro de um colégio de freiras beneditinas, os colchões ficam no chão e deixam guardar as coisas, porém só podemos entrar às 18:30 horas, pode?

León
Uma das principais cidades cristãs da idade média, a 300 km de Santiago, foi declarada conjunto histórico-artístico em 1962. Fundada sobre o que foi o acampamento militar romano quando a Espanha foi ocupada pela VII Legião "Gémina". Situando-se ao lado do rio Bernesga, León é milenar por ter sido vítima de invasões bárbaras e muçulmanas. Depois houve o surgimento da monarquia e da nobreza a partir do século X. Suas muralhas são do século XI. A sua catedral é uma autêntica jóia espanhola do gótico clássico. Foi construída entre os séculos XIII e XIV, e refere-se ao termo latino "Pulchra". Muito conhecida pela beleza de seus notáveis vitrais, pois tem 1880 metros quadrados de vitrais de origem medievais que permitem a entrada da luz solar, e possui um pórtico central enquadrado entre duas torres de agulha, dando um equilíbrio em suas dimensões.

A Casa de los Botines é um conjunto arquitetônico singular, devido ao talento do arquiteto Gaudí, que foi construída no ano de 1892, com fachadas para quatro ruas com uma torre em cada ângulo. Na atualidade é uma tranqüila cidade de províncias, traçada na medida e comodidade de seus habitantes e visitantes, e que é perfeitamente comunicável por auto estradas que interligam cidades da Península Ibérica. Hospital de San Marcos, casa matriz dos Cavaleiros de Santiago. Real Basílica S. Isidoro do século XII. Mosteiro de S. marcos do século XV.

Entrei no colégio, tomei banho, escrevi no livro dos peregrinos uma mensagem para os brasileiros e a Geralda me chamou para jantar, porém de repente comecei a sentir enjôo, tomei um sal de frutas e nada. Passado umas duas horas, começou a piorar e então tomei outro sal de frutas. Geralda e eu tínhamos comprado melão, bananas, queijo e pão para lancharmos a noite e para o café da manhã também. Não comi nada, quando deu meia noite, fui ao banheiro e vomitei as tripas três vezes. Era tudo água suja, e depois me deu uma cólica intestinal, levantei-me umas oito vezes durante a noite para defecar água imunda. Quando foi 3 horas da manhã não parava de arrotar, então fiquei com a cabeça abaixada um bom tempo e novamente vomitei.

18º dia – 19/05/1998

Levantei mais vezes até às 7 horas para defecar. Fui pedir para ficar aqui, pois não conseguiria andar. Despedi-me da Geralda durante a manhã e a francesa responsável pelo albergue trouxe-me um copo de chá. Passou-se uma hora e uma freira trouxe-me chá com limão, tomei dois copos e fui correndo ao banheiro para vomitar tudo. Dormi até às 10 horas e fui acordado pela francesa que estava com sua mão na minha testa. Disse-me que eu estava com um pouco de febre, porém eu achava que estava com febre intestinal. Devo estar com uma infecção intestinal, só sai água! Odeio ficar doente!

Ontem, quando cheguei, eu havia visto ela aplicar Heike no joelho de um senhor, conversamos e pedi à ela para aplicar-me Heike. Começou pela cabeça, ficou um bom tempo, quando passou para a garganta tive um ataque de choro, continuou até o intestino. Disse-me que no caminho eu tinha que aprender a confiar em mim mesmo e também confiar no próximo. Ela foi um amor, tomei mais chá e dormi a tarde. Agora são 16 horas e estou bem melhor do estômago, mas ainda me dói o intestino e estou com um pouco de dor de cabeça. Estou morrendo de sede e ela me disse para só beber chá o dia todo, deixou pronto um bule. Às 16:30 a freira trouxe-me um outro bule de chá e disse-me que era muy rico pois continha sal, açúcar e limão. Bebi, até que é bom... A freira recomendou-me para ficar mais um dia aqui porque eu estava muito debilitado. Tive um acesso de choro e ela: – No te preocupes!

Chegou a turma deste dia e, imaginem só, o pessoal brasileiro! Eles não acreditavam que eu o "The Flash", estava derrubado. Todos foram muito legais... O gaúcho e o Illo, trouxeram-me uma água tônica, eu estava com tanta vontade... A Denize e a Walkiria trouxeram-me Coca-cola, pois disseram-me que prenderia o intestino. A Sarah deu-me uma maça. Ficamos conversando e foi divertido.

19º dia – 20/05/1998

O Jorge teve tendinite aguda nos dois pés e ficamos juntos, aqui no colégio no dia 20 de maio. Neste mesmo dia foi que separei-me novamente dos brasileiros, eles partiram e Jorge e eu ficamos. Logo cedo, eram 7 horas, a francesa pediu que todos ajudassem a fazer Heike em mim... Foram nove pessoas ajoelhadas em volta de meu corpo com as mãos estendidas, cada um numa região. Nunca havia passado por isto antes. Depois ficaram brincando que a minha alma já estava encomendada, que eu já estava com muita energia e, que amanhã, eu ultrapassaria a todos. Foram embora, gostaria de estar junto com eles...

Sinto-me bem melhor hoje, dormi a noite toda e não fui mais ao banheiro. Ontem estava tão mal, durante o dia, que eu queria chutar o "pau da barraca" e ir embora. Agora são 8 horas e a freira trouxe-me bolachas e iogurtes para meu café da manhã – tá ?! Agora não vejo a hora de chegar amanhã cedo para recomeçar, pode? Graças à Deus, que estou sentindo-me assim, pois é horrível ficar doente, triste, sozinho e ainda tão longe de casa. Acredito que daqui em diante, farei mais lentamente o caminho... Agora só preciso alimentar-me, pois estou fraco, porém nada me dói, finalmente...

Dormimos o restante da manhã e fiquei mais de uma hora fazendo compressas de água quente nos pés do Jorge. A freira veio às 14 horas perguntar-me se gostaria de comer algo, aliás esqueci de mencionar que ontem a noite, lá pelas 21 horas, ela trouxe-me uma panelinha de arroz branco com alho para que eu comesse, ela mesma quem fez. Comi só um pouco e o Márcio comeu todo o resto...

Estamos aqui deitados, descansando e escutando uma fita cassete de canto gregoriano que a francesa trouxe-nos. O Jorge saiu e trouxe-me um pacote de torradas. Dormimos a tarde e acordei com dores, gases. A freira apareceu novamente e disse-me que era normal agora ter gases, para que comesse pão. Perguntou-me o que eu queria, disse-lhe: – Mi madre e mi casa! Ela sorriu, acarinhou-me a cabeça e disse-me que assim que retomasse o caminho não iria mais querer voltar para ao meu país. Assim seja!

Chegou uma outra turma, alguns eu já havia visto, uma delas é uma alemã chamada Ariane. De noite, ela que é fisioterapeuta, fez massagem nos pés do Jorge. Minhas cólicas aumentaram e durante a noite toda fui ao banheiro novamente. Estava desesperado. Queria ir embora no dia seguinte, chorava e além de me doer, o intestino não me deixaria andar... Devo ir ao médico? Fico aqui mais um dia? Continuo a caminhar? Vou embora para Madri? Chamo alguém?

20º dia – 21/05/1998

Levantei-me às 6 horas do dia 21 de maio, fraco, cansado, com o corpo todo dolorido. Despedi-me da francesa e às 7 horas Jorge e eu estávamos saindo de León bem devagar. Os pés dele haviam melhorado, porém ele andava lentamente para não forçar. Passado uma hora de caminhada ainda estávamos saindo de León, sentei-me no chão e comecei a chorar, achava que teria que ficar, pois estava muito fraco. Afinal, estava com infecção intestinal de comer muitas cerejas sem lavá-las... com certeza elas continham uma quantidade de agrotóxicos considerável. E ainda disseram-me que não deveria tê-las comido quentes e muito menos ter bebido água em seguida, pois elas fermentam. Tudo isto ocorreu próximo a hora do almoço do dia 18 de maio, vomitei muitas vezes, tive diarréia, perdi muito líquido, passei o dia 19 só com chás, comi a noite maça e arroz e no dia 20 alimentei-me pouco. Não conseguia comer nem pão. É claro, só poderia estar fraco no dia 21...

Descansei um pouco, o Jorge incentivou-me e continuamos a andar. Encontramos alguns outros brasileiros que já havíamos visto anteriormente. Os pés do Jorge começaram a doer novamente e foi aquela "ladainha", andávamos um pouco e descansávamos outro pouco, não sei como conseguimos chegar em Villar de Mazarife. Encontramos com a alemã. Ela veio conosco uma boa parte do caminho e fez massagem nos pés do Jorge novamente. Ele começou a andar descalço, dizia que era melhor, que não conseguia calçar as botas.

Saímos às 7 horas e chegamos às 16 horas, andando bem menos do que nos outros dias anteriores. Eu não agüentava mais andar, estava irritado e com raiva. Até fui grosso com eles. Chegando no albergue, estávamos só, joguei-me numa cama e dormi. Depois fui acordado por uma senhora espanhola que preparou-me uma bolsa de água quente para colocar na barriga e um chá delicioso que era fatal dizia: prende todo los intestinos ! Acordei animado, dizia que não queria sair mais daqui. Ainda bem que entendo um pouco de francês, pois a alemã, além de sua língua natal, fala inglês e francês. Jorge e eu fomos ao supermercado comprar a janta. Nesta cidade que não tem nada também, o supermercado é de espantar, tem de tudo. O Jorge fez macarronada, comi a minha sem nada e tomei uma sopa. A alemã havia arrumado flores silvestres num vidro e colocou sobre a mesa. Conversamos muito, rimos, tiramos fotos e às 20:30 horas fui dormir. Agora parece que estou bem melhor, pois comi e estou sentindo-me bem.

21º dia – 22/05/1998

Acordei às 6 horas do dia 22 de maio com o Jorge me chamando. Aqui é um sobrado com 4 quartos na parte de cima, dois na parte de baixo, uma cozinha com um fogão, porém sem pia. As louças tem que ser lavadas no tanque lá fora, detalhe, ele é no chão. O banheiro é fora, não tem água quente para o banho e nem tem descarga no vaso sanitário, sempre que usá-lo é necessário utilizar-se de um balde. Simplesmente não tomei banho ontem. Dormi num quarto de cima, finalmente tive um quarto só meu. Desci, tomei café da manhã e me despedi deles às 7 horas. Eles vão para Astorga e eu vou para outra cidade que fica apenas a 12 quilômetros daqui. Não preciso ir correndo e nem agüentaria...

Agora são 10 horas, depois que eles saíram voltei a dormir, pretendo almoçar o resto do macarrão e ir embora. Estou me sentindo bem finalmente e agora, pelo menos, estou alimentado. O Jorge me disse que daqui a três dias eu passaria por todos eles novamente, não acredito...

Andei duas horas e parei numa pequena cidade para tomar um chá e ir ao banheiro. Estou bem, vim distraído e vendo corvos. Nesta região de plantações da Espanha, todos os fazendeiros concentram as suas casas em pueblos, deixando assim as suas terras totalmente aproveitáveis. Dizem que não existe coincidência, no entanto não havia reparado que comecei o caminho na mesma hora e dia em que nasci. Aposto que, para quem fez o caminho, jamais se esquecera do som emitido pelo bater dos bicos das cegonhas, é adorável...

Valverde del Camiño de la Virgen (aparece em documentações do século X)

San Miguel del Camiño; Villadangos del Páramo.

Andei por mais uma hora e cheguei em Hospital de Orbigo. Aqui tem uma ponte antiga e o albergue é confortável. Nada como tomar banho quente e fazer a barba para tirar aquela cara de doente. Ontem quando Jorge e eu estávamos quase morrendo no caminho, num momento que não vimos as setas, nos perdemos por alguns metros. Além de estarmos "ferrados", ainda estávamos perdidos, xingamos até...

Aqui estou com dois franceses, um deles me entupiu de remédios para diarréia. Nesta viagem acho que falei mais francês e português do que espanhol. Encontrei na cidade a Ariane que ficou por aqui e o Jorge continuou. Chegaram mais duas francesas no albergue que me "alugaram", perguntaram-me tudo sobre o meu país e disseram-me que no nordeste do Brasil não havia o que comer, porque as pessoas eram muito pobres. Não agüento mais falar francês, hoje só deu esta língua. Vou tentar ligar para a Rosana, agora são 20 horas e no Brasil são 15 horas. Estava morrendo de saudades dela...

Hospital de Órbigo – Ponte medieval ou Ponte do Passo Honroso.

22º dia – 23/05/1998

Às 7:30 horas, pés no caminho. O meu intestino ainda não melhorou totalmente. Tive que ir no mato no meio do caminho... Encontrei dois senhores sentados num tronco no caminho e cumprimentei-os, eles convidaram-me para sentar, aceitei e conversamos por uma hora... Diziam eles: - Há muitas selvas no Brasil... São agricultores e acho que estavam olhando ou admirando as suas terras. Foi adorável... Aliás, foi só eu reclamar ontem que não falava o espanhol, hoje foi espanhol o dia todo. O caminho passa por um monte e quando se chega no alto, se avista a cidade de Astorga.

Aqui é uma graça de cidade, tem sua linda catedral é claro, tem o palácio episcopal que foi construído pelo Gaudí que aliás é super bonito e ainda tem muralhas em toda a sua volta. Quando estava visitando a catedral havia uma excursão de crianças que logo perceberam que eu era um peregrino, aproximaram-se pouco a pouco e logo todos estavam fazendo perguntas, principalmente se eu conhecia os jogadores de futebol... Depois de algum tempo quando se despediram, uma mulher achou que eu era o responsável por eles, pois todos rodeavam-me e conversavam comigo, foi engraçado...

Astorga
São mais 26 quilômetros até esta cidade de origem pré-romana e de grande importância na época da colonização romana. Catedral de Santa Maria, começada em 1471 e terminada no século XVIII. O Ayuntamiento, situado na Plaza Mayor, suas obras iniciaram em 1683 por Francisco de la Lastra e terminaram em 1704. No remate central do edifício, os maragatos Juan Zancuda e Colasa do relojoeiro Bernardo Franco dão às horas desde 1748.
El Palácio Episcopal, foi mandado construir pelo bispo Juan Bautista Grau Vallespinós ao famoso arquiteto espanhol Gaudí, nos anos de 1889 até 1913. Foi declarada conjunto histórico-artístico em 1978.
Muralhas Romanas. Parque Aljibe, distribuição de água. Daqui em diante a paisagem muda para camponeses, ovelhas, igrejas e histórias.

Bem, hoje é dia 23 de maio e desde o dia 18 que eu não entrava num restaurante. Almocei bem porém, água e não vinho! De sobremesa veio arroz doce, eu que não gosto muito, adorei... E também desde o dia 18 que eu não bebo e nem fumo mais... Não acredito que parei de fumar novamente... Às vezes fico pensando no que é que me dá forças para continuar o caminho, acho que tenho que terminar o que comecei, este é um grande problema para mim, e também a esperança de "alguém" estar me esperando em Santiago... Afinal, as cerejas me derrubaram e só assim que estou fazendo o caminho mais lentamente, não passo dos 20 quilômetros por dia, bom é melhor assim, mesmo que demore mais dias...

Quando cheguei, havia uma brasileira chamada Dulce que é de Brasília. Estava chorando muito porque vai ter que ficar ainda dois dias por aqui, pois estava com muitas dores num pé. Ficamos conversando, contou a sua vida e contou também que no terceiro dia do caminho conheceu uma pessoa também de Brasília, foram conhecendo-se e apaixonando-se... Como ele volta antes do que ela para o Brasil, ele faz o caminho na frente, toma um ônibus para vê-la numa cidade atrás e depois volta para iniciar a caminhada de onde parou... Penso que em breve estarão juntos na "terrinha"... Disse à ela que estava morrendo de inveja da sua história de amor, só assim foi que ela se animou... Contei sobre o meu martírio intestinal e sobre a minha vontade de desistir naqueles momentos, e agora estou aqui, devagar e sempre... Lavei as roupas porque aqui há secadora, fui ao mercado para ela, pois amanhã não abre nada e ela nem pode andar. Aqui em Astorga tem um sino no qual há um casal de bonecos que anunciam a hora. Gostei muito daqui! Aliás, desde León, as pessoas são mais simpáticas e falantes. Estou na praça esperando os bonecos tocarem o sino, vai dar 20 horas e estou chupando um sorvete... Como podem ver, já melhorei!

23º dia – 24/05/1998

Levantei cedo e bem disposto, estou com a flora intestinal, racional e emocional ótimas, deixei um bilhete para a Dulce e pé na estrada.

Valdeviejas; Murias de Rechivaldo.

Conheci um jovem espanhol, andamos juntos por duas horas. Ele começou o caminho em León e já estava com as pernas e os pés todos "ferrados". Em Santa Catalina de Somoza, tomamos um leite num bar que esperamos o dono abrir, e aí despedi-me. Fui sozinho para Rabanal onde eu deveria dormir, mas passei reto, apenas tirei umas fotos e peguei o carimbo. Tem dias que agente está ótimo, o dia rende, anda-se mais, tudo dá certo... Hoje foi um dia assim, maravilhoso dia de domingo...

Rabanal del Camiño – Passa-se por pequenos pueblos que parecem ter se perdido no tempo e situa-se a 19 quilômetros de Astorga. Igreja de La Asunción.

Saindo de Rabanal chega-se a Foncebadón, a tal cidade fantasma, é uma pena aquelas casas destruídas e abandonadas, pois o lugar é lindo, tirando os postes de eletricidade. Adorei ver os animais soltos pela cidade. Passei entre ovelhas, cabras, cachorros, vacas e os bichos só me olhando... Apesar do medo das vacas que senti, adorei. Fiquei procurando a cruz de ferro, achei que fosse por ali mesmo, porém primeiro passei por um campo de flores e depois cheguei à cruz, o lugar é muito interessante. Estava carregando três pedras, que trouxe do Brasil, em minha mochila para atirar na base da cruz... Missão cumprida! Fiz umas "magias" e joguei as pedras...

Foncebadón – Monte Irago
Antigo refúgio de ermitões esta aldeia tornou-se uma vila fantasma por causa de seu isolamento. Com casas vazias, o clima sinistro de Foncebadón explicita a mitologia das bruxas, fadas e druidas da cultura dos celtas, povo que iniciou a colonização desta região. Aqui vive uma arredia e misteriosa senhora na companhia de um filho e de alguns animais. Há uma cruz de ferro, 1.504m., no alto de uma colina, para orientar os peregrinos nos dias de neve, e do lado a Ermida de Santiago.

Continuando, chega-se a Manjarím, local onde começaram a tocar um sino assim que me avistaram no caminho... Bárbaro! O local é muito simples, haviam três homens, gansos, galinhas, cachorros e as placas indicando as distâncias de algumas cidades religiosas. Eram 14:30 horas e perguntaram-me se eu iria ficar para almoçar, respondi que sim. Fizeram uma salada mista e uma espécie de ensopado com arroz, batata, alho, cebola e frango. Comi tudo com pão e um pouquinho de vinho. É inexplicável passar por este lugar...

Manjarín
Um integrante da enigmática Ordem dos Templários, Tomáz Martinez de Paz, 55 anos, natural de Astorga e morador de Madri, tentou com um grupo de amigos, fazer o caminho em 1986. Em Ponferrada, porém desistiu. Passou oito noites dormindo na porta do Castelo dos Templários até o dia em que ouviu sinos e cantos gregorianos vindos de algum lugar indecifrável. Tomáz entendeu os sons como se fossem um sinal para que ele ficasse alí. Hoje, em Manjarín, ele recebe os peregrinos com a mesma música e tem a missão de cuidar do refúgio de Manjarín. Uma curiosidade, na frente do refúgio, existe uma placa que indica a distância de alguns lugares sagrados relativos ao caminho, como Jerusalém, Roma e o Cabo Finisterre.

Todo este percurso de hoje foi subindo uma montanha, numa região muito bonita. Quando começa-se a descer esta montanha, anda-se por uma hora aproximadamente e chega-se em Acebo de San Miguel, onde resolvi passar a noite. Avista-se esta pequena cidade do alto ainda, é uma graça... O albergue é novo, já me instalei e estou no restaurante – La Taberna de Jose.

Daqui liguei para o Marcos, agora são 19 horas. Estou abusando, tomando vinho e esperando a hora para cenar e depois descansar. Em Manjarín, dois dos homens fumavam e pediram-me cigarros, desde que parei de fumar em León, guardava dois maços para dar à quem me pedisse... Chegou a hora, eles disseram-me que era o dia de sorte deles. Enfim, foram-se os cigarros.

24º dia – 25/05/1998

Dormi muito bem, levantei cedo e adorei o caminho. Sair de Acebo e chegar em Molina Seca é o final do Vale do Silêncio, as descidas são bem íngremes e hajam joelhos para agüentar. Saindo de Molina Seca haviam várias cerejeiras carregadas, eu que achei que nunca mais comeria cerejas, bobagem, ataquei as árvores, foi irresistível... Comi só um pouco, umas 30 "cerejinhas", são tão bonitas e deliciosas que elas que deveriam ser a fruta do pecado...

El Bierzo; El Acebo; Compludo (Ferraria Medieval); Riego de Ambrós.

Molinaseca – Vista das montanhas que "escondem" a região da Galícia neste caminho que tem 23 quilômetros.

Santo Tomás de las Ollas

Chegado em Ponferrada (foto), resolvi ficar aqui. O castelo dos Templários está fechado para reforma e na cidade não há albergue. Achei um hotel barato por indicação da informação turística e fiz a festa nesta cidade. Troquei dinheiro, conheci tudo, andei a cidade inteira até chegar na ponte de ferro, fui ao supermercado e comprei para o almoço uma tábua de queijos, dormi a siesta, chupei sorvetes, liguei para mi madre e para o Marcos e arrumei a mochila. Agora são 20 horas e estou comendo uma pizza "pescadores", vem camarões e mexilhões. Porém, nada melhor que as pizzas do Brasil...

Ponferrada (Pons Ferrata)
Sobre a confluência dos rios Sil e Boeza, houve um assentamento primitivo, duma cidade romana. Foi destruída no ano de 456 por Teodorico. Porém o eixo fundamental que marca o nascimento e posteriormente a evolução de Ponferrada, foi o descobrimento, no século IX, da tumba do apóstolo em Compostela e a rápida expansão do Caminho Jacobeu. No final do século XI, Osmundo, bispo de Astorga, ordena a construção de uma ponte que facilite a passagem dos peregrinos. Para reforçá-la, utilizou-se ferro em sua construção, e foi isto que determinou o nome do povoado que cresceu em seu redor. Durante o século XII, Ponferrada inicia uma importante evolução em todos os aspectos. No urbanístico, a cidade se estende ao outro lado do rio Sil, ultrapassando o recinto amuralhado. No social e econômico aparece uma burguesia que impulsiona o comércio, a pequena indústria artesanal e a atividade rural. Tudo isto ocorre em paralelo da presença dos templários na cidade., que marcará profundamente a sua vida e a sua história.

A Ordem dos Templários, criada em Jerusalém no ano de 1119, por um grupo militar e religioso, com o objetivo de proteger os peregrinos cristãos, encontraram uma pequena fortaleza em Ponferrada. Eles ampliaram e melhoraram a cidadela romana até 1282, quando se transformou num magnífico castelo que protegia os peregrinos ao mesmo tempo que servia de base da Ordem e de palácio para os monges guerreiros da região. Este castelo têm 12 torres, que lembram os 12 apóstolos, os 12 signos do zodíaco ou ainda os 12 guardiães da Arca. Os Templários, são representados por bravos guerreiros e os lendários cavaleiros de Cristo, consagrados na época das Cruzadas. Foram renegados pelo papa em 1312 e assim deu-se a dissolução da Ordem no local, e desde então vivem numa fronteira entre o anonimato e a fantasia. O castelo troca de dono pertencendo sucessivamente, e entre outros, a coroa de León, aos senhores de Lemos e Sarria, a família dos Castros, em 1486 passa a pertencer aos reis católicos, e depois, Marqués de Villafranca, acaba comprando-o em 1558. Trocou de escudo e brasões várias vezes, porém, sem dúvida, o dos templários foi o mais profundo e o que mais se fixou na consciência popular. Em 9 de fevereiro de 1924, o castelo é declarado monumento histórico-artístico. Hoje, esta rica amostra da arquitetura militar surpreende por seu tamanho, mais de 8.000 metros quadrados de superfície, com acesso, pelo lado sul através duma charmosa ponte ladeada por duas torres. Na parte esquerda da praça das armas se ergue uma altiva Torre del Homenaje, onde se conserva um salmo em latim que diz: "Se o Senhor não protege a cidade, em vão vigia quem a guarda". É a filosofia do templo, cuja memória sobrevive nas pedras do castelo.

A torre do relógio se encontra sobre uma das portas da antiga muralha medieval, datada do reinado de Carlos I, cujo escudo de armas está desenhada no arco que dá passagem à rua mais típica de Ponferrada: Calle El Reloj – uma rua estreita na qual o pedestre passa por baixo de um relógio. Igreja N. S. Encina, do século XVII.

Las Medulas
Perto de Ponferrada e fora do Caminho de Santiago, existe um lugar conhecido como Las Medulas, trata-se de uma antiga mina de ouro descoberta e explorada pelos romanos nos séculos I e II, que cavaram dezenas de galerias e poços, o que erodiu profundamente a terra. O ouro acabou e o que restou foi uma estranha paisagem bonita, porém artificial.

Hoje, entre tudo, gastei uns 50 reais. Aqui eu também moraria. Vou aproveitar o quarto, a cama maravilhosa e vou dormir até tarde amanhã. Comprei nêsperas gigantes, creio que não aprendi, ainda tenho o pecado da gula, mesmo depois de tudo que eu passei. Demais foi ter comido cerejas pelo caminho novamente sem lavá-las, eu sou abusado mesmo! Porém, juro que ninguém resistiria em vê-las no pé, à mão de quem passasse por ali. Assisti pela televisão em meu quarto, uma tourada na Praça dos Touros em Madri. Não gosto, morro de dó e de aflição, porém aqui é tão tradicional que é quase impossível ser contra...

25º dia – 26/05/1998

Dormi até, tomei café da manhã e saí às 9 horas.

Na estrada haviam casas bonitas e várias árvores lotadas de cerejas. Neste mês de maio, não há uma só casa na Espanha que não tenha uma roseira florida em sua fachada. Vi também muitas videiras até chegar em Villafranca, onde almocei, carimbei a credencial, vi a igreja que têm a porta do perdão e segui viagem. Hoje estou bem disposto. Parei num bar no caminho para tomar um leite e havia um casal de idade que ficaram conversando e perguntaram-me se era a primeira vez que eu fazia o caminho, respondi que era a primeira e a última vez! Riram e disseram-me que era difícil mesmo. Comi ensalada mista, peixe frito com batatas e sorvetes. Almocei super bem, aqui vem muita comida no prato. Cheguei às 19 horas em Vega de Valcarce, fui ao supermercado e depois descansei. Estou triste e muito cansado, agora são 23 horas e vou ligar para o Marcos. Gostaria tanto que acabasse logo...

Compostilla; Columbrianos; Fuentes Nuevas; Camponaraya; Cacabelos; Pieros.

Villafranca del Bierzo – Cidade medieval fundada no século XI, foi declarada conjunto histórico-artístico em 1965. Ermida de Santiago e sua porta do perdão, do século XII.

Castro Sarracin; Pereje; Tradabelo; Portela; Ambasmestas; Ambascasas.

Vega de Valcarce (Castelo de Sarracín)

26º dia – 27/05/1998

Dormi mal e às 6 horas pé no caminho... A região é muito bonita, passasse por montanhas, vales, pueblos, até se chegar em Ocebreiro. Uns 4 quilômetros antes de chegar, o tempo mudou e começou a chover, detesto andar na chuva. Aqui é uma graça e não é para menos que o Paulo Coelho gostou daqui. Estou acolhido num restaurante ao lado de uma lareira. Minhas roupas secaram com o calor dela. Agora são 15 horas, estou esperando o refúgio abrir, porque eu não saio daqui enquanto estiver chovendo. Cheguei às 10:30 horas, bebi, conversei, almocei... Pelo visto não vai parar cedo de chover, está um tempo horrível, sempre piorando e a maior neblina. Esfriou muito desde que eu cheguei. Se vocês vissem o tempo lá fora é de não acreditar, isto porque às 8 horas estava sol no caminho, porém nublado e assim tardo mais um dia. Parece que quando eu quero que termine logo acontece algo para atrasar... C'est la vie!

Fazem 5 horas que estou aqui... Pedi uma garrafa de vinho e comprei um maço de cigarros... Eu queria tanto estar em casa agora... Por que será que para mim está sendo tão difícil? Aqui há belgas, franceses e alemães, parece que todos se divertem e "curtem" o frio e a lareira... Eu estou sentado o mais próximo possível dela, porém não gostaria de estar aqui. Há uma cabeça de javali e outra de cervo na parede como adornos. Estou me sentindo muito só, eu não entendo porque passo por isto. Estava casado e me sentia só, estou sozinho agora e me sinto abandonado... O que será que tenho que aprender? Agora são 20 horas, estou tomando sopa, passei o dia, este dia de chuva, dentro deste bar... Espero que amanhã não chova. Fui ao santuário de Ocebreiro e a igreja foi minha por uns 15 minutos, tive uma crise de choro...

Ruitelán; Herrerías (Villaus); La Faba; Laguna de Castilla.

Comunidade autônoma de Galizia – Província de Lugo

El Cebreiro
Uma vila com casas típicas de pedras e cobertas de feno, "pallozas", separa-se de Villafranca por 24 quilômetros. Encontra-se numa subida e é um dos lugares mais bonitos, foi declarada conjunto histórico-artístico em 1971. Na igreja local, um templo pré-romano datado dos séculos IX e XII, a Igreja S. M. La Real, onde se conserva um cálice do século XII conhecido como o "Santo Graal Galego", herança de um milagre. Num dia de nevasca, um camponês teria ido sozinho à igreja, mas foi repreendido pelo padre, que não quis rezar a missa na igreja vazia. Então diante dos dois homens, o vinho que seria usado na missa transformou-se em sangue, que foi depositado no cálice.

27º dia – 28/05/1998

Dormi muito bem das 21 horas às 7 horas, saí numa neblina que não dava para ver nada, porém não estava chovendo. Cheguei em Triacastela ao meio dia de baixo de uma chuva do "cão", comi algo num bar e segui para Sarria. Neste caminho subia-se e descia-se uma montanha de mata fechada, muito bonita. Perguntei em dois pueblos que passei se havia um bar, disseram-me que não, então fui mais direto e perguntei onde eu poderia ir ao banheiro pois estava necessitado, disseram-me que não havia banheiros por ali, então o negócio foi no mato mesmo... fazer o que? Cruzei com um casal de belgas que me deram bolachas.

Liñares do Rei; Hospital de Condessa.

Samos – Mosteiro do século VI, com Claustro de Feijoo, Claustro das Nereidas e Claustro de Chaves "Que miras bobo?" Basílica.

Triacastela (caminha-se 21 quilômetros por entre pueblos que remontam o século XVI)

San Miguel; Barbadelo.

Sarría (separa-se de Triacastela por 17 quilômetros)

O albergue daqui de Sarria é o melhor que fiquei, o chuveiro é uma ducha com uma água bem quente, um verdadeiro hotel. Aqui o banheiro é misto e a porta do box é de vidro. Fui ao supermercado, fiz uma sopa e lanches. Estou cansado, porém bem, hoje o dia rendeu também. Aqui esta lotado de ciclistas, aliás deveria ter feito o caminho de bicicleta, são apenas 15 dias e já teria terminado. Voltei a fumar, pois eu gosto e me distrai, faz o tempo passar mais rápido... Até!

28º dia – 29/05/1998

Às 6 horas pé no caminho... O caminho aqui na Galícia, em alguns trechos, não é bem sinalizado e tudo cheira a vaca, porém por ser mais natural e rural as paisagens são mais bonitas. O caminho de Sarria tem uma subida que é um absurdo e por vezes o caminho passa por um córrego ou será o córrego que passa pelo caminho?

Vilei; Rente; Pena; Rozas.

Portomarín – Vilas semi-abandonadas no caminho de 21 quilômetros, foi declarada conjunto histórico-artístico em 1946. – Rio Minho. Ponte. Igreja de S. Nicolas do século XII. Igreja de S. Pedro. Parque.

Na chegada a Portomarim, atravessa-se uma ponte sobre um rio enorme, a igreja é diferente e a cidade muito bem conservada. Meu pé esquerdo está tão dolorido, porém vai ter que agüentar mais porque só faltam 100 quilômetros até Santiago. Será que o Marcos estará me esperando em Santiago? Fazem dois dias que o barro "voltou" para o caminho, queria tanto lavar esta bota, ela está tão nojenta! Começou a garoar novamente...

Passei por uma vila que não tinha nada e vi um carro escolar apanhando crianças, no mesmo lugar, bem próximo, um homem cumprimentou-me e passou no sentido contrário, conduzindo umas 10 vacas... Aqui neste bar foi onde eu comi o melhor bocadillo de queso, o pão era uma baguete individual e fresco. Às vezes, como agora, dá uma vontade de chamar um táxi e acabar logo com isto. Estabelecimentos por estas terras são tão diferentes... Ou nós, brasileiros, que somos muito mercenários ou eles, espanhóis, é que não sabem ganhar dinheiro.

Sala de la Reina (Ventas de Narón); Ribadiso.

Palas de Rei ou Palas del Rey (Localiza-se a 22 quilômetros de Portomarín)

É verdadeiramente extressante caminhar de Portomarím até Palas de Rei, pois o caminho é interminável. Sai de baixo de chuva ao meio dia e cheguei às 17:30 sem parar de tomar chuva, fiquei encharcado. O tempo está tão feio que com certeza amanhã estará chovendo, a solução foi comprar uma capa de chuva. Esta cidade não é bonita, porém tem tudo. Agora são 20 horas e estou num restaurante, caldo galego, merluza, batatas, vinho e pão. Encontrei novamente com a mineira, Geralda.

Andei uns quinze quilômetros com um senhor do signo de Áries, que mora em San Sebastian; é a sexta vez que ele faz o caminho. Ele é louco ou não tem algo melhor para fazer, na minha opinião. Como é bom beber vinho e comer! O espanhol faz em média 50 quilômetros por dia, só poderia ser ariano mesmo... Neste albergue existe um grupo de peregrinos alemães e entre eles há um casal que trouxe um bebê de 2 meses, pode? No meio da chuva parei num pueblo e liguei para o Marcos... Gostaria de estar lá com ele, até!

Em vários mercados existe uma torta de Santiago, porém é grande e nunca comprei uma. Neste jantar veio como sobremesa, uma delícia. É uma massa com açúcar de confeiteiro em cima, muito simples e deliciosa.

29º dia – 30/05/1998

Geralda e eu saímos às 7:30 horas juntos, passamos por Furelos, Melide, Castañeda e ela ficou num pueblo antes de Arzua. Choveu, fez sol, a capa protege da chuva porém ela esquenta tanto que a gente sua muito. Xingamos, reclamamos, rimos, conversamos e ela estava com dor nos dedos do pé e eu nos ombros. Cada dia dói alguma coisa, é impressionante. Ontem eu estava com dor nos pés, hoje nem os sinto, o que dói são os ombros, que só doeram no início.

Leboreiro; Boente; Vilanova.

Arzúa (de Palas de Rei até Arzúa tem 25 km e é o dia em que deixamos a província da Galícia para entrar na de La Coruña)

Passei por Arzua e agora estou num bar em Ferreiros. Faltam apenas 30 quilômetros para Santiago, nem acredito! Agora são 18:30 horas e vou andar até a próxima cidade que fica a uns 8 quilômetros, segundo a informação do homem deste bar, até!

Agora são 21 horas e estou num bar em Santa Irene, é um pueblo com uma igreja, um restaurante, um albergue, umas 10 casas e este bar. Fica na estrada que vai para Santiago e fora do caminho. Está chovendo muito. No albergue há mais 3 espanhóis. Tomei um banho bem quente. Amanhã, domingo, dia 31 de maio, chegarei à Santiago, pois daqui faltam apenas 22 quilômetros. Acredito que jamais faria este caminho novamente nem se fosse de coche ! Eu que sempre gostei de viajar e nunca queria voltar para casa, agora não vejo a hora que isto aconteça. Por que será que fiz tudo isto? Tive que aprender a paciência, pois um mês passando por tudo isto... Não entendo o que faz as pessoas fazerem o caminho mais de uma vez... Hoje mais uma vez fiquei vendo as gotas de chuva caírem pela aba do meu boné... Até!

30º dia – 31/05/1998

Agora são 6:30 horas, dormi muito mal, acordei muito durante à noite, creio que seja por ansiedade... Estou na cozinha do albergue esperando o dia clarear e como choveu muito durante à noite, o caminho deve estar cheio de barro, então resolvi caminhar pela estrada, passei pela entrada do aeroporto e estou tomando café num hotel perto de Santiago. O tempo melhorou muito e agora está sol. Graças à Deus que está acabando... Passa-se por um último pueblo chamado São Marcos, depois o Monte do Gozo e finalmente Santiago.

Santiago de Compostela fica a 10 quilômetros de Lavacolla e foi declarada conjunto histórico-artístico em 1940. Na Plaza del Obradoiro, uma verdadeira clareira entre as ruelas do centro histórico, onde se concentram as 3 principais construções antigas da cidade. A catedral romana de Santiago com uma imponente fachada barroca do século XVIII, onde destaca-se e se levanta o conjunto escultural do Pórtico ou Portal da Glória 1896, considerado como o monumento mais notável da arte cristã do século XII, obra do mestre Mateus. O Pórtico está formado por três arcos, o central, o mais majestoso, é presidido por uma figura de Cristo rodeado pelos quatro evangelistas. Há também a Porta de Azabacheria, Porta das Platerias e a Porta do Perdão.

O Palácio do Ayuntamiento e o antigo Hostal de Los Reyes Católicos, século XVI. A missa dos peregrinos acontece ao meio-dia com um espetáculo no final do botafumeiro. Seminário Menor de Belvis.

A entrada da cidade é feia, nada de especial, porém quando se chega na parte histórica, onde fica a catedral é muito bonita. No altar da catedral onde está a tumba do apóstolo, os aparatos e afrescos são impressionantes, existe um busto dele cheio de pedrarias que a gente passa por trás e pode tocá-lo... Eu abracei-o por trás e chorei até...

Depois numa das entradas onde existe uma estátua dele, o Portal, coloca-se a mão num pilar, onde está gasto e tem a forma dos dedos das pessoas. Atrás deste pilar bate-se a cabeça três vezes pedindo sabedoria ao Santo. Numa outra porta que permanece sempre fechada e só abre em ano santo, existem 24 sábios, estátuas de expressão marcante, muito bonito.

Bom, cheguei em Santiago exatamente na hora da missa dos peregrinos, 12 horas. Avistei a "turma do barulho" e fiquei próximo. Na hora da oração dos fiéis, foi bem emocionante, um peregrino representante de cada país, leu em sua língua uma prece e o padre traduziu. Depois, no final da missa, teve um show com aquele incensário gigantesco. Ele é suspenso por uma corda e defuma a igreja toda numa velocidade impressionante... Quando me avistaram fizeram uma festa para mim e diziam que só estava faltando eu para completar a turma... Adorei o povo... Enfim, tiramos fotos na frente da igreja e foi uma festa.

Teve sol na chegada e depois só chuva, dizem que nesta cidade chove muito. Jantamos num restaurante chamado Manolo. Acabei a minha jornada no dia 31 de maio...

31º dia – 01/06/1998

Hoje dia primeiro de junho, coloquei os postais no correio e estou no McDonald's, o único da cidade que fica no centro comercial. Está chovendo muito... Comi una ensalada de salmon y gambas, una patatas fritas, un McPollo, un filete de pescado, una cerveza grande, un zumo de naranja e un pastel de manzana. Estou com saudades da comida do Brasil. Comprei 3 girafas.

Conheci a cidade toda, Walkíria, Wagner e eu, e depois à noite fomos num bar.

32º dia – 02/06/1998

Dormi bem, acordei às 8 horas e saímos todos, fomos a catedral novamente, vimos o espetáculo do incensário, almoçamos no Manolo, nos despedimos do Paulo e do Jorge, alugamos um Citroen e fomos para Padrón, Wagner, Walkíria, Marcelo, Márcio e eu.

Ontem foram embora a Sarah e a Denize e outras pessoas. Conhecemos a pedra onde foi amarrado a embarcação que trouxe o corpo de Santiago para à Espanha, depois de procurar na cidade a casa do homem que toca o sino da igreja.

Padrón (Iria Flavia) é uma vila ao sul da província de Coruña, onde se encontram os rios Sar e Ulla. No século I de nossa era, Iria Flavia, constituía um importante centro urbano, pois os romanos interessavam-se por este privilegiado cruzamento de caminhos próximos ao mar onde criam o Foro Iriense.

No século VI, conhecemos o nome de seu primeiro bispo, Andrés. Em baixo do altar maior da igreja de Santiago (1133), se conserva uma pedra de granito, "El Pedrón". Conta a lenda que esta pedra serviu para atracar o barco que conduziu o corpo do apóstolo Santiago até a Galícia...

O Espolón é uma enorme alameda presidida pela escultura de Rosália de Castro. Este grande espaço é a "alma-mãe" da vila, onde há paz e o sossego durante a semana e uma feira sem par a cada domingo, reúne muitas pessoas que vendem, compram, olham, passeiam, numa magnífica oportunidade para participar dum espetáculo de cores, olores, sons e sabores.

O Jardim Botânico é desde 1946 monumento artístico nacional. Cruzando-se a ponte de Santiago, encontraremos a fonte del Carmen, uma charmosa construção, reconstruída no final do século XVIII, e o Convento del Carmen, brilhante amostra do neoclássico galego e com um excepcional mirante da cidade.

Santiaguiño do Monte (foto), local de pregação do apóstolo Tiago, onde encontra-se uma ermita que cujo interior, destaca-se uma imagem do santo.

Fomos para Finisterre pela estrada do litoral, que aliás lembra Mônaco. Lá no farol de Finisterre fizemos uma fogueira para queimar as roupas, foi bárbaro! Lanchamos e vimos o sol se por em nuvens que haviam só no horizonte, adorei ou melhor adoramos!

Cabo Finisterre
No passado, muitos homens acreditavam que ali era um limite geográfico, sendo assim o fim do mundo. E a mais remota terra conhecida era o último cabo de navegação da Europa Ocidental, o Finisterre (Finis Terrae, em latim), uma ponta de pedra que avança sobre o Atlântico. Fica a 73 quilômetros de Santiago. Alí existem um antigo farol e um mirante, onde os peregrinos medievais do passado realizavam rituais estranhos. Também fora utilizado para cerimônias de druídas, os magos do povo celta, oriundos da Grã-Bretanha e primeiros colonizadores da Galícia. Este é um dos marcos de referência do litoral da Galícia e é aqui que se realiza o ritual da queima duma peça de roupa ao pôr do sol.

33º dia – 03/06/1998

Dormimos num hostal à meia-noite e acordamos às 6 horas para irmos a Pontevedra. Conhecemos a catedral e a capela da Aparição. Às 11 horas despedi-me dos novos amigos brasileiros e assim voltei a ficar sozinho depois de pouco mais de um mês...

A minha viagem continuou... pouco mais tarde fui conhecer Barcelona e depois de uma semana, voltei para o Brasil...

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Última atualização: 26/01/2009.
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