Exposição fotográfica de Sérgio Eduardo Sakall, 09/2000
Certa vez, conheci regiões históricas de Minas Gerais. Na cidade de Mariana, vi uma imagem de São Roque (muito comum no Caminho de Santiago) com duas vieiras em seus ombros que fotografei...
Como disse o arquiteto catalão Gaudí: “A linha reta é a do homem e a curva a de Deus”. Da mesma forma que esse artista, acredito ser essencial inspirar-se na natureza para realizar obras artísticas. Não menos comovidos ficamos quando contemplamos as obras arquitetônicas já realizadas pelo homem. Imagino ser a inspiração do inspirado.
Nessas imagens tento fazer com que o apreciador sinta a bela Espanha, sobretudo o Caminho de Santiago de Compostela. Também pretendo transmitir minha experiência, não me esquecendo da inspiração de escrever em meu diário. São fotos registradas em uma câmera simples, nos meses de abril, maio e junho de 1998.
Até hoje as pessoas me perguntam qual foi o motivo de ter largado tudo e percorrido a pé mais de 800 quilômetros em uma rota medieval. Bem, sempre que eu ouvia sobre essa viagem, o assunto me encantava.
Desde cedo a aventura faz parte do meu espírito e a idéia de andar por uma longa trilha desafiava o meu gosto pelo trekking. Talvez uma jornada em busca de auto conhecimento ou ainda conhecer de perto as estórias espanholas, era o que eu queria...
Posso acrescentar que, além de me satisfazer com o esperado, obtive muito mais, pois um ano mais tarde realizei o lançamento do meu primeiro livro de poesias filosóficas, aprimorando os meus escritos e transformando alguns deles em poesias...
Escrever durante o Caminho foi um conjunto de tudo. Eu narrava o que ia sentindo ou acontecendo comigo. Principalmente a convivência e a solidariedade com aquelas pessoas, de várias nacionalidades, ajudaram no processo de inspiração e despertaram mudanças significativas em minha personalidade.
Eu acho que toda literatura é autobiográfica, algumas mais disfarçadas e outras mais claras. Faço parte desse segundo grupo. Acredito também que a melhor psicanálise seja a literatura, sobretudo no momento em que escrevemos. Se mais gente lesse ou escrevesse, com certeza nosso comportamento social mudaria...
Não foi Freud um grande romancista, que dava voz a alguns de seus pacientes?
Então, penso que quando escrevo, estou me confessando, hábito que trago de minha formação católica.
Enfim, falar sobre a minha criação, tanto literária quanto fotográfica, é como explicar o Caminho de Santiago de Compostela ou ainda o que senti conhecendo as obras do Aleijadinho, coisas difíceis de expressar. Talvez, porque sensações e vivências cada um as tem de formas diferentes...
Mas, sem dúvida, “trilhar o caminho” é uma experiência ímpar na qual todos deveriam ter o direito de viver ao menos uma vez...
sérgio eduardo sakall
Foto de Introdução: “OS PEREGRINOS BRASILEIROS”
Los Arcos (6º dia – 07/05/1998), cidade a 18 quilômetros de Estella e logo depois da fonte de vinho em Irache; local do jantar de confraternização dos brasileiros que se tornaram amigos durante o caminho.
Da esquerda para a direita em pé: eu (SP), Jorge (RS), Sarah (AL), Denize (DF), Marcelo (RJ); sentados: Paulo (RS), Illo (RS), Wagner (SP), Walkyria (PE) e Márcio (SP).
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1) Na “Rota Francesa” podemos começar o caminho pela pacata cidade de Saint Jean de Pied de Port, França. Nesta foto podemos ver a famosa rue de La Citadele, um dos locais onde o peregrino pode obter uma credencial oficial (documento conferido ao viajante que faz o caminho a pé, a cavalo ou de bicicleta e permite a ele dormir nos diversos refúgios do roteiro).
2) Cenário bucólico nos Montes Pirineus. Foto tirada em algum lugar entre Saint Jean Pied de Port (França) e Roncesvalles (Comunidade Autônoma de Navarra – Espanha). A seta amarela que se vê no lado esquerdo da foto é o símbolo que orienta o peregrino durante os 800 quilômetros do caminho. São tantas setas pintadas no chão, em pedras, postes, paredes, placas, enfim, em toda e qualquer parte que, mesmo depois de terminada a jornada (1 mês), os peregrinos continuam a procurá-las.
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3) Real Collegiata de Roncesvalles, local onde muitos começam a sua jornada. Construída como um dos primeiros hospitais de peregrinos, em 1127, é um complexo que inclui um refúgio e uma igreja onde vivem religiosos. Todos os dias, um padre recebe e abençoa os viajantes em uma tradicional missa noturna dos peregrinos, às 20 horas, na Abadia de Roncesvalles.
4) Vista parcial da Ermida Santa Maria de Eunate, Muruzabal. Lacalizada na Comunidade Autônoma de Navarra, que compreende desde Roncesvalles até Puente la Reina. Essa igreja romana foi erguida toda em pedras na segunda metade do século XII. A originalidade de Eunate está em sua planta centralizada, pois apresenta um corpo central em forma octogonal irregular, que se prolonga no lado oriental. Circundam, todo o perímetro do edifício, arcos que se separam do templo por um espaço de aproximadamente quatro metros e que são sustentados por colunas ricamente decoradas com motivos vegetais, máscaras, animais e figuras humanas.
5) Santo Domingo de La Calzada, Comunidade Autônoma de La Rioja. Cidade sede da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela. "Santo Domingo de La Calzada, onde a galinha cantou depois de assada". Esta rima tosca ainda é muito usada por aqueles que contam a lenda que deu fama à cidade. Um jovem, em peregrinação com a família no século XIV, foi acusado injustamente de furtar uma taça de prata por uma moça, motivada por uma paixão não correspondida. O rapaz acabou sendo levado à forca. Seus pais seguiram até Santiago e na volta, encontraram o filho vivo, um milagre de Santo Domingo. O casal contou o fato ao corregedor local, no momento em que ele comia uma galinha assada. Incrédulo, desafiou: "Se isto for verdade, que esta ave cante agora". E a ave cantou. Para lembrar o episódio, um galo e uma galinha são mantidos vivos dentro da igreja, e quem ouvir o galo cantar, dizem que trará sorte ao peregrino.
6) Sopa de alho servida aos peregrinos em San Juan de Ortega, Província de Burgos – Comunidade Autônoma de Castilla e León. Em 1138, o clérigo espanhol Juan Quintanaortuño construiu na aldeia de Ortega um hospital-igreja para proteger os peregrinos e passou a realizar milagres, como multiplicar pães. Nove anos depois de morrer, em 1163, o lugar passou a se chamar San Juan de Ortega. Na igreja, ainda um importante refúgio, ocorre um dos belos fenômenos do caminho: nos dias do equinócio (em que o dia e a noite tem a mesma duração), das 17 horas às 17:10, um raio de sol penetra na igreja e ilumina com precisão um capitel onde estão representados a anunciação e o nascimento de Cristo.
7) O Arco de Santa Maria é uma das entradas para a cidade de Burgos, Comunidade Autônoma de Castilla e León. Cortada pelo rio Arlanzon, exige uma detalhada visita para apreciar sua arquitetura. Sua estrutura monumental, por excelência, é a fantástica catedral gótica que foi iniciada em 1220 e recebeu por quatro séculos diversos detalhes construtivos, hoje declarada patrimônio da humanidade. Burgos viveu seu período de fama universal a partir de 1494, com a criação do Consulado do Mar, uma instituição mercantil de lã que comercializava com outras terras. Esta intensa atividade econômica e social permaneceu durante três séculos. Atualmente, a cidade tem se consolidado como um importante pólo industrial, assim como uma rota de conexão de Madri com Portugal e o norte da Europa.
8) Fachada da Igreja de San Martín, Frómista – Província de Palencia. Com descendência pré-romana, a cidade é a pátria de San Telmo (patrono dos navegantes). Essa igreja romana do século XI, foi o que restou de um monastério beneditino, fundado em 1066 por doña Mayor (esposa de Sancho El Mayor de Navarra e mãe de Fernando I de Castilla e de León).
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9) Fachada da Catedral de León. Com estilo gótico clássico e vidraças de origem medieval, foi construída entre os séculos XIII e XIV. Nessa cidade, muitos peregrinos acham que já percorreram metade do caminho, mas na verdade já o fizeram. Ela parece ser um marco divisor de “águas”... e ninguém sabe dizer bem o porquê. Depois de sair de lá, passei por um “pueblo” onde peguei um papel de recordação da novena à N. Sra. La Virgen del Camino que dizia: “Oh Virgen del Camino, Reina y Madre del pueblo leonés! Muéstranos a Jesús vivo y glorioso que herencia nuestra es.”
10) Puente del Paso Honroso, Hospital de Órbigo. Ao lado desta ponte medieval avistei a Iglesia de Nuestra Señora de La Purificacion, na qual, em sua torre, havia vários ninhos de cegonhas, que fotografei. Aqui o caminho se divide por um pequeno trecho para se unir depois. Por um lado se atravessa Villares de Órbigo e pelo outro Santibáñes de la Calzada
11) El Palácio Episcopal, Astorga. Com estilo neogótico, foi construído sobre muralhas romanas entre 1889 e 1913. Encomendado pelo bispo Juan Bautista Grau Vallespinós ao famoso arquiteto espanhol Antonio Gaudí. Hoje abriga o Museo de los Caminos. A 26 quilômetros de León, Astorga tem origem pré-romana e grande importância na colonização daquela época, foi declarada conjunto histórico-artístico em 1978. Daqui a diante a paisagem muda para camponeses, ovelhas, igrejas e outras histórias...
12) “Cruz de Hierro”, Foncebadón – Monte Irago. Esta cruz fica no alto de uma colina de 1.504 metros e serve para orientar os peregrinos nos dias de neve. Geralmente, as pessoas jogam uma pedra na base dessa cruz de ferro, fazendo pedidos... Bem ao lado há uma Ermida de Santiago. A aldeia de Foncebadón foi um antigo refúgio de ermitões, tornou-se uma vila fantasma por causa de seu isolamento. Com casas vazias, o clima sinistro explicita a mitologia das bruxas, fadas e druidas da cultura dos celtas, povo que iniciou a colonização dessa região. Aqui vive uma arredia e misteriosa senhora na companhia de um filho e de alguns animais.
13) Vista do Castelo dos Templários. Ponferrada – El Bierzo. Sobre a confluência dos rios Sil e Boeza, houve um assentamento primitivo de uma cidade romana no ano de 456. A evolução de "Pons Ferrata" iniciou-se com o descobrimento, no século IX, da tumba do apóstolo em Compostela. No final do século XI, Osmundo, bispo de Astorga, ordena a construção de uma ponte que facilite a passagem dos peregrinos. Para reforçá-la, utilizou-se ferro em sua construção, isso determinou o nome do povoado que cresceu em seu redor. Durante o século XII, a presença dos templários na cidade marca profundamente a sua vida e história. A Ordem dos Templários, criada em Jerusalém no ano de 1119, por um grupo militar e religioso, com o objetivo de proteger os peregrinos cristãos, ampliaram uma pequena fortaleza, transformando-a num magnífico castelo. Na construção há 12 torres que lembram os 12 apóstolos ou os 12 signos do zodíaco, ou ainda os 12 guardiães da Arca. Os Templários são representados por bravos guerreiros e os lendários cavaleiros de Cristo, consagrados na época das Cruzadas. Foram renegados pelo papa em 1312 e assim se deu a dissolução da Ordem. Hoje, esta rica amostra da arquitetura militar surpreende por seu tamanho, mais de 8.000 metros quadrados de superfície. No local, ergue-se a altiva Torre del Homenaje, onde se conserva um salmo em latim que diz: "Se o Senhor não protege a cidade, em vão vigia quem a guarda." É a filosofia do templo, cuja memória sobrevive nas pedras do castelo.
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14) Albergue de El Cebreiro, Província de Lugo – Comunidade Autônoma de Galicia. Formada com casas típicas chamadas de “pallozas” (cabanas de pedra e teto de palha), no Caminho de Santiago, esse é o local preferido do escritor Paulo Coelho. Sua igreja do século IX teria sido o cenário de um milagre em 1300: o vinho se transformou em sangue e o pão, em carne. Lá podemos ver o cálice: "Cáliz Santo Grial", do século XII, que se encontra no Santuário.
15) Sarria, também na Província de Lugo – Comunidade Autônoma de Galicia. É um dos inúmeros “pueblos” charmosos pelo caminho. Separa-se de outro – Triacastela, por 17 quilômetros.
16) Catedral de Santiago de Compostela vista da praça “Herradura”. Província de La Coruña. Depois de descer "cantando" o Monte do Gozo, chegamos na cidade de Santiago. O Pórtico da Glória, uma das entradas da catedral, é repleto de detalhes e esculturas. Na coluna central podemos apreciar a figura do Santo Apóstolo. Nela, todos colocam a mão e fazem um ato de reverência: "Senhor, eu creio", seguindo a tradição multisecular dos peregrinos. Dentro da Catedral também encontramos o túmulo do Apóstolo São Tiago, conhecido também por Saint Jacques ou São James. Todos os dias, às 12 horas, é celebrada a missa de bênção aos peregrinos, finalizando com o espetáculo através do botafumeiro (incensário gigante, balançado por oito homens sobre o altar nas cerimônias importantes). O Caminho de Santiago ou Rota Jacobea, foi declarado conjunto histórico-artístico no ano de 1962, e a cidade de Santiago foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1985.
17) “Santiaguiño do Monte”, Padrón – Local de pregação do apóstolo Tiago. Padrón é uma vila ao sul da província de Coruña, onde se encontram os rios Sar e Ulla. No século I de nossa era, ainda conhecida por Iria Flavia, essa cidade constituía um importante centro urbano, pois os romanos interessavam-se pelo privilegiado cruzamento de caminhos próximos ao mar. Embaixo do altar maior da igreja de Santiago, encontra-se uma pedra de granito: El Padrón. Conta a lenda que esta pedra serviu para atracar o navio que conduziu o corpo do apóstolo Santiago até a Galícia.
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18) Pôr do Sol no Oceano Atlântico, Cabo Finisterre, em Fisterra. O que uma região remota da Espanha, antigamente chamada de "O Fim da Terra", guarda há tantos séculos com tamanho zelo? Durante muito tempo pensou-se que esse lugar era o fim do mundo, pois esse é o ponto mais ocidental da Europa. Os celtas, romanos e cristãos transformaram-no num lugar de culto. Hoje, os peregrinos que chegam até lá, queimam as suas roupas finalizando a grande jornada com o elemento fogo.
19) Interior da estação de trem Atocha, Plaza del Emperador Carlos – Madrid. O primeiro serviço ferroviário de Madri, foi inaugurado em 1851. Quarenta anos depois, a estação de Atocha foi substituída por um edifício novo, que foi ampliado e modernizado. A parte mais antiga, em ferro e vidro, foi aproveitada para um jardim interno de palmeiras. Daqui partem os trens de alta velocidade (AVE), entre outros. Atocha é uma das principais estações de trem em Madri, que oferece ampla variedade de serviços, com “caminhos” para diversas partes da Europa.
20) Casa de Milá, mais conhecida como “La Pedrera” (1906/1910) – Barcelona. Construída com pedras provenientes de Garraf e Vilafranca, sua fachada ondulada parece com as ondas do mar e a sua cobertura é um grande cenário abstrato surrealista, com chaminés em forma de monstros e figuras enigmáticas. O espaço Gaudí, localizado no terraço do prédio, foi criado com o objetivo de oferecer uma completa e estimulante visão da arte do arquiteto. Através do uso de desenhos, modelos, fotografias e recursos audiovisuais, não apenas explana a vida de Gaudí, mas também o seu passado social e histórico, seu valor artístico e as inovações técnicas encontradas em seu trabalho. Também podemos ver a magnífica construção da Sagrada Familia ao fundo da imagem.
Agradecimentos:
Célia (Biblioteca Amadeu Amaral – tel. 5061-3320)
Heloisa Amendola
Marcos Velloso Narciso
Secretaria Municipal de Cultura
“IMAGENS E POESIA PELO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA”
Palestra com: Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro e Sérgio Eduardo Sakall, realizada em 31/08/2000.
Realização: Prefeitura do Município de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento de Bibliotecas Públicas e Biblioteca Pública Amadeu Amaral.
Os escritores Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro (Histórias de uma Peregrina) e Sérgio Sakall (Atmospheras Humanas), na Biblioteca Pública Amadeu Amaral (31/08/2000).
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Texto de Sérgio Eduardo Sakall:
Eu já sabia de muito tempo sobre essa viagem de peregrinação. Sempre esse assunto me encantava, pois desde cedo a aventura faz parte do meu espírito.
A idéia de andar por uma longa trilha desafiava o meu gosto pelo trekking. Da mesma forma que uma jornada em busca de maior auto conhecimento. Ou ainda conhecer de perto a história medieval das terras espanholas.
Naquela ocasião, encontrava-me numa fase de busca. Não sabendo exatamente o que. A minha decisão em relação a viagem foi bem rápida.
Então, depois dos preparativos, sozinho e já no aeroporto, com papel e caneta na mão, comecei a escrever um diário (coisa que nunca havia feito) e do qual não me separei durante todo o caminhar.
Dia após dia tinha o efeito de uma terapia, de um exercício narrativo. Oras feliz, outras muito triste ele é a prova de todo o meu percurso naquela viagem.
Assim como os meus conterrâneos também os são, pois quase todo o tempo me viram escrevendo. Aliás, não só eu, mas muita gente escrevia um diário por lá.
No primeiro dia do Caminho conheci alguns brasileiros que me apelidaram de “The Flash” e que até hoje, após mais de dois anos, continuam me chamando carinhosamente assim.
Acredito nem ser necessário dizer o motivo de tal apelido, ele por si próprio já diz tudo. É verdade que sempre fui uma pessoa ansiosa, no entanto nunca havia percebido a intensidade disso.
Depois, aqueles novos amigos testemunharam as minhas palavras de que no mesmo mês, do ano seguinte, eu iria fazer o lançamento do meu primeiro livro. Assim como em uma profecia, isso se concretizou com apenas um mês de atraso.
Bem, deparar-se com belas paisagens, monumentos arquitetônicos como castelos, mosteiros, catedrais, cidades amuralhadas e ruínas celtas, também conhecer o interior de uma Espanha primitiva de hábitos camponeses e religiosos, onde o tempo parece estacionado na Idade Média, tudo isso foi para mim uma experiência única de uma grande viagem ou ainda uma aventura na qual o cansaço e o imprevisível tornou único e singular cada dia. Creio que diante de vários acontecimentos a inspiração surgi mais rapidamente...
O meu processo de inspiração para escrever durante o Caminho foi um conjunto de todas essas coisas, as quais fizeram com que eu escrevesse o que sentia e acontecia comigo.
Sobretudo a convivência e a solidariedade com aquelas pessoas de várias nacionalidades fizeram com que eu me tornasse um inspirado e despertaram mudanças significativas em minha personalidade.
Imagino que pela palavra escrita, essa forma de expressão que escolhi, ia durante o passar do tempo me transcendendo. Com essa experiência alcancei uma liberdade jamais antes percebida.
A realização se deu na conquista da chegada, ora em que percebi outra qualidade em mim – a persistência.
Enfim, falar sobre o ato dessa criação, como foi o meu processo ou entusiasmo criador e a minha inspiração é como explicar o Caminho de Santiago de Compostela.
Acredito ser algo difícil de se expressar, porque sensações e vivências não cabem em palavras e cada um as tem de formas diferentes.
O que faz uma pessoa largar tudo: família, trabalho, amigos e percorrer a pé mais de 800 quilômetros de uma rota medieval, também não sei dizer.
Mas sem dúvida alguma é uma experiência ímpar na qual todos deveriam de ter o direito de viver ao menos uma vez.
Texto de Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro (ribeirolucia@hotmail.com):
Minha amizade com a leitura começou na infância. Fui a uma biblioteca pública, pela primeira vez, com a minha irmã. No silêncio da sala tão grande, a bibliotecária perguntou se eu sabia ler e, para confirmar, ainda pediu que eu lesse um texto em voz alta.
Nessa biblioteca, conheci os personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, e comecei uma viagem sem fim pelo mundo dos livros.
Estar aqui hoje é uma forma de expressar minha gratidão à biblioteca pública que freqüentei.
Percorrer o Caminho de Santiago pode ser um mergulho na história e religiosidade de nossos antepassados, de uma parte de nossas raízes culturais que se situam na Península Ibérica, antes da época das grandes navegações e chegada dos portugueses ao Brasil.
Principalmente a partir dos séculos XI e XII, peregrinos de toda a Europa se dirigiram ao lugar onde, segundo a tradição cristã, estão os restos mortais de São Tiago, um dos apóstolos de Jesus.
Pontes e outras obras de infra-estrutura foram construídas com o apoio de monarcas e da Igreja Católica, ao longo dos diferentes caminhos que conduziam ao túmulo do apóstolo.
Na Idade Média, os muçulmanos tinham expandido seu império até a Península Ibérica onde, mais tarde, se formaram Portugal e Espanha. Nessa época, os monarcas dos reinos cristãos, no norte da Espanha, procuravam expulsar os invasores pagãos.
As vilas e cidades situadas no Caminho de Santiago contém o registro de séculos de história, principalmente em igrejas e catedrais. Alguns monumentos antigos de pedra indicam que, antes do império romano e dos cristãos, os celtas e outros povos se dirigiram à região da Galícia, onde está Santiago de Compostela.
Caminhando em contato tão próximo com a natureza, diante de imagens tão diversas, a experiência do peregrino contemporâneo, rumo a Compostela, se sobrepõe à experiência de peregrinos que, ao longo do tempo, tem percorrido o mesmo trajeto. O espaço é o mesmo; muda o contexto histórico, religioso e cultural.
Durante 35 dias, caminhei aproximadamente 800 quilômetros, por diversas províncias no norte da Espanha, desde Roncesvalles, que fica próximo à fronteira com a França.
Realizar o objetivo proposto de chegar a Santiago é um exercício de persistência, que traz poder. O poder de quem quer se conhecer mais, de quem busca a aproximação e a harmonia com um plano de amor. O poder da fé.
O peregrino se lança em uma grande aventura, lidando com a dor e com a alegria da caminhada. A peregrinação representa o que a vida é em essência, com oportunidades, encontros e desafios. A intensidade da experiência corresponde à intenção que o peregrino coloca no movimento de caminhar.
O caminho do peregrino sempre tem uma direção e uma meta. Com mais atenção para o significado e a aprendizagem de cada experiência, muitos se abrem para uma compreensão mais profunda de seus padrões de comportamento, reavaliando crenças e o direcionamento de suas vidas.
No Caminho de Santiago, a ação de caminhar diariamente tende a criar um estado de consciência ampliado, em que se destaca a importância da simplicidade, do espírito de amizade e cooperação.
Como a poesia, o Caminho de Santiago fala ao coração do peregrino, por meio de imagens, metáforas e símbolos. Como a poesia, o Caminho de Santiago produz emoções e sentimentos. Como a poesia, nos coloca em contato com o mistério da percepção sensível e intuitiva.
A linguagem do Caminho de Santiago é como uma onda, com múltiplas possibilidades, que cada um recebe por uma frequência ou sintonia pessoal. Como antena para o invisível, o peregrino utiliza seu cajado. No caminho, o peregrino se descobre poeta.
O impulso criativo de peregrinos, que voltaram do Caminho de Santiago, reflete uma mudança interna. O estado de encantamento, que muitos experimentam durante a peregrinação, pode se transformar em frustração na volta à casa e aos afazeres diários, se faltar persistência no caminho de dar forma aos sonhos.
Escrevendo, vivi uma experiência de crescimento, assumindo o poder de me expressar criativamente. Segui cada passo na direção do objetivo de dar forma à idéia do livro.
No início, não pensei em escrever um livro. Havia na Associação de Amigos do Caminho de Santiago, da qual faço parte, um projeto de um livro com a experiência de vários peregrinos.
Comecei escrevendo o que seria somente um capítulo para esse livro. Depois, percebi que o que estava escrevendo tomava uma outra direção. Então, deixei que a imaginação me levasse. Fui escrevendo o que senti durante o caminho e depois. Queria comunicar a essência da experiência.
Fui observando o Caminho de Santiago me levar de volta à Índia e a outras experiências do passado, até me ver diante de muitas possibilidades, na continuação de um caminho de vida.
Durante todo o processo de escrever, até que o texto se tornasse realmente um livro, percebi sinais indicando direções a seguir, como as flechas amarelas do Caminho de Santiago, que durante todo o percurso orientam os peregrinos.
Assim, a história do livro é a continuação da história que o livro conta. Cada etapa desse trabalho trouxe novos desafios. Por trás de cada dificuldade, vi possibilidades diferentes e interessantes para prosseguir.
De uma maneira intuitiva e espontânea, montei o texto, fazendo acréscimos e alterações. Não é um livro de poesias. É um livro de sentimentos. Foi meu pai quem fez a primeira leitura. Ele contribuiu com críticas e sugestões. Também pesquisei sobre a história do caminho.
Escrevi, rescrevi e, por fim, inseri as ilustrações. O livro me pediu muitas horas de concentração, quando fiquei sozinha com a lapiseira e o papel, ou diante do computador. Muitas vezes isso foi um sacrifício.
Em outras situações, o livro me trouxe novos amigos, como o Alexandre, que cedeu a foto da capa e o Guy, peregrino escritor, que me passou informações importantes para o contato com gráficas e editoras.
O livro ficou pronto para a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O lançamento foi na Livraria da Vila, também em São Paulo. Foi um momento feliz, de celebração entre muitos amigos queridos.
Breve currículo:
Lúcia Amaral de Oliveira Ribeiro nasceu na cidade de São Paulo, no dia 8 de dezembro de 1957. Graduada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas e École Supérieure des Sciences Économiques et Commerciales – ESSEC, na França, é autora do livro “Histórias de uma peregrina – Santiago de Compostela e outros caminhos”, lançado em abril de 2000, pela Editora Aquariana, com o apoio da Lei Municipal 10.923/90, de Incentivo à Cultura.
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Página sobre Caminhos — Página sobre o Caminho de Santiago
Última atualização: 01/03/2008. |