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CLARICE LISPECTOR (1925-1977)
adjetivou as girafas

Escritora brasileira de origem ucraniana. Natural de Tchetchelnik (Ucrânia), vem para o Brasil ainda recém-nascida, com seus pais e dois irmãos. A família se estabelece em Alagoas, depois no Recife (PE), onde passa toda a infância.

Em 1937, muda-se para o Rio de Janeiro, onde cursa a Faculdade de Direito, a partir de 1941. Estreia na literatura com o romance Perto do coração selvagem, com apenas 19 anos de idade, publicado em 1944.

Trabalha como jornalista para A Noite. Casa-se em 1943 com um diplomata, e vai morar em diversos países. Separando-se do marido, volta a viver no Rio, onde faz traduções, artigos e crônicas para sobreviver. Falece no Rio de Janeiro, em 1977.

Em suas histórias não há começo, meio e fim, mas situações inusitadas, centradas em intuições e impressões desfiadas pelo narrador ou pelas personagens no decorrer da história. Clarice está sempre em busca de algo difícil de ser capitado, definido e descrito (como o sentimento, o fluir do tempo e o âmago das coisas), rompendo, assim, as técnicas tradicionais de narrar.

Sua narrativa tenta reproduzir o pensamento, sem limites, num ritmo lento e sutil, em que a cronologia perde a razão de ser.

Suas histórias geralmente se iniciam com o personagem numa situação cotidiana. Aos poucos, prepara-se “algo”, apenas pressentido, e, finalmente, esse “algo” ocorre, como uma iluminação que rouba o sentido habitual da realidade, revelando outro, totalmente novo. A esses momentos de revelação damos o nome de epifania. A partir deles, o personagem já não é mais o mesmo, embora sua vida continue como antes.

Os temas preferidos de Clarice Lispector são: a condição feminina, as falsas aparências dos laços familiares, os limites entre o “eu” e o “outro” e a dificuldade do relacionamento humano.

A ficção de Clarice abre uma nova perspectiva para a ficção brasileira: a do aprofundamento introspectivo, a partir de uma consciência individual.

Clarice Lispector Clarice Lispector

Suas principais obras são: Perto do coração selvagem, A maçã no escuro (1961), A paixão segundo G.H. (1964), Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969) e A hora da estrela (1977). Nessas obras, ela explora a subjetividade e o fluxo da consciência, rompendo com o enredo factual.

Criadora de uma linguagem revolucionária, é um dos nomes mais importantes da segunda fase do Modernismo. Adotando uma linha introspectiva, com seu “tropismo interior” aborda os conflitos e as antinomias do ser humano. É autora também de A Legião Estrangeira (1964), livro de contos e crônicas.

Dois de seus romances, Um Sopro de Vida e Pulsações, são publicados postumamente, em 1978...

Selo postal que compreende a série Brasil América Upaep 1998.

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HISTÓRIA DE COISA

O telefone pertence ao mundo das coisas. É um objecto vivo – faço questão de que seja “objecto” e não “objeto”. O “c” é o osso duro do telefone. Ele é um ser doido. É valsa de Mefistófeles. A autópsia do telefone dá pedaços de coisas.

Às vezes, quando disco um número, toca, toca, toca sem parar e ninguém atende: comunico-me pálida com o silêncio de uma casa oca. Até que não aguento a tensão e, nervosa, de súbito desligo, nós dois com taquicardia.

O telefone é insolúvel. O telefone é sempre emergente. As palavras não são coisas, são espírito. O telefone não fala objectos, fala espírito.

Mas eu duvido da minha própria dúvida – e não sei mais o que é coisa e o que é eu diante da coisa. Ou se trata da tirania das palavras? Tomo cuidado para não pensar demais. Faz mal às palavras.

Mas o telefone obedece a uma lei inalterável e a um princípio eterno e dinâmico. Eu me ajusto à minha incerteza certa da certeza do telefone.

Apesar de tantas conversas e palavras – o telefone é solitário. E mantém segredo. Indiscrição? Solitude.

O telefone é uma estrela. Ele se estrela todo estridente em gritos ao soar de repente em casa. Atendo, digo “Alô” – e ninguém fala. Fico ouvindo a respiração de quem me ama e não tem coragem de falar comigo.

E quando o telefone nunca toca? A grande solidão: eu olho para ele e ele olha para mim. Ambos em estado de alerta.

Até que não aguento mais e disco o número de um amigo. Para quebrar o silêncio grande.

E quando eu me comunico com o sinal de comunicação? É um enigma: eu me comunico com um “não”. Quando disco e dá sinal de ocupado, estou me comunicando com o sinal de comunicação. Com o próprio enigma, pois estou me comunicando com “não, não, não, não, não, não”. E espero angustiada que o “não, não, não” se transforme em “sim, sim, sim”. O sinal abençoado da chamada positiva de repente é: alô? de onde fala?

Eu queria saber se existe o número 777-7777. Se existe comunico-me com o além.

O telefone é como a girafa: nunca se deita. E, apesar de ser usual, é como a girafa: inusitado.

Sinto o telefone me esperar quando ele não estabelece logo uma ligação. Ouço uma respiração contida, contia, contida.

O telefone é um ser infeliz. Ele pode se desesperar e de repente transmitir uma notícia ruim que pega a gente desprevinida. Mas quando pode, dá notícia alegre. Eu então rio baixinho.

Não adianta me explicarem como funciona o telefone. Como é que eu disco um número em casa e outra casa responde? Raio laser? Não. Astronauta, sim. Como é que na Idade Média e na Renascença as pessoas se comunicavam?

Na Suíça a gente pede à telefonista para nos acordar a tal e tal hora. E também tem um serviço ótimo: a gente pergunta uma pergunta que só uma boa enciclopédia responderia. A telefonista pede para aguardar um prazo e depois telefona informando.

No Brasil demora meses ou até anos para a gente conseguir obter um telefone. Em New York um brasileiro pediu à telefonista para adquirir um telefone com muita urgência. Ela disse que não podia dar com urgência. O brasileiro desanimado perguntou quando conseguiria. Para seu pasmo, ela disse: só aqui a três dias.

Não digo o número de meu telefone porque é de grande segredo.

Meu telefone é vermelho.

Eu sou vermelha.

Tenho que interromper porque o telefone está tocando.

Assinatura de Clarice Lispector.

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Teste da FUVEST – SP

Leia o seguinte texto:

“Mas a girafa era uma virgem de tranças recém-cortadas. Com a tola inocência do que é grande e leve e sem culpa. A mulher do casaco marrom desviou os olhos, doente, doente. Sem conseguir – diante da aérea girafa pousada, diante daquele silencioso pássaro sem asas – sem conseguir encontrar dentro de si ponto pior de sua doença, o ponto mais doente, o ponto de ódio, ela que fora ao Jardim Zoológico para adoecer. Mas não diante da girafa, que era mais paisagem do que ente. Não diante daquela carne que se distraíra em altura e distância, a girafa quase verde. Procurou outros animais, tentava aprender com eles a odiar. O hipopótamo, o hipopótamo úmido. O rolo roliço de carne, carne redonda e muda esperando outra carne roliça e muda. Não. Pois havia tal amor humilde em se manter apenas carne, tal doce martírio em não saber pensar.” (Clarice Lispector)

Destaque do texto dois adjetivos diferentes que, referindo-se respectivamente à girafa e ao hipopótamo, expressem a mesma ideia. Qual é essa ideia?

Resposta: Os adjetivos são silencioso em “silencioso pássaro” e muda em “carne redonda e muda”. Esses adjetivos sugerem ideia de recolhimento e, ao mesmo tempo, de paz interior.


Curiosidade: Arte Dramática e Arte Literária – Filme brasileiro premiado na Alemanha mostra cenas de zoológico
Nota: Informação recebida por Carlos em 04/06/12.

“A hora da estrela” (Hour of the Star) é um filme brasileiro de 1985, do gênero drama, dirigido por Suzana Amaral (1932-). Duração: 96 minutos.

Sinopse: Macabéa (Marcélia Cartaxo, 1963-), uma nordestina de dezenove anos, orfã de pai, mãe e da tia que a criou, vai para o Rio de Janeiro ser datilógrafa. Ela mora em uma pensão e tem uma vida sem emoções. Conhece Olímpico de Jesus (José Dumont, 1950-) e os dois começam a namorar. Porém a relação não se sustenta e Olímpico acaba trocando Macabéa, a quem chama de “cabelo na sopa”, por Glória (Tamara Taxman, 1947-), colega de trabalho da ex-namorada, que, por recomendação de sua cartomante, madame Carlota (Fernanda Montenegro, 1929-), rouba o namorado de Macabéa. Glória, então, recomenda-lhe sua cartomante, para que se sinta melhor, e Macabéa decide ir. A cartomante diz à garota que sua vida irá mudar repentinamente: seu ex-namorado a pedirá de volta, ela ganhará uma grande fortuna e se casará com um gringo lindo que se apaixonará por ela. Macabéa fica entusiasmada, mas quando sai na rua é atropelada por uma Mercedes e morre.

Este filme ganhou vários prêmios, entre eles o Urso de Prata para melhor atriz no Festival de Berlim: Marcélia Cartaxo. O roteiro é uma adaptação para o cinema do romance homônimo de Clarice Lispector – último livro publicado em vida pela escritora –, o qual conta a história da datilógrafa alagoana Macabéa, que migra para o Rio de Janeiro, tendo sua rotina narrada por um escritor fictício chamado Rodrigo S. M. O livro de 1977, talvez o seu romance mais famoso, possui duas temáticas: é uma obra sobre a vida de uma retirante na cidade grande, mas também uma reflexão sobre o papel do escritora na sociedade antiga.

Mas não é sobre nada disto que quero falar... Em um determinado momento do filme (1:09:24) os protagonistas aparecem no caixa do Zoológico de São Paulo... Na sequência das cenas aparecem: a casa do rinoceronte-indiano, a casa de répteis (jacaré e tartaruga), dos leões e dos macacos. Especialmente em uma cena pode ser visto o rinoceronte-unicórnio (eu me lembro bem dele), que está dentro d’água cheio de pomada, pois a pele do bicho vai rachando e, para se ver livre das coceiras, o animal entra no fosso para tentar se refrescar daquela alergia... Mal sabia ele que isso só piorava...

O fato é que o filme mostra animais daquele zoo que não existem mais e também retrata uma época em que ainda não se pensava no animal como hoje em dia... O episódio termina em 1:16:01, quando em um canto do zoo Olímpico termina o namoro com Macabéa... Portanto uma parte do filme, pouco mais de 6 minutos, se passa dentro do zoo...


Portanto, Clarice qualificou de virgem, tola, inocente, grande, leve, aérea, paisagem, alta, distante, verde e “silenciosa” – adjetivo que o teste se refere.

Também adjetivou a girafa, segundo o texto “História de coisa”, de inusitada!

Eu tenho a impressão de que a escritora também se “enxergava” na girafa... Afinal, a Clarice era uma escritora inusitada e silenciosa... (assim como eu) assim como as girafas... você não acha?

CORRESPONDÊNCIAS – organização de Tereza Monteiro
Editora: ROCCO – ISBN: 8532514863 – Edição: 1º/2002 . Numero de pág.: 336

As cartas reunidas em “Correspondências” são de autoria de Clarice ou a ela enviadas, e dão justamente a medida do que significava partilhar suas inquietações, descobertas, produção literária, dúvidas e conselhos. Tê-la como amiga, como irmã. O livro organizado por Teresa Montero, autora da biografia de Clarice “Eu sou uma pergunta”, publicada pela Rocco, inclui 129 cartas que cobrem quatro décadas da vida de Clarice, dos anos 1940 até pouco antes da morte da autora, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1997.

PÁGINA DO BRASILCOLEÇÃO LITERATURA

As informações desta página são da internet, sobretudo do endereço:
www.avanielmarinho.com.br/modernismoclarice.htm
(gentilmente enviada por Josana Camilo Lapa, em 01/2005)

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Última atualização: 06/06/2012.
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