“A girafa é o animal mais alto
da Terra. Sua altura está ligada às nuvens, que está ligada aos céus, que está ligado ao divino, à espiritualidade...” Sérgio Eduardo Sakall (colecionador, filatelista e fotógrafo) |
Colecionar girafas é aprender, é ensinar, é agregar, é zelar, é relacionar quase tudo com todas as coisas, é sobretudo “viajar”! Dentro de minha coleção de objetos sobre girafas, tenho várias coleções. Uma delas – minha paixão – é uma coleção de selos postais sobre girafas. Falar sobre o 1º selo do mundo emitido com a imagem de uma girafa, por exemplo, remete-nos à história mundial... À época de nossa própria colonização, pois esse selo é uma emissão de Niassa (hoje, República de Moçambique), datado de 1901. Ex-colônia de Portugal (assim como nós) localizava-se no extremo sudeste da África, fronteira com Niassalândia (atual Malauí) e ao norte com Tanganica (atual Tanzânia). E por falar do Continente Africano, também falo sobre a Argélia, de suas emissões filatélicas, das girafas rupestres da região do Deserto do Saara, falo de sua arquitetura, sua Mesquita e o Zoológico de Argel – ambos projetos do arquiteto Oscar Niemeyer – o que me faz voltar (dessa “viagem”) ao Brasil, ao Rio de Janeiro, a São Paulo, ao Museu de Curitiba, particularmente à Brasília... Enfim, falar sobre Niemeyer, sobre a África, a Argélia, o Brasil, Brasília, sobre as girafas do Zoológico de Brasília, tudo isso, é falar da minha coleção temática sobre girafas! SEMPRE APRENDI COM AS GIRAFAS! A ideia da coleção é mostrar as histórias e lendas do Mundo, desde as teorias criacionistas até os protegidos Parques e Reservas Nacionais do Continente Africano. O ponto de partida é a Bíblia, cujo Antigo Testamento relata a criação do mundo na visão judaico-cristã. Por séculos os homens acreditaram piamente na versão bíblica para a criação do mundo, até que foram retratadas teorias sobre a evolução das espécies e a Ciência comprovou a existência dos dinossauros e outros animais pré-históricos, até então desconhecidos... Poderia chamar a coleção de “Contos Curtos” – uma espécie de Antologia Girafídea desde a criação do animal até a emissão do primeiro selo postal brasileiro que mostra através de uma fotografia (de minha autoria) o animal que mais amo: GIRAFA.
Assim, estaria a girafa colocada entre os ruminantes de unhas fendidas, cuja carne era pura e, portanto podia, como a dos bois, carneiros, cabritos e veados, ser comida sem cometer um ato impuro segundo as Leis de Moisés...
– Como a girafa é chamada por outros povos, na história da escrita, é um estudo muito interessante dos inúmeros idiomas falados em nosso planeta! – Antigas culturas na África veneravam a girafa, assim como algumas culturas modernas, e representavam-na frequentemente em pinturas nas rochas e cavernas pré-históricas... – A região da Mesopotâmia, em tempos passados, aproximadamente 3.000 anos, era uma região fértil, com diversos tipos de animais inclusive leões e girafas, entretanto, hoje, é um imenso deserto. As paisagens mudam muito, mesmo quando o homem não as modifica... – Encontrei em “Linguística”, por exemplo, que o verbo “prever” escreve-se com o desenho de uma girafa... Como será que se grafa a palavra girafa em hieróglifo? – Assim como fósseis de sivatério-asiático que ocorrem na Ásia, existem evidências de esculturas feitas pelos Sumérios que datam de 5 mil anos atrás muito semelhantes a este animal, o que demonstra que o sivatério foi um dos últimos parentes da girafa a desaparecer... – Mais importante ainda do que tudo isso é descobrir que as girafas estão representadas em diferentes expressões artísticas, nos maiores e melhores museus do mundo! A girafa e o homem: uma história longa, longa... – La giraffa e l’uomo: una storia lunga lunga... – Giraffes and humans: a long long story... – A primeira notícia que se tem conhecimento é do tempo dos antigos egípcios, quando eu fui apresentada a Rainha Hatshepsut, em Alexandria... – Le prime notizie che mi riguardano risalgono a tantissimo tempo fa quando fui portata ad Alessandria d’Egitto dalla faraona Hatshepsut. – I first came to notice in ancient Egyptian times, when I was presented to the Queen Hatshepsut in Alexandria. – Aliás, na história dos zoológicos, a primeira coleção de animais data de 1490 antes de Cristo, ordenada pela rainha egípcia Hatshepsut (a única mulher que governou o Egito). Deir El-Bahri é, atualmente, o imponente monumento construído na montanha para abrigar os restos dessa rainha. – Aristóteles (384-322 antes de Cristo), instituiu o que podemos chamar de zoológico experimental, privativo de sua observação (parece que ele não conheceu a girafa)... Em sua obra História dos Animais – principal estudo de Zoologia da Antiguidade – legou aos sucessores princípios fundamentais de classificação... A classificação Aristotélica dividiu os animais em duas categorias: superiores – animais com sangue, e inferiores – animais sem sangue, o grau de perfeição de cada animal está ligado à quantidade de calor que ele possui. Também caracterizou os animais em duas categorias sistemáticas: genos (corresponde a todas as combinações de um grau superior) e eidos (diz respeito à forma individual do animal: cão, cavalo, girafa etc.). De seus escritos outros esboçaram duas classificações: vertebrados (com sangue vermelho) e invertebrados (sem sangue vermelho). – Alexandre, o Grande, Rei da Macedônia (356-323 antes de Cristo) e aluno de Aristóteles, teve uma coleção de animais exposta perto do porto de Alexandria. Provavelmente, sua coleção deu origem ao primeiro zoológico público... – Chamo de “girafas helenísticas” aquelas que integraram o período que compreende desde a morte de Alexandre Magno até a conquista do Egito por Roma, no qual a cultura helênica conheceu grande expansão e florescimento a leste do Mediterrâneo e no Oriente Médio... Poderiam ser “magnas girafas” dos períodos: helenístico, romano e bizantino (análogas a fatos que ocorreram entre 395 a 1453, ou Idade Média), com Carlos Magno (Rei dos francos), Alexandre Magno (o Grande), Julio César (de Cleópatra), Plínio (com “Naturalis Historia”), Alberto Magno e Tomás de Aquino, Marco Polo, São Francisco de Assis, entre outros... Os gregos foram específicos em nomear as girafas “camelopard” – o que literalmente descreve um corpo de camelo coberto com pele de leopardo, contribuindo assim, posteriormente, com o seu nome científico: Kamhlopardali (Diodorus, 20 a.C.). Hoje, a girafa é chamada pelos gregos de Kamlopardali.
– Em 46 antes de Cristo fui levada para Roma como um presente de Cleópatra a Júlio César. Naquela época eu valia 300 escravos! – Nel 46 a. C. fui per la prima volta a Roma, dono de Cleopatra a Cesare. In quell’epoca valevo ben 360 schiavi! – In 46 B.C. I was taken to Rome as a gift from Cleopatra to Julius Caesar. In that time I was worth 360 slaves! Naquele ano, quando a primeira girafa chegou em Roma (Itália), ela foi descrita: “tão grande como um camelo e com manchas como um leopardo” – um corpo de camelo coberto com pele de leopardo. Por esses motivos, CAMELO-LEOPARDO (camelopardo) foi o nome que os romanos deram à girafa. Posteriormente, passaram a chamar a girafa de “Girnaffa” (por causa do árabe Zirapha, que origina de Zurafa). Hoje, os italianos a chamam de Giraffa. Cesare, dieci anni dopo, dedicando il suo Foro e il tempio di Venere Genitrice, volle superare il suo emulo nella grandiosità delle cacce offerte al popolo e – come afferma Svetonio – mostrava allora un animale che destava l’universale meraviglia: un cameleopardalis, cioè la giraffa, chiamata così dalle caratteristiche del suo pelame. – ... e para saber o quanto eu era forte, fui colocada com outros animais ferozes... Que medo! – ... e per stabilire la mia indole mi facevano combattere con gli animali più feroci... Che paura! – ... and to see what strength I had, I was made fight with other fierce animals... How frightening! – Gaius Plinius Secundus (23, Como – 79, Estabia), mais conhecido como Plínio (o Velho), oficial militar do Império Romano, historiador e naturalista, voltou-se para o conhecimento do mundo e da natureza. “Naturalis Historia” (História Natural) escrita no ano de 77 (parece), em 37 volumes, é o mais completo tratado zoológico e botânico conhecido do velho mundo. Essa obra é o melhor meio de se conhecer sobre a zoologia e a botânica do mundo antigo. Um homem de intensa curiosidade, parece que ele conta sobre a primeira girafa de Roma, dada por Cleópatra... Ele morreu depois de aventurar-se muito próximo ao vulcão do Monte Vesúvio... A edição de Martin Lechler (Frankfurt, 1582), com desenhos de Jost Amman e Hans Weidlitz, é uma das poucas versões ilustradas dentre as 15 edições publicadas entre 1469 a 1800, as quais estão guardadas na Smithsonian Libraries Exhibition (www.sil.si.edu). Nota: O incunábulo, publicado em 1481 – a obra mais antiga do acervo da Biblioteca – é uma edição italiana, que pertenceu à Imperatriz Leopoldina e foi doado ao Museu por D. Pedro II e incorporado ao acervo da Biblioteca em 1892. Così gran numero di animali era tratto dalle più lontane regioni. Da Plinio sappiamo (L. VIII) che traevansi gli orsi dai boschi della Pannonia e della Calidonia: le pantere e i leoni dall’Africa e specialmente dalla Numidia, scrivendo Plinio che quella regione non produceva che belve e marmo numidico; dall’Egitto venivano i coccodrilli e gli ippopotami; dalla Persia le tigri; dall’India il cracuta e il rinoceronte. Gli elefanti si traevano dall’Africa e dall’Asia, e dall’Africa si traevano giraffe e rinoceronti. “Il Vivarium Imperiale” e outras citações aparecem na história do BIOPARCO – Centro di Conservazione e di Educazione Ambientale – Il Giardino Zoologico di Roma – Itália, tais como: – “Vivarium di Commodo” (180-193): 100 leões, 100 ursos, 5 hipopótamos, 1 girafa, 1 tigre, 1 rinoceronte, elefante e avestruz. – Muitas girafas foram para o “Vivarium Imperiale” (100 delas!), em 237 de nossa era. “Vivarium di Gordiano I”, veramente imponente continha: 1.000 ursos, 100 tigres, 100 girafas, 100 toro de Cipro, 10 alces, entre muitos outros animais. – “Vivarium di Gordiano II” (238-244): 60 leões domesticados, 10 leões ferozes, 30 leopardos domesticados, 10 tigres, 10 hienas, 32 elefantes, 10 alces, 40 cavalos selvagens, 10 girafas, 1 rinoceronte, 1 hipopótamo. – “Vivarium di Probo” (276-283), questi sopratutto ripopolò il Vivarium. Vi erano ai suoi tempi 1.000 avestruzes, 1.000 cervos, 1.000 cinghiali, 100 leões, 100 leoas, 200 leopardos, 300 ursos, girafa etc.
Foi usual enviar um presente da Núbia para os reis da Pérsia – onde girafa é chamada de USHTURGAO (camel-cow, camelo-vaca) – e, antigamente, eram enviados para as princesas da Arábia e aos primeiros califas da casa de Abbas... A origem da girafa tem trazido enormes discussões... “Tem se falado que a pantera da Núbia incorporou um grande tamanho, e que o camelo daquele país tinha uma baixa estatura e pernas curtas.” – Mas’udi, III. 3-5. Os persas a chamam de “ushtur gâw palank” porque “ushtur” é um camelo, “gâw” é uma vaca e “palank” uma hiena. Mas eles nunca sabiam ao certo quanto a sua cor... De qualquer forma, os primeiros registros escritos descrevem a girafa como “um animal de aspecto magnífico, de forma bizarra, com andar único, altura colossal e de caráter inofensivo”...
Ele repetiu o erro do enciclopedista Vicent Deauvais que em seu Especulum Naturale (1225) descreveu a girafa em 3 diferentes nomes: anabulla, camelopardo e orasius (de oraflus e orafle)... Outros nomes: Camelo Pardis, Cameleopard, Camelopardus (latim medieval), Camelopardalin (Bellon)...
– Em 1215 eu fui presenteada a outro país, pelo Sultão do Egito ao Rei Frederico II em troca por um urso-polar. – Nel 1215 feci ancora la parte di un “dono”: quello che il Sultano d’Egitto fece a Federico II che ricambiò con un orso polare! – In 1215 I was presented as a gift to another country by the Sultan of Egypt to King Fredrik II in exchange for a polar bear.
– Em 1415, cheguei a China pelo mar, onde fui considerada pelos chineses um sinal de boa sorte. – Nel 1415 mi sono spinta addirittura in Cina! Arrivai via mare e fui considerata dai Cinesi un presagio positivo. – In 1415 the next epic was to arrive by the sea into China, where I was thought to be a lucky symbol.
– Em 1486 fui presenteada para Lorenzo de Médici, em Florença... Eu me lembro de ser alimentada com frutas pelos moradores através das sacadas e balcões da cidade. – Nel 1500 fui portata a Firenze da Lorenzo de’ Medici. Ricordo che le donne mi davano la frutta addirittura dai balconi! – In 1500 I was seen in Florence in company of Lorenzo de’ Medici, a wealthy nobleman. I remember being fed fruit from the balconies of the city.
– Por causa da particular posição de algumas estrelas, desde o início do século XVII (talvez 1624), meu nome foi dedicado à uma constelação! – Per la particolare posizione di alcune stelle mi hanno anche dedicato una costellazione! – A group of stars have been named after me. – Eu sou representada como símbolo de um importante bairro da cidade de Siena, com o lema: “Quanto mais alta a cabeça, maior a glória”. – A Siena sono il simbolo di un’importante contrada il cui motto è: “Più alta la testa, maggiore la gloria”! – I am represented as a mascot in one particular quarter of Siena, with the motto “The higher the head, the greater the glory”. – Em 1685 cheguei pela primeira vez na Inglaterra. – Nel 1685 per la prima volta giunsi in Inghilterra. – The first time in England was in 1685...
Para os lamarckistas – lei de uso e desuso (certo) e herança das características adquiridas (errado): gerações de girafas esticaram o pescoço para alcançar as folhas das árvores e assim poder se alimentar. Esta “adaptação”, transmitida a seus descendentes, resultou finalmente na girafa atual. Para os darwinianos – lei da seleção natural (certo) e origem das variações naturais (só foi explicada pela Genética): as girafas nascem, ao acaso das variações entre indivíduos, dotadas de pescoços longos ou curtos. As girafas que têm o pescoço mais longo estão melhor adaptadas a seu meio ambiente e se reproduzem com mais êxito.
– O último Bourbon da França, o Rei Charles X, recebeu uma girafa-presente. Proveniente do Sudão, a girafa viajou do porto de Alexandria até Marselha, chegando em outubro de 1826. Geoffrey St. Hilaire, um renomado francês naturalista, andou com a girafa até Paris, aonde chegou em 30/06/1827. Hoje, a girafa está preservada no Museu de História Natural em La Rochelle, França. – Em 11/08/1827, chega a girafa-núbia no “Royal Menagerie” – presente ao rei George IV. Um ano mais tarde, a Sociedade Zoológica de Londres funda o primeiro zoológico da cidade, o Regent’s Park. – O ano de 1828, marca a chegada da primeira girafa no Zoológico de Viena, Áustria – durante o reinado do Imperador Franz II –, fato que causou grande comoção entre os habitantes da cidade. Os vienenses criaram até mesmo uma expressão – “à la giraffe” – para designar o estilo que surgiu na época.
Também o ano de 1912 marca a chegada da primeira girafa em Basel, na Suíça.
Neste mesmo ano a marca de brinquedos “Estrela” lançava sua primeira girafa, a “Girafa Big”. Pouco depois, numa grande promoção realizada em 1960 foi lançada a girafa “Dondoca” – quando efetivamente passou a ser comemorado o Dia das Crianças!
Nota: Em muitos casos, clique na imagem e você a terá ampliada, para melhor visualização. Em relação a filatelia, inúmeros selos não têm o seu tamanho original, servindo, portanto, para ilustração e sobretudo conhecimento. |
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Última atualização: 13/08/2011. |
Criado em 9 de abril de 2003. |
Por Sérgio Eduardo
Sakall. |