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A expansão marítima chinesa no século XV
Por Jin Guo Ping e Wu Zhiliang

Publicado em Macau, III Série, nº 13, Fevereiro de 2003, pp. 98-112
Adaptado para Girafamania

As expedições de Zheng He foram uma proeza sem precedentes na história da navegação marítima da China e do Mundo. Foram atos de Estado, onde se reuniam os fatores político, diplomático, militar e econômico.

À primeira vista, poderiam bem parecer operações no âmbito da diplomacia chinesa. Mas na realidade, para além da vertente diplomática, estava mais uma imperiosa necessidade interna: a do reconhecimento e confirmação pela nação chinesa, da legitimidade do Imperador Yongle.

Zheng He, o maior navegador da história da China, comandou sete expedições marítimas em um período de quase três décadas (1405-1433). Formadas por alguns dos maiores barcos do mundo da época e por uma tripulação que atingia quase trinta mil homens, as suas embarcações navegaram pela Ásia Marítima, o Índico e a costa oriental da África.

As armadas imperiais sob o comando de Zheng He constituíram uma expansão marítima sem antecedentes na história da China antiga, tornando-a a primeira potência naval do Mundo quinhentista. A destruição dos arquivos oficiais levaram, no entanto, a que os possíveis motivos do arranque e do abandono dessa expansão permaneçam na densa nebulosidade histórica e historiográfica...

De toda a forma, as viagens marítimas de Zheng He não terão ocorrido por mera casualidade e teriam profundas raízes na própria história da China.

Nos inícios da Dinastia Ming (1368-1644), a guerra da sucessão que derrubou a Dinastia Yuan (1279-1368), afetou de forma grave a economia nacional chinesa. Nas fronteiras do norte, persistia a ameaça constante dos mongóis destronados.

Nestas circunstâncias, eram prioridades a recuperação da produção nacional, a centralização do poder e a preparação para enfrentar um possível retorno militar dos mongóis. Sobretudo esta última tarefa levou as autoridades da Dinastia Ming a adotar as proibições marítimas como medida para manter a segurança nacional no litoral, a fim de se poderem concentrar na defesa terrestre no norte.

O Imperador T'ai Tsu, também chamado de Zhu Yuanzhang ou Chu Yuan-chang ou ainda Hongwu (1328-1398), foi o fundador da Dinastia Ming. Ele reinou entre 1368 e 1398, após expulsar para além da Grande Muralha o último imperador mongol de Pequim. Conseguiu promover uma rápida recuperação da economia nacional, com a adoção de uma série de medidas enérgicas.

Estabilizada a situação econômica, Zhu Yuanzhang passou a preocupar-se mais com o campo político. Em pouco tempo e de uma maneira paulatina, conseguiu criar um regime o mais centralizado possível. O poderio estatal Ming estava em ascensão e o poder imperial ia-se consolidando. Surgiram assim condições econômicas e políticas para as expedições de Zheng He.

Sem uma economia recuperada e crescente como base e a estabilidade política como garantia, as façanhas de Zheng He não teriam sido possíveis. É neste sentido que afirmamos que as expedições de Zheng He teriam resultado de uma inevitabilidade histórica da sociedade chinesa quatrocentista, sob os Ming.

Em Nanquim, nasce o quarto filho de Zhu Yuanzhang, cujo nome próprio era Chu Ti ou Zhu Di (1360-1424) e que mais tarde se tornaria Yongle. Já com dez anos, tornou-se príncipe de Yan — antigo nome da região de Beijing que depois se transformaria em capital do império chinês.

Aos vinte, Yongle assumiu o cargo de vice-rei de seu principado. Terceiro imperador da Dinastia Ming subiu ao trono em 1402, após derrubar seu sobrinho, o imperador Jianwen ou Chu Yun-wen, o qual reinou entre 1398 a 1402.

Sob o nome de Yong-le ou Yongle (inglês), ou Yung-lo como é conhecido na China, ao subir ao trono e, com base na consolidação do seu poder e na prosperidade da economia nacional, abandonou a política das proibições marítimas de seu pai, a favor de uma abertura, que se traduziria nas expedições de Zheng He, o início e parte importante dessa política de abertura.

No entanto, os fatores econômico e político favoráveis não teriam sido suficientes para o bom sucesso das expedições em questão. Outros fatores, tais como, as avançadas ciências náuticas e tecnologias que a China detinha [01], a experiência de viagens oceânicas e trans-oceânicas acumuladas desde a Dinastia Tang (618-907) [02] etc, deverão ser levados em consideração.

De ponto de vista econômico, a rápida recuperação da economia do litoral sudeste da China contribuiu para o surgimento de novos enquadramentos políticos e econômicos, que favoreciam as expedições marítimas de Zheng He. Uma produção cada vez maior de seda, porcelanas e chá, necessitava de novos mercados externos.

As expedições de Zheng He constituíam assim vias oficiais de escoamento de produtos chineses para os mercados da Ásia Marítima e o Índico, mediante ofertas imperiais, ofertas normais e o comércio direto, tudo politizado à chinesa. No fundo, estes “usos e costumes” e os “tributos” que os “vassalos” traziam eram uma troca comercial oficial, mas com a uma hábil mais-valia psicológica e político-diplomática para a China.

Ao contrário dos primeiros Imperadores Ming, que não permitiam um comércio externo livre, fora do controlo imperial, o Imperador Yongle, com uma grande habilidade política, “oficializou” o comércio externo direto, com as expedições de Zheng He, tornando-o num monopólio de Estado.

Ao mesmo tempo, a Dinastia Ming, controlava as suas relações político-diplomáticas com os países vassalos, mediante o chamado “comércio tributário” que era muito lucrativo para os que aceitassem prestar vassalagem política à China. O que significa que a China preferia a “compra” de vassalagem política à conquista.

A Ásia Marítima e o Índico tinham produtos de grande procura no mercado chinês, sobretudo a pimenta. Este comércio de benefício mútuo levou a que as proibições marítimas tivessem de ser revogadas.

Sob a ordenança proibitiva do comércio externo, o lucrativo comércio marítimo estivera durante bastante tempo na mão dos privados com as suas redes clandestinas, de e para China, muito bem organizadas, comercial e militarmente.

Para recuperar este comércio ao poder estatal importava revogar as proibições marítimas e encontrar uma forma do Estado monopolizar as operações comerciais. Eis um dos mobéis básicos das expedições de Zheng He.

A historiografia tradicional chinesa persiste em citar a razão política como a causa principal das expedições de Zheng He. Mas a verdade histórica não será bem assim.
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Demasiada força armada

Uma das evidências do nosso argumento é que não seria preciso tanta força armada para o cumprimento da tarefa político-diplomática planejada...

A elevada percentagem de efetivos militares envolvidos constitui prova da importância econômica das expedições de Zheng He. Desde a entrada em vigor das proibições marítimas, o povo do litoral – uma vez perdidos os meios de subsistência – assumia o risco de ganhar a vida de forma ilícita, transformando-se em “contrabandistas” armados, no dizer dos mandarins.

Havia bases de chineses refugiados na Ásia Marítima que constituíam ameaça para as ações oficiais chinesas que pretendiam desenvolver nessa zona.

Daí que as frotas de Zheng He, fortemente armadas do ponto de vista da estratégia militar, podiam ter várias funções: a defesa própria dos tripulantes e das mercadorias de grande valor que transportavam; como fator de dissuasão, para facilitar as operações político-diplomático-comerciais; e para a repressão da pirataria.

As expedições de Zheng He teriam importância estratégica. Os mongóis, cavaleiros exímios, arrasaram a Ásia Central, a Europa de Leste e o Médio Oriente (dando origem à Pax Mongólica, que facilitou o comércio intercontinental terrestre pelas estepes do Norte), mas sofreram fortes reveses nas expedições marítimas contra o Japão, Champa, Aname e Java.

Para um eficaz combate aos mongóis das estepes do Norte, que eram uma ameaça constante para a defesa nacional, o infante de Yan que veio a ser o Imperador Yongle, transferiu a capital imperial para o seu antigo feudo, Beijing, de onde partiu para a conquista do Império que pertencia ao sobrinho.

Nota: Nela, edificou a Cidade Proibida (entre 1406–1420), o Palácio de Verão, o Templo Celestial (dedicado a cerimônias religiosas aos céus em agradecimento à boa colheita), a Floresta Proibida (zoológico particular do imperador) e o seu Mausoléu (onde foram enterrados, sucessivamente, os 13 imperadores da Dinastia Ming). A Cidade Proibida, no centro de Pequim, é o maior e mais bem preservado complexo de palácios do passado imperial da China. Era chamada de “Cidade Proibida Púrpura”, porque todas as suas estruturas de alvenaria e de madeira estavam pintadas de vermelho - símbolo de alegria e felicidade.

Com a presença da Corte em Pequim e a concentração de grandes tropas nas fronteiras, lançou cinco grande expedições terrestres no Norte contra os mongóis para os dissuadir de se aventurarem em novas invasões contra os Ming. Houve também expedições armadas contra o Aname, no Sul.

Nestas circunstâncias, as expedições de Zheng He, constituíram mais um esforço que visava pacificar os vizinhos da Ásia Marítima e mostrar o poderio militar dos Ming aos mongóis, tentando transmitir-lhes a sutil mensagem: havendo meios para expedições marítimas, mais fáceis seriam ainda as terrestres.

Impunham-lhes assim, um complexo de inferioridade por não terem conseguido abrir uma via marítima entre a China e o resto do mundo. Para os anamitas, as viagens de Zheng He eram uma força ameaçadora clara.
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Fator cultural e intercâmbio

Estas expedições marítimas tiveram um importante papel difusor cultural. Sendo uma das civilizações mais antigas da Humanidade, a China conheceu grandes viajantes, que levaram a cultura chinesa ao resto do Mundo e ao mesmo tempo, trouxeram outras culturas para o Império do Meio, constituindo um enorme esforço de intercâmbio e fusão de culturas.

No início do século XV, a maioria dos países da Ásia Marítima, encontrava-se numa fase de desenvolvimento civilizacional relativamente atrasado em relação à China.

As armadas de Zheng He, portadoras de uma cultura mais avançada, exerceram função civilizacional sobre os países visitados nessa região, com a introdução de conhecimentos de agricultura, arquitetura, da moeda metálica, calendário, vestuário e utensílios da vida quotidiana etc, dando origem a uma certa “achinesação” da Ásia Marítima (as viagens portuguesas tiveram a mesma função).

Devido a condicionalismos históricos do Império, nunca tinha havido uma viagem de tão grande envergadura como as de Zheng He, verdadeiros atos de Estado. As suas expedições constituíram, por isso, um marco histórico nas relações chinesas com o exterior.

Com a presença de um forte poderio naval militar, estendeu-se o prestígio político dos Ming à Ásia Marítima e ao Índico, fazendo com que os antigos vassalos dos Yuan voltassem a prestar a vassalagem política, agora aos Ming, novos senhores da China. Eis a razão do caráter “pacífico” da expansão marítima chinesa. Não houve necessidade de conquista territorial como bem salienta um autor português:

“No caso chinês, o Imperador Yongle não teria um sonho, mas um desígnio, que não era messiânico, mas essencialmente político; não universal, mas certamente asiático, comparado com o cunho de 'missão' que D. Manuel pretendeu imprimir às suas iniciativas marítimas. O Imperador, como representante do Céu, possuidor da virtude e garantia do equilíbrio de todos os seres, que exercia por mandato celestial, imbuído e convencido da superioridade das concepções cosmológicas, filosóficas e político-sociais do Império do Meio, devia e queria levar ao conhecimento das nações de além-mar a pujança espiritual e temporal da China. Pelo sistema do tributo, visava-se manter sob a alçada chinesa os Estados asiáticos e, através deste sistema de controle, exercer influência nos povos tributários, que assim se iam 'elevando' até aos padrões civilizacionais chineses pela mão firme e magnânima do Filho do Céu.” [03]

O mesmo autor fez ainda uma comparação interessante entre as navegações chinesas e os descobrimentos portugueses: “o sonho de D. Manuel e o desígnio de Yongle são diferentes na sua gênese e nos seus objetivos, mas convergem na estrutura psicológica e na convicção de superioridade, de destino, de origem messiânica, num, de um substrato imanente a uma milenar cultura, noutro. Vasco da Gama e Zheng He terão assim sabido incarnar a plenitude da visão estratégica global dos seus soberanos. Yongle morreu em 1424, com 64 anos. A sua política externa e o impulso dado às expedições marítimas não foram continuados pelo seu sucessor, que suspendeu as viagens. O Imperador seguinte, Xuande (1399-1435) que reinou de 1426 a 1435, ordenou ao eunuco uma sétima e última viagem. Este viria a morrer em 1433, em Calicute, 65 anos antes da chegada de Vasco da Gama à cidade. Se prosseguisse a viagem, ou outros por ele, o almirante eunuco, que já tinha tocado zonas da costa oriental africana, hoje Moçambique, poderia muito bem estar no ano seguinte ao largo da costa portuguesa. E os livros de História poderiam falar, por exemplo, da ocupação das Berlengas, em 1434, por gente estranha, de fala estranha, pele mais clara que a nossa, ricamente vestida, olhos quase cerrados, nariz pequeno (...)” [04]
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Legitimar o Imperador

Sem fins de conquista territorial, o que estava em causa era apenas a divulgação do prestígio regional e internacional do reinado de Yongle que se poderia capitalizar para consumo interno, no que se refere à legitimação da entronização de Yongle.

Sendo o quarto filho do fundador da Dinastia Ming, não estava na linha de sucessão e a usurpação, no rígido sistema feudal chinês, era certamente contra toda a ética e a moral social. Daí a necessidade de se fazer legitimar perante a nação. E para isso, a melhor argumentação seria seguir a política dos antepassados.

A Dinastia Yuan (1279-1368), derrotada pelos Ming, era um vasto império que abrangia quase toda a Ásia e parte da Europa e do Médio Oriente. O envio de emissários imperiais para o “Mundo Chinês” servia à difusão do prestígio político da Dinastia Ming (1368-1644).

Tendo por objetivo erradicar a influência dos Yuan, o Imperador fundador mal subiu ao trono da China, não perdeu tempo a enviar repetidos emissários para as terras onde poderiam persistir as influências mongóis. Para as expedições de Zheng He, o Imperador Yongle teria recorrido a estes antecedentes, que fazem parte das instruções dos antepassados.

Neste sentido, as expedições marítimas de Zheng He constituíram parte importante da política dinástica e da diplomacia do reinado de Yongle. Na escolha de um eunuco muçulmano, como o responsável máximo da armada, vê-se o tato político-diplomático de Yongle que se traduzia na seleção e de utilização de personalidades adequadas e de cariz religioso como meios adequados aos seus fins.

Mas assinale-se que como na China nunca houve “religião de Estado”, não existiu qualquer missão implícita de “dilatar a fé” como na armada de Vasco da Gama. Isto constitui “um último elemento diferenciador destas duas expansões”, que reside no caráter religioso veiculado por cada uma das expedições.

Enquanto a expansão portuguesa foi moralmente legitimada pelo espírito proselitista cristão, mas geralmente de pendor fanático e radical com o estabelecimento da proibição e perseguição das religiões alheias, a expansão chinesa não assumiu nenhum objetivo de propagação direta do seu ideário filosófico-religioso, antes se caracterizou pelo respeito e tolerância para com todas as religiões dos países visitados. [05]
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Boa Vizinhança e Paz

Pelo exposto, somos de opinião de que a essência das expedições marítimas de Zheng He foi, logo de início, cumprir as instruções dos antepassados no sentido de manter a boa vizinhança e a paz com os países vizinhos.

Seria essa portanto, uma das principais causas na origem das sete expedições marítimas chefiadas por Zheng He. Tratava-se dum ato para reforçar a legitimidade do novo reinado.

Também se aponta às expedições marítimas de Zheng He a intenção de localizar o destronado imperador Jianwen (reinou de 1398 a 1402), como medida de precaução, dada a influência que este exercia sobre toda a Corte. Mas se alguma vez tiveram esse objetivo, foi apenas nas primeiras viagens, já que gradualmente Jianwen deixara de constituir ameaça para o tio que lhe usurpara o trono.

Estabelecido o prestígio imperial de Yongle, manteve-se uma certa ordem internacional nas terras visitadas pela armada de Zheng He.

Não afirmamos que durante estas expedições marítimas, não tivesse havido por parte dos Imperadores Ming uma evidente intenção de impôr a suserania chinesa nos territórios visitados, recorrendo à força sempre que fosse necessário [06], mas também é inegável que nunca houve, da parte chinesa, ambições territoriais mediante conquistas ou ocupações efetivas, pelas razões acima referidas.

As atividades comerciais a que se dedicavam as armadas de Zheng He eram mais uma medida recompensadora da vassalagem política para com a China do que transacções comerciais propriamente ditas, o que constitui também diferença entre a expansão lusa e a chinesa.

Tal como na expansão lusitana, as expedições de Zheng He aceleraram as migrações chinesas para países da Ásia Marítima [07]. A presença da armada chinesa contribuiu para uma maior dispersão da diáspora chinesa na Ásia Marítima, de modo que comunidades chinesas com vários milhões de membros detêm, ainda hoje, um peso considerável na economia local desses países.

Durante as proibições marítimas, os chineses que emigraram formaram comunidades fortes na Ásia Marítima que mantinham relações comerciais ilegais com as respectivas terras natais no litoral chinês, dando origem não só ao contrabando, mas também à pirataria.

Uma das tarefas de Zheng He seria reprimir qualquer comunidade chinesa dissidente da Dinastia Ming, e combater a pirataria que pudesse pôr em causa a segurança das mercadorias transportadas pelas armadas expedicionárias.

Em termos econômicos, as expedições marítimas de Zheng He forneceram aos mercados externos grande quantidade de sedas, porcelanas, chá e outros produtos chineses, contribuindo desta maneira para uma maior prosperidade da economia nacional.

Os produtos exóticos, sobretudo de luxo que trouxeram, tais como pedrarias, incensos e especiarias satisfizeram as necessidades chinesas, tanto imperiais como populares. Essas preciosidades ultramarinas eram consideradas “tesouros”, daí chamarem-se às embarcações de Zheng He “navios de tesouro”.

Haveria todo um conjunto de fatores a contribuir para as expedições de Zheng He e, no entanto, cada viagem podia ter as suas motivações e objetivos diferentes. [08]

“O que levou a que fosse o Ocidente a carregar os ventos dominantes da humanidade, de há 500 anos até hoje, e a partir de um pobre e despovoado território chamado Portugal? Porque não foi a China, já então o país mais populoso do mundo e, na altura, o mais avançado social e politicamente, a liderar o processo de mundivisão, dado que tinha os meios técnicos e humanos ao seu alcance para o fazer?” [09]
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Evolução e Motivações

A capacidade naval não seria o único fator decisivo para as descobertas marítimas à escala mundial. Outros fatores haveria, tais como: motivações, a concepção do globo e a náutica.

O século XV foi de uma extraordinária importância para história da Humanidade. No Oriente, sociedades feudais como as da China e do Mundo Islâmico encontravam-se no seu auge, o que simbolizava, ao mesmo tempo, o início da decadência.

No Ocidente, uma Europa renascentista, estava a sair do medievalismo, com “a expansão dos modelos neoclássicos e da modernidade científica e tecnológica europeia” [10] através das caravelas ibéricas, dando origem a uma nova era mercantil.

Com todo um dinamismo econômico e religioso, as caravelas entraram nas águas tradicionalmente navegadas pelos juncos. Quando a armada de Vasco da Gama chegou ao Índico, as expedições de Zheng He já eram recordações históricas. [11]

A armada gâmica, embora reduzida em número de embarcações e tripulantes, era o arauto de uma cultura cristã dinâmica e de uma nova era. As armadas de Zheng He, maiores e das mais avançadas para a época, estavam a representar o último ato da milenar expansão marítima chinesa.

As duas armadas não se cruzaram. Sucederam-se uma à outra...

Os governantes da Dinastia Ming (1368-1644), não se aperceberam a tempo das enormes repercussões da presença portuguesa na sua antiga “trastienda”. E o termo das expedições de Zheng He criou um certo vácuo na esfera de influência chinesa, o que facilitou a penetração lusa no Índico.

A expansão portuguesa fez-se, com os seus próprios méritos, universalmente reconhecidos, mas este fator também terá sido importante para a sua presença no Índico e mais tarde na Ásia Marítima e no Extremo Oriente.

Se as viagens de Zheng He tivessem continuado, a história da Ásia teria sido outra.

Mesmo que não tivesse chegado ao Atlântico ou a Portugal, se Zheng He ou as suas esquadras estivessem presentes no Índico quando Vasco da Gama lá chegou, a correlação de forças teria sido diferente e os portugueses não conseguiriam com tanta facilidade impôr-se no mapa político-econômico regional. Um Gama 80 anos mais cedo, ou um Zheng 80 anos mais tarde, daria um quadro de uma China forte, dominada por uma Dinastia Ming decidida, pronta a socorrer Estados suseranos que seriam depois vítimas dos portugueses. Os escassos barcos lusos, munidos apenas da superioridade tecnológica dos canhões, tripulados, na sua maioria, por gentios, entraram no Índico quando a Dinastia Ming estrebuchava, a braços com rebeliões internas e sem uma elite esclarecida. [12]

A empresa de Vasco da Gama era tanto dinâmica como promissora, enquanto a de Zheng He, apesar de ser de grande envergadura, era desprovida de futuro, não passava de um “beco sem saída” da Dinastia Ming.

“Quando D. Henrique, o Navegador, mandava os seus navios descer, palmo a palmo, à costa ocidental da África, do outro lado do planeta navegadores chineses possuíam uma marinha sem paralelo em número, perícia e tecnologia. A sua grande frota já navegara para além do mar da China e à volta do oceano Índico, tendo chegado, pela costa oriental de África abaixo, à própria ponta do Continente Negro. Mas enquanto as explorações das naus de D. Henrique foram um prólogo para viagens marítimas que levariam à descoberta de todo um novo mundo e à circum-navegação do globo, as mais grandiosas expedições chinesas da mesma era conduziram a um beco sem saída. Prefaciaram o catastrófico isolamento dos Chineses no interior das suas próprias fronteiras, com consequências que ainda hoje vemos.” [13]

“A China navegou por mares bem conhecidos de há muitos séculos, enquanto que Portugal deu a conhecer o desconhecido ao Mundo. Os portugueses traçaram, pela primeira vez na história, uma rota marítima direta que contornou a África e ligou de forma pioneira a Europa à China.” [14]

Por isso, dado o desconhecimento de rotas que atravessavam o “Mar Tenebroso”, as flotilhas de Zheng He nunca chegariam à Europa, e muito menos às Américas como o inglês Gavin Menzies tenta provar.

Os descobridores europeus e os seus “patronos” tinham a convicção de que o mundo era redondo, de maneira que as suas navegações não foram uma aventura cega, enquanto na China estava muito enraizado um conceito de Mundo em que a terra era plana.

Na China antiga, nunca houve a preocupação de comprovar a existência da esfericidade, o que quer dizer que, teoricamente, as viagens de Zheng He não tinham a mínima missão descobridora, ao passo que as expedições europeias, logo desde o início, estiveram orientadas por uma convicção teórica, à espera de comprovação.

Apesar das motivações e da convicção da globalidade da terra, para as viagens marítimas eram necessárias cartas náuticas ou portulanos para levar os barcos a bom porto. A China ainda não conhecera um Ptolomeu até ao início da Dinastia Ming.

No meio acadêmico chinês e do Mundo Chinês, existe uma tendência de sobrevalorização das expedições de Zheng He, com uma certa ufania nacionalista. Mas cabe refletir sobre o porquê das descobertas marítimas europeias, levadas a cabo por Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, terem mudado o destino do Mundo e da Humanidade, e não o ter conseguido a China com as sete expedições de Zheng He.

No mesmo século XV e pelas mesmas águas, duas armadas fizeram as suas navegações, com objetivos bem diferentes. A gâmica personificava uma Europa dinâmica e ambiciosa e a de Zheng He, uma decadência já à vista. Esta sucessão, não teria sido uma casualidade, mas antes uma evolução lógica da história da Humanidade. Uma fatalidade histórica!

“Quando os Europeus se faziam ao mar largo com entusiasmo e grandes esperanças, a China, presa à terra, encerrava as suas fronteiras. Adentro da sua Grande Muralha física e intelectual, evitava todo o contato com o inesperado. A unidade da descrição geográfica chinesa fora durante muito tempo o kuo, ou país uma terra habitada sob um governo estabelecido. E só tal governo podia ser tributário dos Filhos do Céu. Por isso, os Chineses mostravam pouco interesse por terras desabitadas ou longe do seu alcance. Desde o século II que a ortodoxia confuciana confirmara a sua ênfase no interior. Por que haveriam os eruditos confucionistas de se preocupar com a forma do mundo exterior? A esfericidade da Terra interessava-os menos como fenômeno da geografia do que como um fato da astronomia. A ideia grega de cinco faixas de climata estendendo-se à volta do globo e as doutrinas associadas que caracterizavam as plantas e os animais que cresciam em cada zona, não lhes eram apropriadas. Ao invés, eles descreviam as características culturais de todas as partes do globo pelo seu relacionamento com o Reino Central único e não sentiam nenhum impulso para descobrir caminhos marítimos para terras exóticas ou demandar a terra incógnita.” [15]

O caráter estatal constitui uma semelhança histórica entre as viagens de Zheng He e as de Vasco da Gama. Hoje em dia, Vasco da Gama é considerado como o fundador da “Era Gâmica” [16] da Ásia, que só terminou com a reintegração de Macau na China, e o almirante Zheng He só agora é que está a ser relembrado ao Mundo Chinês.

Prepara-se uma série de eventos comemorativos dos 600 anos das viagens de Zheng He, dos quais se destacam a organização de conferências internacionais, atividades editoriais, a proposta à ONU para fixar o ano de 2005 como “Ano Pacífico dos Mares” e dois projetos multimilionários de construção de réplicas de “Navios de Tesouro”, de Zheng He.

Tanto Zheng He como Vasco da Gama foram gigantes da sua época, que contribuíram para os avanços da geografia universal e a exploração dos mares. Se o nome de Vasco da Gama está entre os grandes da história da Humanidade, o de Zheng He não pode ser esquecido ou ignorado.

Não obstante, os dois grandes navegadores, partindo de direções opostas, não produziram as mesmas repercussões na história da Humanidade, apesar da existência de certos paralelismos entre os dois.

Sabemos que ambos foram executores de planos oficiais. E porque é que a empresa de Zheng He não terá tido continuação? As possíveis causas da suspensão das viagens de Zheng He, tal como as do seu lançamento continuam a ser um completo mistério, a suscitar muitas especulações e controvérsias...
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O Porquê da Descontinuidade

Todo um conjunto de causas profundas e complexas contribuíram para esta situação. Quanto a nós, a causa principal reside em que no início da Dinastia Ming, no seio da sociedade feudal chinesa tradicionalmente agrícola, ainda não havia fortes impulsos do mercantilismo, nem necessidade de mercado externo.

Enfim, não havia motivos nem objetivos econômicos claros e persistentes. Tudo dependia da vontade do Imperador, de maneira que muitas missões de caráter mais ou menos político foram sendo suspensas à medida que mudavam os titulares dinásticos.

Zheng He serviu três imperadores e, mesmo assim, as suas causas em certo sentido mais diretamente nacionais e imperiais, não tiveram a continuidade que mereciam. Isto prova a falta de motivações econômicas dinâmicas das expedições de Zheng He.

As expedições de Zheng He morreram com a sua morte, enquanto nas descobertas marítimas ibéricas, apareceram inúmeros Colombos, Gamas e Magalhães. E na história da China nunca houve um segundo Zheng He. Não merece isto reflexão?

“O propósito destas frotas do Grande Tesouro é difícil de apreender pela mentalidade ocidental. Os interesses e os objetivos de Cheng Ho estavam tão distantes como os pólos dos interesses e objetivos das frotas europeias da idade dos descobrimentos. Os Portugueses, que desceram a costa ocidental africana e contornaram o cabo até chegarem à Índia, desejavam aumentar a riqueza da sua nação, assegurar o acesso aos produtos e aos bens sumptuários característicos do Oriente e converter os pagãos ao cristianismo.” [17]

Será muito difícil, senão impossível ordenar numa escala de importância os motivos do início e da suspensão das expedições de Zheng He, porque eles não ocuparam sempre a mesma posição. Alternaram em função das circunstâncias.
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Do Auto-isolamento à Abertura

A política da Dinastia Ming para a Ásia Marítima e o Índico teve ênfases e fases diferentes. No reinado do seu fundador, aplicavam-se as proibições marítimas que tornaram o auto-isolamento a pedra basilar da defesa nacional.

A partir do Reinado de Yongle, esta orientação mudou, dando lugar a uma política de expansão marítima, que veio a mobilizar muitos recursos, mas que dependia unicamente da vontade pessoal do Imperador.

No caso português, a expansão foi uma política nacional baseada na necessidade social e na consciência popular, com fortes e claros objetivos econômicos e religiosos, que garantiam a sua continuidade.

A mudança da política chinesa teve as suas profundas causas internas. Desde a fundação da Dinastia Ming, o país viveu longos períodos de guerra. No Norte, houve as expedições contra os mongóis, no Sul, as guerras com o Aname, pelo litoral sudeste chinês, desenvolvia-se a luta contra a pirataria japonesa e no sudoeste surgiram revoltas de minorias étnicas.

Além dos gastos militares, as despesas com as construções contínuas de palácios tanto para os Imperadores como para os príncipes mandados para várias localidades do território nacional quase esgotaram o cofre do Estado, colocando o povo sob uma pesadíssima carga fiscal e com uma vida insuportavelmente miserável.

A guerra de sucessão entre o Imperador Jianwen e o seu tio (que seria Imperador Yongle), durou quatro anos, arrasando a já debilitada economia nacional.

Quando o vencedor subiu ao trono, as finanças públicas estavam virtualmente à beira da bancarrota. O dramatismo da situação impunha uma mudança da política de isolamento para uma abertura, na tentativa de resolver a crise financeira e econômica com o tradicional comércio externo com a Ásia Marítima e o Índico, dado que a via terrestre estava sob o controle do Império de Tamerlão.

Disso dá-nos conta uma fonte fidedigna da Dinastia Ming, nos seguintes termos:

“Desde o início da entronização do Imperador Yongle, foram enviados muitos emissários para fora, com decretos imperiais para atrair bárbaros marítimos. Com isto, vieram sucessivamente tributos, compostos por mercadorias exóticas e tesouros de grande valor, que os reinados anteriores nunca tiveram. Tais coisas enchiam os armazéns oficiais. Até o povo foi, mediante decretos, autorizado a dedicar-se ao comércio de tais produtos com que se lucrava muito e se enriquecia. Os muitos benefícios que traziam para as finanças públicas faziam inveja.” [18]
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Âmbar para o Imperador

Em vez de capitalizar os enormes lucros do comércio externo, uma das tarefas das expedições era procurar coisas exóticas, de luxo, para a casa imperial, das quais destacamos o âmbar, como prova este registo histórico:

“O Imperador Taizong (Zhu Yuanzhang), ao se entronar, planejava exercer um controle que se estendia longe de maneira a mandar ir comerciar a Xiyang [19], à procura de coisas exóticas. Pérolas tão cintilantes como a lua, pedras preciosas como Yagu [20], incensos como chen (xian) [21], nan (xiang) [22], long (xianxiang) [23] e su (xiang) [24], animais exóticos como Lin [25], leões, pavão real e Cuiniao [26], coisas preciosas como Meinao (27) e água de rosa, coisas tão lindas como corais e Yaokun (Jades) vieram amontoadas em barcos das expedições.” (28)

“Nos reinados anteriores ao do Imperador Jiajing (1521-1566), este produto fazia parte dos tributos que alguns países do Sudeste Asiático traziam para a China. Outra via para a sua obtenção eram as viagens marítimas chefiadas pelo eunuco Zheng He. O início e o fim das navegações do Almirante Zheng He constituíram, respectivamente, o momento mais alto e o começo da decadência da ligação externa da China Antiga e também o percurso da queda do Império Ming marcando o momento mais poderoso no rumo do seu declínio. Com a suspensão de tais navegações, os países tributários da China deixaram de vir com tanta frequência, o que provocava a escassez de tal produto ao ponto de a Corte de Pequim se ver obrigada a tentar consegui-la fora dos circuitos do comércio tributário, isto é, pela via dos comerciantes estrangeiros. Sabe-se que o Imperador Jiajing, passada uma dezena de anos sobre as suas ordens de busca do âmbar-cinzento, acabou por ser tomado da maior perturbação. É esse o testemunho de Gu Yanwu, na sua 'Geografia Universal': Quase cem anos antes de Colombo e de Vasco da Gama, entre 1405 e 1433, em pleno reinado do Imperador Yongle, o almirante-eunuco Zheng He, à frente de 28 mil homens e dispondo de uma frota de trezentos grandes juncos (bao chuan, 'navios do tesouro'), cada um medindo 120 metros de comprimento e junto aos quais as caravelas espanholas e portuguesas teriam parecido brinquedos de criança, realizou sete grandes viagens pelos Mares da China e pelo Oceano Índico, conquistando Ceilão e Sumatra, atingindo Borneo, Celebes, Taiwan, Filipinas, Cambódia, Singapura, Timor, Java e possivelmente a Austrália, chegando ao Mar Vermelho, Pérsia e Arábia, ladeando toda a costa oriental da África até Madagáscar e só se detendo ante a malograda tentativa de conquistar o Japão.” (29)

No caso português, embora não houvesse ordens expressas da procura de coisas exóticas para a coroa, os capitães-mores sempre trouxeram preciosidades ultramarinas para a realeza. Da China apenas citamos o caso das porcelanas, adquiridas na Índia antes de terem contatos diretos com a China.

Os produtos de luxo que a Casa Imperial chinesa mandava procurar e trazer à China, além do seu valor de consumo, podiam ter certa função política, para comprovar o poderio imperial que se estendia além fronteiras chinesas, perante os seus vassalos.

Daniel J. Boorstin comenta: “As curiosidades do Mundo transformaram-se em meras manifestações da virtude da China”. Este fenômeno é um pouco universal. Na expansão portuguesa, com o rinoceronte mandado pelo D. Manuel ao Papa Francisco I (30), a Coroa Portuguesa não comprovou perante toda a Cristandade os êxitos das suas descobertas marítimas e ganhou mais prestígio internacional?

O Imperador Yongle sempre tentou harmonizar as políticas interna e externa, em benefício mútuo, procurando tirar proveito da diplomacia para a governação interna. As possíveis razões políticas das expedições de Zheng He teriam a sua componente na política interna e a vertente na política externa, alternando com facilidade.

Tendo usurpado o trono a Jianwen, o Imperador Yongle precisava de ser legitimado. E um reconhecimento interno, imposto pelo medo, não seria suficiente para tal feito. Fazer com que os antigos países vassalos da China regressassem à política de obediência e vassalagem na Corte seria uma medida polivalente.

Recuperava a suserania chinesa sobre a Ásia Marítima e o Índico e reforçava a sua legitimidade perante a sua própria nação. Poderá ter sido esse o objetivo principal das primeiras expedições, que foram muito dispendiosas.

Uma China sinocêntrica não dispenderia tantos recursos só para fins de política externa. Uma vez consolidado o trono de Yongle, terá desaparecido esta razão de entre as das expedições de Zheng He.

O outro fator considerado – determinação do paradeiro do destronado Imperador Jianwen – seria maior a preocupação do Imperador Yongle quanto ao reconhecimento por parte dos antigos países vassalos da China.

As expedições de Zheng He visavam verificar a situação e impôr o reconhecimento de Yongle, caso fosse necessário. O eunuco destacara-se com reconhecidos méritos militares na Guerra de Jinnan encetada em 1399, e tornara-se valido do Imperador Yongle.

As primeiras expedições de Zheng He tinham por tarefa principal dar a conhecer a legitimidade do novo reinado, recuperar e desenvolver as relações com os países da esfera chinesa, fazendo com que o novo Imperador, usurpador, fosse reconhecido como o legítimo dono do trono que ocupava.

Isto visava conseguir a continuação de uma tradicional vassalagem política, a qual funcionaria como uma garantia das relações entre a China suserana e os seus susernados.

O paradeiro do destronado Imperador Jianwen era um mistério completo. “O Imperador Chengzu (Yongle) suspeitando que o Imperador Hui (Jianwen) tinha fugido pelos mares, queria procurá-lo por qualquer pista”, refere o Mingshi (História dos Ming. Pequim, Livraria China, 1974, pp. 7766).

Revela-se plausível e aceitável que as primeiras expedições de Zheng He pudessem ter essa missão política secreta. Mas as últimas já não. Se não fora descoberto nas primeiras, muito menos o seria nas seguintes: para qualquer intento de restauração do seu reinado, o imperador deposto teria que ter o apoio das comunidades chinesas ultramarinas.

Fariam algum sentido as expedições que chegaram à costa oriental africana, onde não havia diáspora chinesa?

E à data das últimas expedições, o possível refugiado já seria um foragido de proveta idade, deixando de constituir ameaça. Com os insucessos na procura do Imperador Jianwen, as expedições de Zheng He perderam mais uma possível razão de ser.

Muitos dos antigos países vassalos da China, desde os finais do reinado de Hongwu (1368-1398) deixaram de vir prestar a sua vassalagem, traduzida em missões tributárias. O Imperador Yongle, como todos os monarcas de todas nações, de todas as épocas, ambicionava a liderança, fosse efetiva ou imaginária.

A fim de restaurar uma cena política em que todos os países vassalos da China competiam nos tributos para a Corte dos Ming, já o seu pai, o fundador da Dinastia, mandara vários eunucos como emissários imperiais para alguns países da Ásia Marítima e o Índico a comunicar a sua entronização.

Estas missões diplomáticas recolheram as informações necessárias ao envio posterior das expedições de Zheng He, que eram uma continuação da política externa do Imperador Hongwu (Zhu Yuanzhang).

Com as missões de Zheng He, as relações entre a China e o resto do “Mundo Chinês” foram reforçadas e o prestígio político da Dinastia Ming alargado. Atingidos os objetivos político-diplomáticos fundamentais das expedições marítimas de Zheng He, não havia, de novo, razão para continuar.

É evidente que dentre todos os motivos que se poderiam alegar para tentar explicar o abandono da expansão marítima chinesa, liderada por Zheng He, as grandiosas despesas, sem retorno econômico suficiente, seriam os mais liminares, diretos e decisivos.

Nos finais do século XV, a Europa viu barcos ibéricos a desbravar os mares dantes desconhecidos. O que tornou isto possível foram os impulsos econômicos e religiosos, verdadeiras forças motrizes das descobertas marítimas europeias, que faltaram às expedições de Zheng He.

As descobertas marítimas europeias tinham, por assim dizer, uma base econômica relativamente débil, mas um objetivo econômico bem claro e firme, enquanto na China, a expansão marítima se iniciou com um poderio militar único na Ásia, mas demasiadamente ao serviço de objetivos políticos.

As expedições de Zheng He teriam sido possíveis graças a um forte controle estatal da economia social chinesa. À medida que a economia de mercado ia ganhando terreno e a economia de estado ia enfraquecendo, desaparecia a base econômica que sustentava as dispendiosas expedições marítimas.

A suspensão das expedições de Zheng He serviram para comprovar ao mesmo tempo os seus fins político-diplomáticos e os seus fracos fins econômicos.

As imensas perdas humanas podem ter sido outro dos motivos do fim das expedições, bem como convulsões sociais provocadas pela excessiva carga fiscal, as revoltas das minorias étnicas, a pirataria japonesa, os conflitos fronteiriços, incidentes como o “Tumuzhibian” (que levaram à captura do malogrado imperador Zhu Qizhen (1427-1464) pelos mongóis), a corrupção generalizada da administração, liderada por eunucos-validos de imperadores, lutas palacianas pelo poder etc.

Atingidos os fins político-econômicos face ao empobrecimento dos recursos estatais disponíveis, e uma série de circunstâncias internas, o fim da expansão chinesa era de esperar. (31)

Em suma, as expedições de Zheng He foram uma proeza sem precedentes na história das navegações marítimas da China e do Mundo. Foram atos de Estado, onde se reuniram os fatores político, diplomático, militar e econômico.

Tiveram por objetivo primordial criar um cenário político de obediência internacional para impôr uma obediência interna, que viria legitimar a sucessão de Yongle. À primeira vista, poderiam bem parecer operações no âmbito da diplomacia chinesa. Mas na realidade, para além da sua vertente diplomática, traduziram-se antes numa imperiosa necessidade interna: o reconhecimento e a confirmação da legitimidade do Imperador Yongle pela sua própria nação, fator indispensável para a consolidação do seu poder.

Era uma operação político-diplomática, funcionando como fator dissuasor de combate aos mongóis e anamitas. Estas expedições marítimas tiveram também uma função comercial, que nunca chegou a fazer parte dos objetivos planejados e os resultados não compensavam.

Por terem sido transações para satisfazer necessidades de produtos exóticos da Corte Imperial e não para promover a economia nacional. As mercadorias autóctones chinesas que as armadas imperiais transportavam, eram, na sua maioria, “ofertas imperiais” em troca de “obediência política”.

Eram “lubrificantes” nas operações político-diplomáticas e não mercadorias destinadas a transação comercial que pudessem render lucros. Os produtos exóticos que vieram pela troca, na maioria de luxo, eram para consumo da casa imperial e da fidalguia.

Sem o mercantilismo e a religião como forças motoras e motivadoras, as expedições de Zheng He terão sido um enorme “mau negócio” embora visando um “negócio da China” no campo político-diplomático. O que era evidentemente insustentável por muito mais tempo, mesmo para um país rico como a China quinhentista.

“A frota de Cheng Ho vinha de outro mundo. O propósito das suas vastas, dispendiosas e extensas expedições não era acumular riquezas, comerciar, converter, conquistar ou coligir informações científicas. Perfeitamente equipados com a tecnologia, a inteligência e os recursos naturais para se tomarem descobridores, os Chineses condenaram-se a serem os descobertos”, refere Daniel Boorstin.

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Bibliografia

  1. Zheng Yijun, As técnicas de navegação nas armadas de Zheng He e a sua contribuição para a ciência náutica, in Actas do Seminário Ciências Náuticas de Navegação nos Séculos XV e XVI, Instituto Cultural de Macau e Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1988, pp.73-98 e Daniel J Boorstin, Os Descobridores, Lisboa, Gradiva, 2ª edição, Março, 1994, pp. 181-182.
  2. Wu Zhiliang, O encontro Luso-Chinês em Macau, in Administração, Volume IX, nº 33, Setembro de 1996, pp. 655-656 e Zhang Junyan, Gudai Zhongguo Yu Xiya Feizhou De Haishang Wanglai (Comunicações Marítimas entre a China antiga e Ásia Ocidental e a África), Pequim, Editora de Mar, 1986, pp .1-180 e dd, pp. 182.
  3. Fernando Correia de Oliveira, “500 anos de contactos Luso-Chineses”, Público e Fundação Oriente, Lisboa, 1998 , pp. 13.
  4. Fernando Correia de Oliveira, op. cit., pp. 13-14. Para um estudo mais específico, vejam A. Mesquita Borges e M. Bairrão Oleiro, Viagens Marítimas Portuguesas e Chinesas. Encontros e Desencontros, in Actas do Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua Época, vol. II, Porto, Universidade do Porto e CNCDP, 1989, 391-402.
  5. Rui D'Ávila Lourido, Zheng He (1371-1433/6) e a Expansão Marítima Chinesa de 1405 a 1433, in Dicionário da História de Macau, Universidade de Macau (no prelo).
  6. Haraprasad Ray, The Eastern Ocean and the Western Ocean – Chinese Involvement in the Geopolitics of the Pacific and the Indian Ocean Region Prior to the Advent of Portuguese Power, in The Portuguese and the Pacific, University of California, Santa Barbara, 1993, pp. 372-374.
  7. Claudine Lombar Salmon, La Communauté chinoise de Makasar, in T'oung Pao, nº LV, 1969 e as obras de Wang Gengwu sobre este tema.
  8. Ai Zhouchang e Mu Tao, Zhongfei Guanxishi (História das Relações entre a China e a África), Shanghai, 1996, pp. 68-72.
  9. Fernando Correia de Oliveira, op. cit., pp. 9-10.
  10. Rui D'Ávila Lourido Zheng He (1371-1433/6) e a Expansão Marítima Chinesa de 1405 a 1433.
  11. Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, Putaoya Shiliao Zhong Zheng He Xia Xiyang Zhi Shishi Shulue (Uma recolha de fontes portuguesas sobre Zheng He e suas expedições marítimas), in Dongxi Wangyang - Em busca de história (s) de Macau apagadas pelo tempo, Macau, 2002, pp. 212-246.
  12. Fernando Correia de Oliveira, op. cit., pp. 15.
  13. Daniel J Boorstin, op. cit., pp. 178.
  14. Zheng He (1371-1433/6) e a Expansão Marítima Chinesa de 1405 a 1433.
  15. Daniel J Boorstin, op. cit., pp. 191.
  16. Almerindo Lessa, op. cit., pp. 17.
  17. Daniel J Boorstin, op. cit., pp. 183.
  18. Wu Zhiliang e outros (dir.) Mingqingshiqi Aomenwenti Danganwenxian Huibian (Colecção Documental de Arquivos das Dinastias Ming e Qing relativos a Macau), Pequim, Editora do Povo, 1999, vol. 5, pp. 133-134.
  19. Jin Guo Ping, Daxiyangguo — O Reino de Grande Mar do Ocidente, in Daxiyangguo — Revista Portuguesa de Estudos Asiáticos, Volume I, nº 1, 1º Semestre 2002, Instituto do Oriente, Universidade Técnica de Lisboa, pp. 5-31 e The Eastern Ocean and the Western Ocean — Chinese Involvement in the Geopolitics of the Pacific and the Indian Ocean Region Prior to the Advent of Portuguese Power, pp. 365-367.
  20. Do arábico-persa “yakut”, que quer dizer “rubi”.
  21. Garo (malaio garu). Também se chama águila ou lenho-aloés.
  22. Abreviatura de Jiananxiang. Calambuco, do malaio “kalambak”.
  23. Âmbar cinzento.
  24. Uma variedade de garo.
  25. Abreviatura de “Qilin”, um lendário animal chinês. Para mais informações, cf. Daniel J Boorstin, op. cit., pp. 187-189.
  26. Martinho-pescador (Alcedo atthis).
  27. Abreviatura de “Meihuapiannao”, também conhecido como “Piannao”, uma espécie de “Longnao (Miolo de Dragão)”. Trata-se da cânfora de Bornéu.
  28. Huang Shengzeng, Xiyang Chaogong Dianlu (Vademecum dos Países Tributários de Xiyang), Pequim, Livraria China, 1982, pp. 7.
  29. Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, Reformular as Origens de Macau—Imperadores, Âmbar-Cinzento e Macau, in Revista Macau, II Série, nº 92, Dezembro de 1999, pp. 175-190.
  30. Almerindo Lessa, op. cit., pp. 96-97.
  31. Almerindo Lessa, op. cit., pp. 98 e Hariprasad Ray, The eighth voyage of the Dragon that never was, an inquiry into the causes of cessation of voyages during the early Ming dynasty, in China Report, 23/2 (1987) pp. 157-178.
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1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo
do escritor Gavin Menzies

“... uma nova teoria foi lançada: de que a frota chinesa foi muito além do que se pensava... Os juncos teriam contornado o Cabo da Boa Esperança antes de Bartolomeu Dias, chegado à América antes de Cristóvão Colombo e, por fim, efetuado a circunavegação do globo antes de Fernão de Magalhães. Qual a prova?

O inglês Gavin Menzies, historiador naval e ex-oficial da frota de submarinos de Sua Majestade, baseia sua teoria em mapas pré-colombianos que parecem mostrar as ilhas do Caribe, em alguns controversos achados arqueológicos e no fato de que a China dominou os mares antes dos europeus.

O livro em que Menzies expõe sua teoria – 1421: O Ano em que a China Descobriu o Mundo – está na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Há várias teorias sobre contatos pré-colombianos entre o Velho e o Novo Mundo.

Parece certo que 1.000 anos atrás os vikings estabeleceram uma colônia no que hoje é o Canadá. Uma questão que intriga os historiadores é como Colombo e outros europeus souberam ou suspeitaram da existência de novas terras antes de se aventurar no mar. A fonte seriam os navegantes chineses?

O sucesso do livro de Menzies talvez se deva menos à teoria da descoberta da América do que à narrativa da navegação chinesa propriamente dita. A frota que deixou a China em 1421, era liderada pelo almirante Zheng He. Num período de trinta anos, ele comandou sete expedições para demonstrar o poder da China e estabelecer rotas de comércio. Levou seda e porcelana e retornou com mercadorias e animais exóticos.

Uma girafa trazida da África foi identificada na corte chinesa como sendo um “unicórnio”. Sabe-se que o almirante eunuco navegou até Calicute e, dalí, voltou à Pequim. Menzies afirma que três de seus capitães foram adiante. Teriam dobrado o Cabo da Boa Esperança, no sul da África, e se separado em flotilhas.

Uma explorou a América do Sul, a Antártica e a Austrália, enquanto outros dois grupos navegaram pela costa das Américas Central e do Norte e contornaram a Groenlândia. Todos voltaram para a China dois anos depois.”

Fontes:

GIRAFAMANIA
Última atualização: 17/11/2009.
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CHINA MAPA DE GIRAFAMANIA
PAÍSES DA ÁSIA