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Era março de 1983, interior da Bahia. Lá, fiquei sabendo de um açude próximo a uma fazenda.
Aprontei as traias no carro e sai cedo para uma pescaria...
Levei varas, molinetes, samburá (o meu raro cesto feito de cipó e taquara, bojudo e de boca perfeita), sondás, coração de boi para iscas, lanches, não esquecendo a curtida porunga com a cachaça.
Já no destino, fui recebido por uma cachorrada, sem contar com os equídeos e os bovinos presentes.
Retirar toda a parafernália do porta-malas foi uma verdadeira odisseia.
Colocá-las no lombo até a barranca do rio foi só AZAR, pois enquanto percorria as idas e vindas, aqueles cachorros comeram todo o meu lanche e o coração de boi destinado às iscas.
De barriga cheia, foram embora. Bobeei, deu nisso.
Então, logo de cara eu estava sem o engodo que se põe no anzol.
Instantes depois dei SORTE porque consegui roubar uma piramboia do bico de um martim-pescador. Acreditem!
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Piquei a mesma, iscando os pedaços num sondá de 0,60 milímetros e fui fisgando ferozes piranhas-douradas. Peguei 227, só piranhas!
Apesar do terreno agreste, o lugar estava úmido, frio e ventoso.
Fui apanhar a nossa curandeira de friagem – a porunga cheia de “boa-ideia”!
Não dei gole algum quando – AZAR – a pinga rodo com cabaça e tudo nas pedras de uma cascata...
Mais tarde a fome bateu. Dei SORTE novamente, pois nas brasas da queima de coivara, assei 3 piranhas salgadas com o sal grosso do cocho da invernada.
Tomei da pura e fresca água dum olho-d’água ao lado e, deitado na relva, depois do pito, adormeci ninado pelo marulhar da corredeira.
Só fui acordado por 7 pescadores que pararam para prosear sem peixe algum. Disseram-me que uns 5 quilômetros dalí, existia um brejão que só dava traíras.
Para isso, tinha que rasgar a Caatinga, também o próprio couro com toda a sorte de espinhos encontrados pelo caminho.
Eles estavam com as roupas encharcadas de banha do capim-gordura e forradas de carrapichos, tiritando de frio.
Um deles resmungava que se pelo menos um “maledeto” de um guarú tivesse enroscado em seu anzol, não o teria deixado sapateiro... Acrescentou que deveria ser coisa-feita.
Despediram-se avisando terem ouvido no rádio que vinha uma cabeça-d’água pela frente.
Lentamente comecei a recolher as coisas. Quando voltei para apanhar o resto fiquei pasmo com o crescimento súbito do nível das águas.
A enxurrada produzida pelas grandes chuvas no alto sertão, e que desce pelo leito dos rios, estendia-se de uma a outra margem com uma altura de uns 2 metros.
Dei AZAR, pois metade das coisas o rio levou e o pior, junto foi todo um dia de pescaria.
Culpados disso foram aqueles malogrados que quase morreram de inveja do meu samburá coalhado de peixes...
Enfim, na dúvida entre o azar ou a sorte que tive no dia, foi como terminei a minha pescaria.
Coivara – restos ou pilhas de ramagens não queimadas de todo, para de
novo lançar-lhes fogo e desembaraçar o terreno.
Invernada – inverno rigoroso ou designação comum a certas pastagens rodeadas
de obstáculos, onde se guardam equídeos e bovinos, para repousarem e recobrarem
as forças.
Piramboia – peixe que vive em lugares pantanosos ou em águas rasas, passando
de uma estação chuvosa à outra enterrado na lama.
Porunga – vaso de couro próprio para líquidos.
Porongo – planta originária da África que fornece enormes frutos ocos e de casca
dura, com os quais o povo do interior faz as cuias e as cabaças.
Sondá – linha comprida e grossa para pescaria com anzol.
Última atualização: 17/04/2010. |