GIRAFAS NA PSICOLOGIA COMPARATIVA


A percepção dos cientistas a respeito dos animais mudou muito e esta mudança ocorreu recentemente. O tema de interesse da psicologia comparativa mudou ao longo do tempo, desde a publicação do livro de Charles R. Darwin (1872) sobre as expressões faciais em humanos e em animais.

No entanto, o desafio da psicologia comparativa é concluir algo verdadeiro, baseado em evidências empíricas fortes e fidedignas e, este, não é um terreno seguro...

Charles Darwin propôs, século passado, uma boa teoria que foi baseada na lógica e na observação. Nela, Darwim justificava que a evolução das espécies se daria através de uma seleção natural na qual os seres com maior capacidade de adaptação ao meio ambiente sobrepujariam os de menor capacidade.

É uma teoria "excelente", explica muito bem, por exemplo, como as girafas ficaram pescoçudas após séculos e séculos de fome e morte das mais baixinhas enquanto as de pescoço maior fartavam-se com as folhas das árvores mais altas (ou será que o pescoço grande era apenas um atributo de beleza que faria a diferença na hora da procriação?) e melhor ainda como, na luta pela sobrevivência, os animais foram ficando cada vez mais fortes, velozes, com os instintos aguçados e cada vez mais camuflados no meio ambiente.

No caso do ser humano explica ainda como os mais inteligentes foram tomando o lugar dos menos capacitados desde os primeiros hominídeos até hoje. É uma teoria muito boa, porém incompleta...

Não se pode, através dela, explicar o surgimento de órgãos complexos nos quais várias partes se interligam e se comunicam com um objetivo único - um caso clássico disto são os olhos que com seus sistemas de captação de imagem, transmissão ao cérebro e lubrificação, mais parecem obras da moderna tecnologia.

Não se pode imaginar uma espécie ganhando, ao acaso, partes de um atributo que nas próximas gerações seriam completados, também ao acaso, para cumprir suas funções. Isto é um absurdo que nem a teoria da seleção natural avaliza, pois, sem a sua função atuante, não existe vantagem comparativa em relação aos demais seres vivos.

No surgimento e evolução das espécies existe uma maravilhosa intervenção exterior e não há como negar isto. Vocês não acham?

ANTROPOMORFISMO: A "HUMANIZAÇÃO" DOS ANIMAIS

Tendência a ver características humanas nos animais (antropomorfização)
"The expressions of emotions in men and animals" (1872) - Charles R. Darwin
O antropomorfismo pode ser detectado no momento em que:
1) afirmamos que o animal possui uma habilidade humana, quando na verdade ele não a possui
2) quando afirmamos que o animal não possui uma habilidade humana, quando na verdade ele a possui
3) quando inferimos que o animal possui uma habilidade humana, baseado em evidências empíricas pobres ou insuficientes
4) quando falhamos nas conclusões e dizemos que o animal não possui uma habilidade humana quando todas as evidências empíricas apontam que ele as possui

ZOOMORFISMO: A "ANIMALIZAÇÃO" DO HOMEM

Tendência a ver características animais nos humanos (zoomorfização)
A zoomorfização é um procedimento muito raro e poucos autores usaram conceitos animais para caracterizar o comportamento humano. Dentro desta perspectiva, a primeira obra publicada foi o livro de Desmond Morris (The naked ape, 1967); posteriormente, este autor publicou outros livros com o mesmo enfoque.

Talvez, nós não podemos deixar de especular que, num futuro bem próximo, esta forma de abordagem será estendida a animais distantes filogeneticamente do homem, tal como os psicólogos comparativos (principalmente Romanes, Thorndike e Tolman) já faziam no início deste século.


Adaptado para GIRAFAMANIA, texto de Rogério F. Guerra (rfquerra@cfh.ufsc.br)
(a quem agradeço muito pela qualidade de informações)

Lab. Psicologia Experimental, Núcleo de Estudos Comportamentais de Primatas
Depto. de Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina
Campus Universitário, CEP: 88040-900 — Florianópolis — Santa Catarina (SC) — Brasil
(http://mbox.cfh.ufsc.br/~lpe/primat5.htm)

Outros textos: Linguística, Psicologia Comparativa (esta página) e Utilização animal

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Última atualização: 17/03/2007.
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